Resenha: MR. TURNER – Gary Yershon (Trilha Sonora)


turnerCDMúsica composta por Gary Yershon
SeloVarèse Sarabande
Catálogo: 302 067 318 8
Lançamento: 09/12/2014
Cotaçãostar_3

Gary Yershon é um compositor inglês que já trabalhou em teatro, rádio, televisão e em três filmes do renomado diretor Mike Leigh, até agora seus únicos trabalhos no cinema. Ele era também um ilustre desconhecido pela maioria dos cinéfilos e mesmo entre Scoretrackers até o dia 15 de janeiro de 2015, quando sua trilha para o drama biográfico Mr. Turner foi anunciada como uma das indicadas ao Oscar de Melhor Trilha Sonora. O filme conta a história do pintor inglês J.M.W. Turner, interpretado por Timothy Spall, numa performance premiada no Festival de Cannes.

Talvez o Oscar seja o prêmio máximo a que pode aspirar um compositor de trilhas sonoras. Teoricamente, sua intenção é premiar os melhores do ano no cinema, mas será que isso realmente é o que ocorre? Será realmente que o score de Jan A.P. Kaczmarek para Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland) foi mesmo a melhor trilha de 2004, superando Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban), de John Williams, Desventuras em Série (Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events), de Thomas Newman, A Vila (The Village), de James Newton Howard, e A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ), de John Debney? Eu acho que não.

E será que realmente A Rede Social (The Social Network), de Trent Resznor e Atticus Ross foi melhor do que Como Treinar Seu Dragão (How to Train Your Dragon), de John Powell, A Origem (Inception), de Hans Zimmer, O Discurso do Rei (The King’s Speech), de Alexandre Desplat e 127 Horas (127 Hours) de A.R. Rahman? E isto porque estou considerando apenas as que foram indicadas ao Oscar em 2010, pois, no mesmo ano, também tivemos Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland), de Danny Elfman, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 (Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 1), de Desplat, Tron – O Legado (Tron Legacy), do Daft Punk, O Último Mestre do Ar (The Last Airbender), de James Newton Howard, e a lista continua.

No caso mais gritante e polêmico da Academia, Gustavo Santaolalla ganhou duas vezes seguidas, por seus tediosos scores para O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain), em 2005, e Babel (idem), em 2006. Ou seja, Santaolalla não só superou diversas outras trilhas muito melhores em seus respectivos anos, como também conseguiu mais estatuetas do que mestres do calibre de Jerry Goldsmith, Bernard Herrmann e Ennio Morricone conseguiram em toda a sua carreira.

O mais triste é perceber o quanto a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que comanda o Oscar, é uma organização política. No caso de Santaolalla e Resznor e Ross, seus filmes estavam bem cotados para o prêmio principal, e acabaram perdendo para Crash – No Limite (Crash), Os Infiltrados (The Departed) e O Discurso do Rei respectivamente. Dessa forma, o Oscar de trilha sonora, assim como os outros que os longas receberam, acabam servindo como um prêmio de consolação para produtores e estúdios que tanto se empenharam em fazer campanhas para seus filmes, em busca da estatueta principal. E “prêmio de consolação” é exatamente o que define a indicação ao Oscar de trilha sonora de Mr. Turner, que, apesar de ter ótimas críticas e ser o tipo de filme que agrada à Academia, não recebeu nenhuma indicação aos prêmios principais (além do de trilha, foi indicado também à fotografia, design de produção e figurino).

Isto significa que a trilha de Yershon para o longa é ruim? Na verdade não, embora haja diversos outros scores lançados em 2014 que merecessem mais a indicação. Sua composição é relativamente simples, baseando-se em dois temas e alguns poucos motivos secundários, que se alternam e se repetem ao longo das faixas. O mais interessante acerca deste score é a orquestração, elaborada pelo próprio compositor, que utiliza em sua trilha uma pequena seção de cordas, além de harpa, saxofone, clarinete, flauta e ocasionais participações de tuba e percussão. A forma como Yershon distribui a música é bastante inteligente, e cria um som borrado, indefinível e bastante peculiar.

O tema principal é composto por notas descendentes e serpenteantes, interpretada ora pelos sopros, ora pelas cordas, numa demonstração do som indefinido que Yershon criou. Ele aparece proeminentemente na faixa de abertura, Mr. Turner, e depois tem destaque em faixas como Colour Shop and Market (na qual ganha a adição de uma harpa quase “desplatiana”), Long Time Ago, Ailing, Mourning e End Credits, em que se mistura aos outros motivos apresentados.

Há também outro tema, mais melodioso e agradável, a cargo das cordas. Duas notas desse tema o introduzem na faixa Preparations, porém, ele é melhor desenvolvido na seguinte, To Petworth, onde ganha uma melodia mais completa. Este tema depois retorna em Walks, Margate Again e On the Jetty. As duas notas iniciais também aparecem ligeiramente distorcidas em Critics e Low.

Algumas poucas faixas, porém, conseguem fugir um pouco do estilo criado por Yershon. Varnishing Day é interpretada basicamente por tímpanos, Action Painting possui violinos frenéticos, que lembram de leve canções folk norte-americanas e européias e Lashed to the Mast traz uma tuba como protagonista, junto a mais uma interpretação do tema principal. Já Old and New reúne todas as ideias apresentadas pelo compositor até então, a tuba, o tímpano, as cordas e os sopros.

O disco lançado pela Varèse Sarabande também inclui oito faixas da trilha composta por Yershon para o curta de 2012 A Running Jump, também dirigido por Mike Leigh. Sua trilha aqui tem um ligeiro toque de música caribenha, com trompete, piano, baixo e percussão. Apesar de ser mais alegre que o score de Mr. Turner, essa trilha consegue ser ainda mais cansativa do que a do longa que garantiu a indicação à Yershon, pois a música aqui também apresenta apenas meia hora de pouquíssimas variações das ideias centrais – o que me faz perguntar se este realmente é o estilo de Yershon.

Enfim, não espere na trilha de Mr. Turner alguma emoção ou momento de excitação. Seu trabalho aqui é mais intelectual e cerebral, e de difícil conexão. Muitos ouvintes certamente acharão o disco tedioso e chato. Apesar de conter algumas ideias interessantes em sua fusão de música de câmara e jazz experimental, não creio que isso seja suficiente para este trabalho de Gary Yershon seja nomeado como uma das cinco melhores trilhas do ano. Mas, claro, sempre é melhor para a imagem da Academia nomear filmes como este, e não outros que, apesar de não terem sido tão bem recebidos, certamente tem um score muito superior, como Godzilla (idem), Malévola (Maleficent) e Field of Lost Shoes. “Zebra” do ano.

Faixas:

1. MR. TURNER: Mr. Turner 3:22
2. Colour Shop And Market 1:34
3. Preparations 0:59
4. To Petworth 0:39
5. Margate Sands 0:28
6. Long Time Ago 0:20
7. Ailing 1:10
8. Mourning 0:46
9. Quiet House 0:57
10. Walks 1:01
11. Varnishing Day 0:26
12. Action Painting 1:28
13. Lashed To The Mast 1:11
14. Margate Again 1:21
15. The Fighting Temeraire 1:22
16. Steam Railway 0:49
17. Critics 0:57
18. Low 1:35
19. On The Jetty 1:37
20. Old and New 2:10
21. End Credits 4:17
22. A RUNNING JUMP: Part 1: A Running Jump – Fit ‘n’ Fancy – In The Cab/At The Garage – Sporting Spirit 5:21
23. Part 2: Billy 1:32
24. Part 3: On The Run – In The Swim 1:58
25. Part 4: On The Spot 0:46
26. Part 5: Hard Sell – Drive, Swim, Sell 7:47
27. Part 6: Cash – Sold 2:39
28. Part 7: Goals 3:01
29. Part 8: Fitter ‘n’ Fancier — Taking Flight – The Final 4:43

Duração: 56:16

Tiago Rangel
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2 opiniões sobre “Resenha: MR. TURNER – Gary Yershon (Trilha Sonora)”

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