Resenha: THE HOBBIT: THE BATTLE OF THE FIVE ARMIES SPECIAL EDITION – Howard Shore (Trilha Sonora)


Hobbit_Battle_Five_Armies_CDEMúsica composta por Howard Shore
SeloWaterTower Music
Catálogo: WTM39601
Lançamento: 16/12/2014
Cotação: ****

Quase onze anos atrás, em 29 de fevereiro de 2004, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King, 2003), foi consagrado com 11 Oscars, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor para Peter Jackson e Melhor Trilha Sonora para Howard Shore (que já havia ganho dois anos antes o mesmo prêmio pelo score de A Sociedade do Anel e só não ganhou por As Duas Torres por causa de uma estúpida regra da Academia que, felizmente, só durou um ano). Todos os prêmios que Shore venceu estabeleceram seus scores para a Terra-Média como os melhores e mais grandiosos do século 21, posto este que não foi roubado por nenhuma outra trilha sonora lançada nos anos seguintes.

Corta para dezembro de 2012. Após um longo e complicado processo, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012) chegava aos cinemas, com uma nova trilha de Howard Shore. Havia diversas dúvidas se o músico canadense retomaria a colaboração com Jackson, visto a deprimente dispensa de seu score para King Kong. Porém, logo foi confirmado o retorno não só de Shore, como também da London Philharmonic Orchestra, eleita pelo compositor como sua orquestra preferida para a Terra-Média. Sua trilha para a nova aventura passada no mundo de J.R.R. Tolkien foi ansiosamente aguardada por todos os Scoretrackers ao redor do mundo. Porém, o que era para ser uma ocasião de alegria logo se transformou em ligeira decepção ao ver o quanto a música que Shore cuidadosamente elaborou foi modificada e reinterpretada no longa. Era perceptível que o incidente King Kong havia marcado para sempre a colaboração Shore/Jackson, e que talvez o diretor neozelandês não valorizasse tanto a música do canadense quanto na Trilogia do Anel.

Os temores só aumentaram quando, no ano seguinte, se anunciou que a nova orquestra responsável pelas trilhas da Terra-Média seria a New Zealand Symphony Orchestra e Conrad Pope seria o responsável por orquestrar e reger o score, e não mais o próprio compositor. Assim, não foi surpresa muitos terem considerado a trilha de A Desolação de Smaug (The Hobbit: The Desolation of Smaug, 2013) como a mais fraca das compostas para as duas trilogias. E, resignado com os novos rumos tomados por Shore, fui ouvir a música para o encerramento da saga de Bilbo, O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos (The Hobbit: The Battle of the Five Armies, 2014).

Realmente, devo dizer que o resultado me surpreendeu. O trabalho de Shore aqui é ligeiramente melhor que o de Desolação e praticamente no mesmo nível de Jornada. Como seria de se esperar, ele fecha o novo ciclo trazendo de volta alguns temas anteriores e entregando outros novos, ao mesmo tempo em que possui a melhor música de ação da trilogia. Claro, não espere o senso operístico da Saga do Anel. Shore se manteve fiel ao novo estilo de composição que ele criou para O Hobbit, com todas as suas qualidades e defeitos.

O principal problema das trilhas da nova trilogia é a curtíssima duração dos cues. Quem assistiu A Desolação de Smaug e A Batalha dos Cinco Exércitos vai perceber que a música vem em pequenas doses, em cues que duram por apenas alguns segundos, intercaladas por longos momentos sem música. Não sei se isso foi uma decisão de Shore, de Jackson ou de qualquer outro membro da equipe dos filmes, mas compare com os longas da série O Senhor dos Anéis (ou, vá lá, com Uma Jornada Inesperada): neles, a duração dos trechos com música é bem maior e mais contínua do que aqui. A música não começa e pára o tempo todo, mas sim flui maravilhosamente através das cenas. Assim, ela é bem melhor desenvolvida do que nos dois últimos filmes d’O Hobbit. Compare, por exemplo, faixas como The Siege of Gondor ou The Battle of the Pelennor Fields (ambas das Complete Recordings da trilha de O Retorno do Rei) com Battle for the Mountain ou To The Death, e veja como o desenvolvimento impecável das primeiras simplesmente não ocorre nas últimas, em que a música muda de estilo o tempo todo.

Mesmo assim, não dá para dizer que A Batalha dos Cinco Exércitos tem uma trilha ruim. Ela é repleta de bons momentos, que ainda mostram o talento de Shore e sua paixão pelo mundo de Tolkien. Além disso, para os saudosistas, há diversos momentos épicos que não deixam nada a dever para as sequências mais grandiosas das trilhas da primeira trilogia.

ATENÇÃO: Para quem ainda não assistiu ao filme, a seguir a resenha contém SPOILERS.

Passemos então à análise da edição especial da trilha, com dois discos. Ela começa com Fire and Water, que inicia do mesmo ponto onde o álbum anterior parou (assim como o filme, cujo início serve mais como epílogo após o bizarro gancho de A Desolação de Smaug). Com o vilanesco dragão à solta, Shore retoma seus temas e estilo do score que acompanha o clímax do filme anterior. Aqui e ali há sugestões do tema de Erebor, entremeado com o próprio tema de Smaug, que domina a faixa. Na metade dela, porém, Shore introduz um novo e dramático tema para Bard, o arqueiro de Cidade do Lago, que aqui surge como um dos principais heróis do filme. Ele é interpretado inicialmente pelo coral, em contraposição com a música de Smaug nos metais, rumo à um final grandioso, com toda a orquestra e o coro. Após a batalha com o dragão, seu tema é interpretado de forma atmosférica nas cordas.

Shores of the Long Lake começa com um dos temas mais lembrados da trilha anterior, o love theme para o anão Kili e a elfa Tauriel, apresenta um novo para os humanos e, ao final, há o retorno do motivo para os mestres da Cidade do Lago, agora associados ao alívio cômico Alfrid. Beyond Sorrow and Grief traz de volta um dos melhores temas de Desolação, o relacionado à Casa de Durin e à linhagem nobre dos anões, a cargo de orquestra e coral. Porém, a certa altura da faixa, há o retorno de motivos ligados a Smaug (ouvidos nas últimas faixas do disco anterior, quando Bilbo entra na Montanha), que agora estão mais associados à loucura de Thorin e sua obsessão com o ouro da Montanha Solitária (o mesmo que levou o dragão à insanidade). Em Guardians of the Three, ouvimos alguns temas relacionados a Galadriel, Elrond e mesmo Sauron, todos de O Senhor dos Anéis, numa faixa levemente nostálgica. Há também um final com toda a orquestra e coral que não faria feio nos momentos mais grandiosos de A Sociedade do Anel.

The Ruins of Dale começa com o tema da Cidade do Lago belamente interpretado por um melancólico violino solo. Porém, ela segue alternando-se entre momentos de drama, marchas com percussão e metais e até mesmo o tema do Condado, num claro exemplo da falta de direcionamento das faixas que mencionei acima. Na sexta faixa, The Gathering of the Clouds, é possível ver que a batalha que dá título ao filme está próxima, com temas relacionados aos elfos, anões e humanos interpretados pelos sopros. Mithril começa com uma surpresa: as mesmas notas a cargo de madeiras que ouvimos em A Sociedade do Anel, quando Bilbo entrega a armadura do título a Frodo (no disco, ela pode ser ouvida em The Ring Goes South, na versão original, e em Gilraen’s Memorial, nas Complete Recordings). Faz todo o sentido, afinal, é aqui que descobrimos como Bilbo tomou posse da armadura. Porém, esse motivo é interpretado com um tempo mais lento do que em Sociedade, mas, mesmo assim, vale como um momento nostálgico. Em seguida, conforme a loucura de Thorin avança, ouvimos mais música relacionada à Montanha Solitária. A faixa finaliza com a batalha já a postos: o tema da Cidade do Lago ganha ares quase militares, e é seguido pelo da Casa de Dúrin, acompanhado por gritos de guerra que lembram um pouco o trabalho de Ramin Djawadi em Círculo de Fogo (Pacific Rim, 2013).

Bred for War é uma faixa sombria dedicada aos orcs, inclusive trazendo o tema do vilão Azog e introduzindo um novo motivo para as criaturas. Já A Thief in the Night é repleta de suspense. Nela, ouvimos novamente o motivo nas cordas primeiramente introduzido quando Bilbo salva os anões dos elfos, no filme anterior (no disco, é a nona faixa, Barrels Out of Bond). Há também o atmosférico tema da Pedra Arken, cuja importância é primordial no filme, e uma sombria interpretação do tema dos Elfos da Floresta ao final. A batalha, porém, está às portas em The Clouds Burst, e Shore entrega música relacionada aos participantes do conflito, como uma dramática interpretação do tema de Thorin, novamente o dos elfos e a primeira introdução de um dos melhores do novo disco, relacionado ao primo do Rei Anão, Dáin Pé-de-Ferro.

Enfim, o conflito que serve de clímax à trilogia começa. Em Battle for The Moutain, ouvimos inicialmente metais pesados e percussão que se relacionam aos orcs, incluindo o tema de Azog, mas depois Shore flexiona seus músculos e o tema de Dáin reaparece, numa interpretação heróica com toda a orquestra. Lembra um pouco o estilo de James Horner para o confronto final de Avatar (idem, 2009). O clima sombrio, porém, volta a dominar, com diversos trechos dissonantes, quase dignos de um filme de terror, quebrados apenas pelo dramático tema de Bard. Os heróis, mesmo assim, seguem perdendo a batalha, e The Darkest Hour é uma faixa melancólica, e traz de volta temas relacionados aos anões e aos humanos interpretados de maneira triste. Pense numa versão de Shore para Journey to the Line para ter uma ideia da faixa.

Há uma reviravolta na batalha, porém, que começa com Sons of Durin, épica faixa que traz interpretações grandiosas dos temas da Casa de Dúrin e de Thorin, com toda a orquestra e o coral. A música se torna menos altiva (dando para perceber que as faixas do disco nada mais são do que pequenos cues colados um nos outros), e alterna entre temas relacionados aos anões e aos orcs, culminando com um final que poderia ter saído do clímax de Uma Jornada Inesperada. Já The Fallen é uma faixa de suspense, com grande participação de sopros, mas que serve mais como interlúdio da batalha que ocorre. O conflito é retomado em Ravenhill, que é repleta de explosões de metais, percussão, cordas dramáticas, e um brutal conflito musical entre os temas de heróis e vilões, com o love theme servindo como alívio em meio ao caos dissonante da orquestra.

A batalha entre temas continua em To The Death, que alterna entre momentos de drama, heroísmo e puro caos orquestral. Fica nítida uma tendência de Shore para os scores da nova trilogia: enquanto em O Senhor dos Anéis a música de ação, por mais grandiosa que fosse, ainda era melódica e seguia uma linha bem definida, nos três O Hobbit há mais dissonâncias e a escrita é bem mais caótica, pesada e brutal – o que é estranho, visto que todos consideram a aventura de Bilbo menos “violenta” do que a de Frodo.

Logo, a Batalha dos Cinco Exércitos chega ao fim. Para o epílogo do longa, tem a melancólica Courage and Wisdom, que traz interpretações tristes do tema de Thorin, do love theme e mesmo uma aparição relâmpago do já clássico tema da Sociedade do Anel, prenunciando o seu surgimento. Em seguida, a ótima The Return Journey encerra a participação do tema dos anões e traz de volta o do Condado, bem como o novo de Gandalf, que Shore compôs para a nova trilogia. A faixa não deixa nada a dever para o finale que o compositor escreveu para O Retorno do Rei. Já em There and Back Again, o músico fecha o ciclo da Terra-Média, ao levar seu score novamente para o Condado, com drama e humor.

O ator Billy Boyd, que interpretou Pippin na trilogia anterior, retorna ao mundo de Tolkien para cantar a música The Last Goodbye, mantendo a tradição: enquanto em O Senhor dos Anéis a canção dos créditos finais era interpretada por uma mulher, em O Hobbit elas foram cantadas por um homem. Enfim, sua música é bonita sem ser exageradamente dramática, como Into the West, que fechou O Retorno do Rei.

A edição especial do álbum ainda inclui três faixas bônus. A primeira é Ironfoot, que serve como suíte da trilha sonora, trazendo de volta os novos temas do filme, incluindo o de Pé-de-Ferro e dos humanos, numa faixa em que, finalmente, vemos um belo desenvolvimento de Shore. Já Dragon Sickness é totalmente dominado pelos temas relacionados aos anões e à Montanha Solitária, com apenas uma participação do tema da Cidade do Lago ao final. Thrain, faixa bônus ouvida não em A Batalha dos Cinco Exércitos mas na edição estendida de A Desolação de Smaug, lançada em DVD e Blu-ray este mês, encerra o álbum de forma sombria, com música de ação e o retorno do tema de Mordor ao final – uma preparação para os terrores que cairiam sobre a Terra-Média nos anos seguintes?

Com todos os seus prós e contras, as trilhas da trilogia O Hobbit, se não superam as suas antecessoras (o que seria uma missão verdadeiramente impossível), ao menos são um trabalho cuidadoso, bem construído e tematicamente rico. Elas mostram que Howard Shore continua um compositor com talento para sagas musicais grandiosas, e que Jackson deveria dar mais valor aos scores de seus filmes, como ele costumava fazer antes.

Faixas:

Disco 1

1. Fire And Water (05:57)
2. Shores Of The Long Lake (04:01)
3. Beyond Sorrow And Grief (Extended Version) (04:11)
4. Guardians Of The Three (Extended Version) (05:47)
5. The Ruins Of Dale (03:39)
6. The Gathering Of The Clouds (Extended Version) (05:52)
7. Mithril (03:08)
8. Bred For War (03:19)
9. A Thief In The Night (04:14)
10. The Clouds Burst (04:12)
11. Battle For The Mountain (04:38)

Disco 2

1. The Darkest Hour (05:31)
2. Sons Of Durin (04:23)
3. The Fallen (04:56)
4. Ravenhill (05:47)
5. To The Death (Extended Version) (07:22)
6. Courage And Wisdom (05:09)
7. The Return Journey (04:16)
8. There And Back Again (04:19)
9. The Last Goodbye (04:05)
Billy Boyd
10. Ironfoot (Extended Version) (06:11)
11. Dragon-Sickness (Bonus Track) (03:51)
12. Thrain (Bonus Track / From “The Hobbit: The Desolation Of Smaug” Extended Edition) (03:24)

Duração: 108:12

Tiago Rangel

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10 opiniões sobre “Resenha: THE HOBBIT: THE BATTLE OF THE FIVE ARMIES SPECIAL EDITION – Howard Shore (Trilha Sonora)”

  1. O que vou comentar pode ser uma grande tolice mas, acho que o Conrad Pope não soube captar a essência musical de Howard Shore… Geralmente quando o compositor não rege sua propria musica, o regente contratado procura se aproximar ao maximo para interpretar a visão que o mesmo quer passar. Lionel Newman, por exemplo, regeu uma porrada de trilhas para o Jerry Goldsmith e nenhuma delas perdeu a característica do compositor.

    Cansei de assistir ao Pete Anthony reger as trilhas de James Newton Howard, John Debney, John Powell e Marco Beltrami e ele sabe captar muito bem a sensibilidade de cada compositor. Tim Simonec, capta perfeitamente as notas de Giacchino (e este também é regente mas prefere não conduzir). Então, por mais que orquestre eficientemente, faltou ao Conrad captar ou incorporar o estilo de Shore. E comparando as tres trilhas, Uma Jornada Inesperada foi muito melhor executada que as duas posteriores.

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