Resident-Evil-HD-Remaster

Na Trilha: GAME MUSIC – SURVIVAL HORROR Parte 1


renQuantas vezes você se viu frente àquela inevitável pergunta – “Que tipo de música você gosta?” – e, quase desculpando-se, respondeu que gostava de trilhas sonoras, não apenas daquelas coletâneas de canções, mas também das trilhas incidentais (scores)? Agora, imagine uma situação ainda pior: a de ter que confessar que, além de gostar de videogames, você também gosta… da música dos games? O mercado de trilhas de games  teve um franco crescimento, e nelas muitas vezes podemos ouvir música de qualidade às vezes próxima à cinematográfica, orquestral, outras vezes tendendo para o pop eletrônico. Não raro, a música é uma eficaz combinação de orquestra e sintetizadores, que nada fica a dever à lavra de Hans Zimmer e seus discípulos. Dentre os gêneros de games, um tornou-se muitíssimo popular, por suas características de ambientação cinemática: o Survival Horror, ou Survival Panic,  no qual os títulos iniciais da série Resident Evil (ou Bio Hazard, no original japonês) se destacaram. Nesses games, você se sente dentro de um filme: na pele de seu personagem, você percorre cenários detalhados, e além de ter que combater seus inimigos, também deve utilizar a inteligência para resolver quebra-cabeças e avançar em tramas que não fariam feio em muitos filmes de terror e ficção científica. Nesses jogos, além do aspecto visual, os efeitos sonoros realísticos e a música ajudam em muito para criar uma ambientação sinistra. Neste artigo em duas partes, comentaremos algumas trilhas do gênero, cujas edições físicas encontram-se na maior parte esgotadas e são verdadeiros itens de colecionador.

reRESIDENT EVIL ORIGINAL SOUNDTRACK REMIX – Viz Music (EUA, CD-RE01) – Lançada em 1996 para o console Playstation, a hoje clássica criação de Shinji Mikami Resident Evil tornou-se um sucesso quase que instantâneo ao juntar elementos de terror, FC e adventure a qualidades gráficas e sonoras então inéditas. É um jogo em terceira pessoa, no qual você assume o papel de Jill Valentine ou Chris Redfield, membros de um esquadrão de elite da polícia de Raccoon City que foi enviado para investigar o desaparecimento de outro grupo de policiais, ocorrido nos bosques próximos à cidade. Nos bosques, são atacados por cães mutantes, e os sobreviventes conseguem chegar a uma enorme e sinistra mansão. Lá ficam sitiados, e descobrem que o local está infestado por zumbis e outras aberrações, frutos da contaminação pelo Vírus-T criado pela multinacional Umbrella. A fim de tornar o game uma experiência realmente sinistra, além do esmero visual (detalhados cenários pré-renderizados), os técnicos da Capcom trataram de criar efeitos sonoros extremamente realistas. Os disparos das pistolas, por exemplo, foram gravados utilizando-se armas de verdade. A música, supervisionada por Makoto Tomozawa e toda interpretada em sintetizadores, foi criada para fornecer uma ambientação própria a cada cenário, fase ou cena de combate. Dada a qualidade do áudio, vale a pena jogar Resident Evil com o console conectado a um bom equipamento de som. O CD Resident Evil Original Soundtrack Remix possui mais de uma hora de duração, contendo praticamente toda a trilha musical e alguns diálogos e efeitos sonoros do jogo original, estes, em sua maioria, isolados ou no início das músicas. Em alguns casos, contudo, os efeitos sonoros (tique-taques de relógio, passos de zumbis, etc.) são usados para acentuar o clima de terror. As músicas, exceto algumas faixas pop como a inicial  (“Terror: Darkness Lives”, na qual os nomes dos personagens são anunciados), e a final  (“Still Dawn”), em quase a sua totalidade é sinistra, ambiental. Apesar de carecer de grandes qualidades intrínsecas, a música de Resident Evil vale a pena ser escutada por quem já jogou o game, de preferência na calada da noite.  No Japão também foi lançado The Bio Hazard Symphony, contendo a trilha da versão Director´s Cut do jogo, que é mais orquestral. Para seu relançamento no console Game Cube (recentemente remasterizado em HD e relançado para as plataformas atuais), o jogo foi refeito e ganhou gráficos atualizados (mas ainda mantendo os cenários pré-renderizados, porém bem mais realistas) e algumas novas fases. A trilha original foi reaproveitada, sendo criadas músicas adicionais para as fases inéditas.

re2RESIDENT EVIL 2 ORIGINAL SOUNDTRACK – Viz Music (EUA, CD-RE02) – Lançada no início de 1998, a seqüência de Resident Evil superou o original em todos os aspectos. Mais longa e em dois CDs, nela é possível optar entre dois personagens – Leon S. Kennedy, novato da polícia de Raccoon City, e Claire Redfield, irmã do Chris do jogo anterior. Além disso, cada personagem possui dois roteiros diferentes, sendo praticamente quatro jogos em um. Os gráficos mantiveram o padrão do jogo original, com fundos pré-renderizados, mas os personagens foram melhor modelados, e sua movimentação ficou mais realista. A ação inicia quando Leon e Claire chegam às ruas aparentemente abandonadas de Raccoon City, e logo em seguida descobrem que a população da cidade foi transformada em zumbis. Os vídeos com atores reais do jogo original foram substituídos por animações em 3D, que surgem em momentos-chave. Para o jogador, são mais ambientes a explorar (iniciando nas ruas da cidade e terminando no metrô das instalações da Umbrella) e mais criaturas de pesadelo a enfrentar – tudo com as melhores imagens e sons que o Playstation era capaz de fornecer. A trilha sonora de Resident Evil 2, à base de sintetizadores, foi composta por Masami Ueda, sendo definitivamente mais cinematográfica que a do game anterior. Com arranjos mais elaborados, além de acentuar a ambientação sinistra com faixas para cada área do jogo, a música fornece momentos de ação (que remetem a alguns dos primeiros trabalhos de Hans Zimmer) e um tema principal que dá consistência à trilha. Originalmente composto para um dos chefes (“The First Malformation of G”), variações deste tema foram compostas e utilizadas ao longo do jogo. O CD, com praticamente 70 minutos de duração, apresenta todas as músicas utilizadas, sem a intrusão de qualquer efeito sonoro, e nele podemos constatar a eficiente combinação de vários elementos: teclados, voz e até mesmo rock (“Special End Title”). Se você já jogou Resident Evil 2, este CD é capaz de reviver toda a experiência, especialmente se ouvi-lo com as luzes apagadas: se não, vale a pena ouvi-lo pelo simples fato de que ele é uma boa trilha sonora.

bh3BIO HAZARD 3 – LAST ESCAPE ORIGINAL SOUNDTRACK – Capcom (Japão, CPCA 1032) – Em setembro de 1999, a segunda seqüência de Resident Evil foi lançada com a finalidade de dar seguimento ao sucesso da série. No entanto, fatores como ser mais curto, ter a opção de apenas um personagem (a Jill Valentine do original) – apesar de por algum tempo você assumir o papel do mercenário brasileiro (?) Carlos Olivera – , e ter poucas novidades em relação ao anterior (além de usar as ervas para fazer remédios, o jogador pode fabricar sua munição), fizeram com que este game, mesmo sendo muito apreciado, não atingisse o nível de RE2. Mesmo assim, foi o jogo que mais elementos forneceu à série de filmes do diretor / produtor Paul W.S. Anderson baseados na franquia da Capcom. Basicamente, em Resident Evil 3 – Nemesis (ou Bio Hazard 3 – Last Escape no Japão), você deve enfrentar o vilão mutante Nemesis em vários cenários da condenada Raccoon City (incluindo alguns da Delegacia de Polícia de RE2, o que não deixa de ser uma “picaretagem”…). Masami Ueda, de RE2, juntamente com Saori Maeda, infelizmente não compôs uma trilha inspirada como a do jogo anterior. Os 2 CDs contém todas as músicas do game (mais de 140 minutos), inclusive de dois comerciais (além de duas faixas de RE2). Isso não seria um problema, se a maior parte da trilha mantivesse o padrão da de RE2. Porém, à exceção de faixas como “The Beginning of Nightmare”, “Nemesis´s Theme” ou “Nemesis Final Metamorphosis”, ela é repetitiva, e algumas músicas são longas demais. Por isso, este álbum é uma opção recomendada principalmente para os fãs mais fanáticos de Resident Evil, que já possuem as trilhas anteriores. Do lado positivo, a embalagem dos CDs apresenta uma excelente parte gráfica, com encarte contendo imagens em CG do game e comentários dos compositores (em japonês). A versão utilizada para este comentário foi a japonesa, mas também houve o lançamento americana da finada Mars Colony Music.

recvcdcoverBIO HAZARD CODE: VERONICA – Capcom (Japão, CPCA 1037) – Resident Evil CODE: Veronica, lançado no início de 2000 para o console Dreamcast, impressionou a todos pela qualidade superior dos gráficos (usando o poder do console da Sega, os personagens são bem modelados e os cenários são gerados em tempo real) e seu longo enredo (são dois CDs), que avançou na mitologia da série e adicionou, aos ingredientes clássicos de terror, dupla personalidade e insinuações de relacionamento incestuoso entre um casal de irmãos. É uma continuação direta de Resident Evil 2, onde somos apresentados à família Ashford, a fundadora da multinacional Umbrella, aqui representada pelos gêmeos Alfred e Alexia. Trancafiada em uma prisão-laboratório de uma ilha isolada, Claire (de RE2), com a ajuda de um outro prisioneiro, Steve, deverá, em seu caminho de fuga, enfrentar zumbis, monstros e o próprio Alfred. Posteriormente, em uma base da Umbrella na Antártica, a eles se juntará o irmão de Claire, Chris (de RE1), a fim de derrotar Alexia, que graças ao Vírus-T-Veronica, possui a capacidade de metamorfosear-se em  uma criatura de pesadelo. Os compositores Takeshi Miura, Hiziri Anze e Sanae Kasahara criaram um score heroico e  assustador: é quase como o de um filme de grande orçamento. A ação do jogo recebe fantásticas faixas, para realçar o ataque de zumbis e mutantes (“Pulsing Right Arm”), até os temas heróicos de Chris (“To Antarctica”, The Code is Veronica”). Também há as tradicionais faixas ambientais, ouvidas quando você, como Claire ou Chris, está explorando os cenários misteriosos. Os interlúdios ambientais são mais melódicos que os dos jogos anteriores. Mas a essência de qualquer título de Resident Evil é o medo. Os jogos anteriores tiveram sucesso em produzir músicas assustadoras, e em CODE: Veronica  a história não poderia ser diferente: faixas como “Death Siege” e “Putrid Smell” são arrepiantes, eficientes em transmitir a sensação de medo ao jogador/ouvinte. Os temas de Tyrant 3 (versões A & B) e o “Theme of Nosferatu” são admiráveis em combinar a ação e o horror. Provavelmente as faixas musicais mais inspiradas de todos os jogos sejam os temas das salas de save. Sempre belas e transmitindo uma sensação de alívio e tranqüilidade, elas dão ao jogador/ouvinte uma chance para descansar e recuperar o fôlego. Assim, o tema utilizado em CODE: Veronica é o mais suave e melódico de todos. Outras faixas transmitem melancolia, como as dedicadas à morte de Alfred e a ressurreição de  Alexia (“The Ending of the Beginning”). A nostalgia da música, por um breve momento, nos faz sentir até simpatia pelos gêmeos doentios. Também se destacam os arranjos jazzísticos, como os dos créditos finais. Há, entretanto, alguns equívocos por parte dos compositores, certamente devido a restrições orçamentárias: quase no final do game, em uma das batalhas contra a vilã metamorfoseada, uma voz sintetizada substitui a voz real da cantora (uma soprano foi utilizada em outras faixas relativas a Alexia, similares às músicas de Melissa em Parasite Eve), o que diminui o impacto da música. Em suma, assim como o game, a música de Resident Evil CODE: Veronica estabeleceu um novo padrão para a famosa série de Survival Horror. Dessa vez, a Capcom resolveu voltar a um único CD contendo versões mais reduzidas das músicas, tornando a audição mais dinâmica. Infelizmente, isto faz com que algumas faixas encerrem-se prematuramente. De qualquer modo, é uma trilha indispensável na coleção dos fãs, até porque, como um bônus, acompanha um mini-disco contendo todos os efeitos sonoros utilizados (alguns clássicos, presentes em em todos os  jogos anteriores) e alguns diálogos entre Claire, Steve e Alfred.

pevePARASITE EVE ORIGINAL SOUNDTRACK – DigiCube (Japão, SSCX10020) – A Squaresoft, famosa por seus Role Playing Games (RPG) da série Final Fantasy, não ficou indiferente ao sucesso da franquia Survival Horror da Capcom, e em 1998 lançou Parasite Eve para o Playstation. Classificado pela softhouse como Cinematic RPG, este game, efetivamente, possui elementos de RPG ausentes em Resident Evil: modo de batalha, magias (Parasite Energy), pontos de experiência acumulados, etc. No mais, o clima é similar a Resident Evil, com fases cheias de criaturas monstruosas, puzzles e cenários detalhados e pré-renderizados. Você joga como a policial nova-iorquina Aya Brea, que descobre que a cidade está sendo ameaçada por uma cantora de ópera chamada Melissa, que tem o poder de controlar as mitocôndrias das células de pessoas e animais, transformando-os em monstros. Um dos destaques do game é a trilha composta por Yoko Shimomura, com sua incomum combinação de rock, techno, ópera e voz sintetizada. Provavelmente o fato de a trilha ter sido composta e interpretada por mulheres tenha evitado que tal mistura fosse indigesta. Apesar de a voz sintetizada utilizada nos vocais de Melissa às vezes soar estranha, de um modo geral nota-se a sensibilidade da compositora em evitar excessos, além de sua habilidade em criar passagens líricas mesmo em músicas de ação. Este álbum duplo contém toda a música utilizada no game, além de algumas faixas por ele inspiradas, e vai além do que uma boa trilha sonora de um jogo deve ser. É uma música que soa bem tanto no jogo como na aparelhagem de som. Além de tudo, o CD possui uma das mais belas embalagens já lançadas: a caixa é transparente, envolta por plásticos que imitam negativos de filme, e seu encarte, reproduzindo as ótimas cenas em CG do game, também é plástico. Altamente recomendável tanto para os fãs de games como para aqueles que gostam de música techno.

peve2PARASITE EVE 2 ORIGINAL SOUNDTRACK – DigiCube (Japão, SSCX10038) – Lançada no final de 1999 para o Playstation, a seqüência de Parasite Eve demonstrou ser um game tecnicamente superior ao original, principalmente em relação à jogabilidade e gráficos: a personagem Aya Brea ficou mais fácil de movimentar, ganhou um desenho mais realista e sexy (com direito até a cena em CGI tomando banho!), e os elementos de RPG foram atenuados em favor de uma ação mais dinâmica. Porém, em termos de história e música, ficou devendo ao jogo anterior. O game em si é praticamente uma cópia de Resident Evil, e a trilha de Naoshi Mizuta alcança seus melhores momentos apenas quando utiliza temas originais de Parasite Eve. Em alguns momentos, quando a ação transcorre em uma cidadezinha abandonada do Oeste Americano, a música tende para o blues/country, com o emprego discreto de guitarra. O resto, porém, é música eletrônica burocrática, muitas vezes repetitiva – e como a trilha possui mais de 140 minutos espalhados em 2 CDs, haja paciência. Se ela fosse reduzida para apenas um disco, a experiência auditiva seria bem melhor. O jogo em si valia a pena ser jogado, afinal apresentava um excelente visual para os padrões da época, mas a trilha é dispensável, fato agravado por, à época,  ter sido lançada apenas em uma cara edição japonesa.

Jorge Saldanha

Continua na Parte 2

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