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Resenha: EXODUS: GODS AND KINGS – Alberto Iglesias (Trilha Sonora)


Exodus_CDMúsica composta por Alberto Iglesias, música adicional de Federico Jusid e Harry Gregson-Williams
Selo: Sony Classical
Catálogo: 501908
Lançamento: 02/12/2014
Cotação: ***½

As trilhas para os filmes de Ridley Scott costumam ser uma faca de dois gumes: se, por um lado, ele inspirou grandes compositores a escrever alguns dos melhores trabalhos de sua carreira, por outro é notório o quanto ele é uma pessoa difícil de se trabalhar. Afinal, este foi o mesmo sujeito que descartou boa parte da trilha de Alien – O Oitavo Passageiro (Alien, 1979), de Jerry Goldsmith, e ainda substituiu o grande trabalho do mesmo maestro em A Lenda (Legend, 1985) em favor do grupo Tangerine Dream na versão americana do filme (a trilha de Goldsmith apareceria apenas na versão europeia).

Assim, após longos anos de colaboração com Hans Zimmer e seus pupilos Harry Gregson-Williams e Marc Streintenfeld, Scott decidiu voltar seus olhos para a Espanha, o maior celeiro de compositores da atualidade, para seu novo filme, o épico bíblico Êxodo: Deuses e Reis (Exodus: Gods and Kings, 2014). O escolhido, no caso, foi Alberto Iglesias, mais conhecido por suas colaborações com Pedro Almodóvar e pelas indicadas ao Oscar O Jardineiro Fiel (The Constant Gardener, 2005), O Caçador de Pipas (The Kite Runner, 2007) e O Espião que Sabia Demais (Tinker Taylor Soldier Spy, 2011). O longa conta a história de Moisés e de como ele libertou os hebreus da escravidão no Egito. No cinema, esta não é uma história inédita, que inspirou Zimmer e Elmer Bernstein a escreverem alguns de seus mais renomados trabalhos (no caso, O Príncipe do Egito e Os Dez Mandamentos).

Trazer compositores de fora do circuito hollywoodiano, principalmente da Europa, significa que os ouvintes poderão ser apresentados a uma nova abordagem, geralmente mais orquestral, e diferente do que os já acostumados aos blockbusters estão habituados a entregar. Iglesias começou a fazer sucesso antes da atual invasão de músicos espanhóis no mercado norte-americano, e parecia uma escolha ousada para um épico como este. Tão ousada que, pelo visto, novamente Scott interferiu na música, e outros dois compositores, o compatriota de Iglesias Federico Jusid e Harry Gregson-Williams, acabaram compondo música adicional para o filme.

Ouvindo o disco de Êxodo, é possível levantar algumas teorias sobre o que realmente aconteceu. As faixas de autoria de Jusid e Gregson-Williams são mais dedicadas a ação, enquanto a música de Iglesias é mais intimista, baseada em texturas e climas. Assim, é perfeitamente possível que Scott, juntamente com o estúdio do filme, tenha sentido falta de mais ação, regravado novas cenas e, devido à indisponibilidade de Iglesias para voltar ao estúdio, foi necessário trazer novos compositores. Ou então os produtores estavam insatisfeitos com a abordagem de Iglesias, e resolveram chamar outros profissionais para reescrever e retrabalhar a música de certas partes do filme. Seja como for, a trilha tem sorte por não soar incoerente e desconjuntada.

Da parte de Gregson-Williams (que, vale dizer, também escreveu música adicional para outro filme de Scott, Prometheus), temos três faixas. A primeira é Hittite Battle, típica música de ação do compositor, que em sua integração entre orquestra e instrumentos do oriente médio, lembra seus trabalhos em longas como Cruzada (Kindom of Heaven, 2005), também dirigido por Scott, e Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo (Prince of Persia – The Sands of Time, 2010). As outras são The Vows, bonita e romântica, que encerra com tons de suspense, e Tsunami, empolgante faixa de ação com orquestra e coral. Mesmo Gregson-Williams não tendo assinado oficialmente a trilha, os trechos de sua autoria são os melhores compostos pelo músico inglês em algum tempo.

Já Jusid entregou as melhores faixas de ação do disco. Quase todos os trechos de sua autoria têm a participação do coral, como a assustadora The Coronation e as épicas Ramses Retaliates e Ramses’ Orders. Já em Lamb’s Blood, os metais tem o maior destaque, enquanto em The Chariots ele acrescenta até mesmo sutis sintetizadores em meio ao “caos” orquestral. O disco também possui três faixas co-escritas por Iglesias e Jusid, entre elas a grandiosa Moses’ Camp e a violenta Looting. Mas a melhor de todas é Into the Water, que apresenta o tema do filme interpretado de maneira progressivamente mais grandiosa. A impressão que tive foi que, nestas três faixas, Jusid foi chamado para reescrever a música de Iglesias, deixá-la mais grandiosa.

A música de Iglesias, por sua vez, se não é tão empolgante quanto a dos seus colegas, ao menos contém alguns bons momentos mais intimistas e reflexivos. Como é um filme passado no Egito, obviamente a música traria instrumentos característicos do oriente e melodias já ouvidas tantas vezes, em trilhas como as da série A Múmia. No início do disco, Opening + War Room já dá o tom de como será a música, com sua integração entre orquestra e vocalizações árabes, seguido por uma marcha militar. Em seguida, Leaving Memphis abre com uma ótima escrita para metais, e logo incorpora o restante da orquestra e do coral.

Há alguns impressionantes trabalhos para coro em Returning to Memphis e Moses in Python, enquanto mais para a frente no disco, Goodbyes é uma bela faixa para cordas, que não ficaria estranha em O Príncipe do Egito (The Prince of Egypt, 1998). Já Alone in the Desert traz um belo solo de violino, num clima triste e melancólico, enquanto I Need a General é uma das melhores do disco, de estilo quase clássico e contemplativo.

Porém, a música não apresenta muita variação a partir disso, o que quase deixa a audição monótona. Como exceções, há a grandiosa Hail e a bonita We Cross the Mountains, na qual um belo solo de violoncelo se junta à orquestra. Ao fim do disco, The Ten Commandments é um bom encerramento, com um clima mais positivo do que foi ouvido até então.

No geral, a trilha de Êxodo: Deuses e Reis, embora empalideça quando comparada com outros scores para épicos de Ridley Scott (e eu ainda prefiro as trilhas de Gladiador e Cruzada), possui bons momentos e é melhor do que os trabalhos que Marc Streitenfeld vinha entregando para o diretor. Mesmo assim, considerando o talento de Iglesias e o escopo do longa, eu esperava algo um pouco mais… memorável. É o mesmo problema da trilha de outro espanhol talentoso, Fernando Velázquez, para Hércules (que, convenhamos, devia ter sido muito mais Basil Poledouris do que Brian Tyler): bem composta e adequada, porém não muito marcante.

Faixas:

1. Opening + War Room (02:38)
2. Leaving Memphis (02:03)
3. Hittite Battle (04:15)
4. Returning to Memphis (02:36)
5. Moses in Pythom (01:49)
6. Nun’s Story (02:17)
7. The Coronation (02:28)
8. Ramses Retaliates (00:52)
9. Arm Chop (01:51)
10. Goodbyes (02:41)
11. Journey to the Village (02:14)
12. The Wows (02:23)
13. Alone in the Desert (01:36)
14. Climbing Mt Sinai (02:16)
15. I Need a General (03:21)
16. Exodus (02:52)
17. Ramses’ Orders (02:43)
18. Moses & Nun (01:47)
19. Moses’ Camp (02:42)
20. Ramses’ Insomnia (02:58)
21. Hail (02:00)
22. Animal Deaths (02:39)
23. Looting (01:18)
24. Ramses’ Own Plague (02:04)
25. Lamb’s Blood (01:39)
26. We Cross the Mountains (02:50)
27. Into the Water (03:59)
28. The Chariots (01:51)
29. Hebrews (00:57)
30. Tsunami (05:33)
31. Sword Into Water (01:12)
32. The Ten Commandments (03:37)

Duração: 78:01

Tiago Rangel

7 opiniões sobre “Resenha: EXODUS: GODS AND KINGS – Alberto Iglesias (Trilha Sonora)”

  1. Nossa, nem imaginava tudo isso! Ouço as trilhas pelo Deezer e a única informação é a de que a música é do Alberto Iglesias. Achei grandiosa, mas estranhei não ter um tema mais forte. Sua resenha trouxe ótimas informações sobre os bastidores (claro que são apenas teorias da sua mente, mas me pareceu fazer bastante sentido) e a construção dessa trilha. Valeu Tiago Rangel.

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  2. Bom, concordo com o Tiago sobre o fato dela ser mais memoravel. Entretanto, é uma boa trilha e não possui esse “geneticismo zimmeriano”. Tem bons temas, é melodica, harmoniosa. E isso ganha muitos pontos na minha perspectiva. Acredito que ela deu o suporte necessário ao filme.

    Eu gosto dos filmes do Scott, mas acho que ele é um tremendo babaca quando se relaciona com seus compositores (Zimmer parece ter sido a unica exceção).

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