Resenha: ENTER THE DRAGON: EXTENDED EDITION – Lalo Schifrin (Trilha Sonora)


EnterTheDragonCoverMúsica composta por Lalo Schifrin
Selo: Aleph Records
Catálogo: ALEPH048
Lançamento: 11/11/2014
Cotação: *****

Hoje, quando os filmes de ação e artes marciais usam e abusam de efeitos especiais e fios que suspendem os atores, Operação Dragão (Enter The Dragon, 1973), o mais famoso filme do falecido Bruce Lee, ainda impressiona por suas cenas quase que totalmente filmadas e coreografadas on camera, e nas quais brilha tão-somente a perícia dos lutadores, em especial Lee.

O compositor argentino Lalo Schifrin musicou este clássico com a sua melhor fusão de batidas funky & jazz, melodias cativantes e de sabor oriental, orquestra vibrante e muita percussão. É o exemplar definitivo do estilo de música que o compositor consagrou nos anos 1960 e 1970, combinando orquestra e ritmos pop, ouvida em The Cincinnati Kid, Bullitt, Dirty Harry, Magnum Force e muitos outros.

Apesar de ser, para muitos, o score definitivo de Schifrin, este trabalho, apesar de ter recebido várias edições nos EUA e em diferentes países desde o lançamento do LP original (que tinha meros 30 minutos de duração), nunca foi disponibilizado no Brasil em nenhum formato. Em CD, por muito tempo esta trilha esteve disponível em catálogo apenas no Japão, em edição de conteúdo idêntico ao do álbum original. Em 2001 a Warner francesa também lançou o CD com 30 minutos.

Porém, a representação “quase” definitiva do score até então estava no CD produzido por Nick Redman e lançado originalmente em 1998, para acompanhar o box com a versão comemorativa dos 25 anos de Enter The Dragon. Ele continha praticamente toda a música utilizada no filme, empregando as gravações originais remasterizadas, remixadas e apresentadas em ordem cronológica no disco. Esse álbum contudo, nunca foi oficialmente comercializado em separado.

Finalmente este ano (2014), após fechar um acordo com a Warner, o selo de Schifrin, Aleph Records, pôde relançar Enter The Dragon em uma edição estendida, com uma hora de duração. Basicamente trata-se do mesmo disco de 1998, ao qual foi agregado como bônus o tema principal do álbum original, que além de ter um arranjo levemente diferente, inclui os famosos gritos de combate de Lee.

O álbum inicia com “Prologue – The First Fight”, onde Schifrin nos serve um aperitivo para o que está por vir: uma introdução com percussão e lentos acordes orientais, seguida por um forte acompanhamento percussivo e de metais para o combate entre Lee e outro monge shaolin.  A faixa é seguida pelo famoso “Main Title”, com baixo, bateria e guitarra wah-wah ditando o ritmo enquanto a orquestra, dominada por metais e cordas, interpreta o tema principal do filme.

Temos em seguida “Su-Lin (The Monk)”, outro grande destaque da trilha, que no filme inicia a série de flashbacks dos personagens. Ela começa com uma versão oriental e mais lenta do tema principal, que leva a acordes melancólicos durante uma conversa entre Lee e seu pai e que finalmente desembocará em uma enérgica e percussiva faixa de ação que pontua o combate entre a irmã do herói (Angela Mao) e os capangas do vilão Han (Shih Kien), onde os metais se destacam.

“Sampans and Flashbacks” retoma o tema em sua pegada oriental, entremeado por cues que dão continuidade aos flashbacks, desta vez dos personagens Roper (John Saxon) e Williams (Jim Kelly). “Han’s Island” combina uma composição oriental e outra que descreve a chegada do trio de heróis à ilha de Han, onde o acompanhamento percussivo (e novamente com proeminência de metais) de Schifrin segue a magnífica tomada panorâmica que, aos poucos, irá revelar o exército de lutadores do vilão, em treinamento.

“The Banquet”, faixa de cunho totalmente japonês, é a primeira das três faixas diegéticas (aquelas que são ouvidas também pelos personagens) da trilha, e como o nome indica, é ouvida durante o banquete oferecido por Han aos participantes do seu mortal torneio de artes marciais. Ela é seguida pelas jazzísticas “Headset Jazz”e “The Gentle Softness”. A memorável “Into The Night”, que segue Lee em suas incursões noturnas pela ilha, mescla o tema principal, conduzido por baixo e guitarra, com acordes de suspense, no melhor estilo que Schifrin consagrou em Bullit – tudo recheado com efeitos de percussão e sopro,

“Tabuas não revidam” é a primeira lembrança que me vem à cabeça ao escutar “Goodbye Oharra”, faixa que pontua o duelo de Lee com o capanga Oharra (Robert Wall) responsável pela morte de sua irmã. Os acordes eletrônicos do tema ao seu final, onde toda a fúria e a angústia vingativas de Lee são estampadas em seu rosto, são antológicos.

Destaques e mais destaques. “Cara, você parece saído de um gibi”, diz Williams a Han pouco antes da luta entre os dois começar. “Bamboo Birdcage” descreve esse confronto, com novamente metais e percussão caóticos pontuando a ação, até que um acompanhamento dramático e funky marca a descoberta das garotas drogadas do vilão e o destino de Williams. “Hans Cruelty” é a perfeita descrição musical da maldade de Han, com Lalo impregnando sua composição com acordes de suspense e ameaça latente.

O bloco final do score começa com “The Human  Fly”, que retoma o desenvolvimento de “Into The Night”,  desta vez com ainda mais suspense para levar Lee ao âmago dos segredos da Ilha de Han. Nela também ouvimos os acordes eletrônicos do final de “Goodbye Oharra”, que indicam que a vingança do protagonista só terminará com a derrota definitiva de Han.  Após temos a magnífica “The Big Battle”, onde Lee, Roper e mais os prisioneiros libertos da ilha enfrentam o exército de lutadores de Han. Após uma preparação lenta e contemplativa, o caos se instala em uma batalha campal onde a orquestra de Schifrin dispara todo o seu arsenal: ritmo, metais e percussão ameaçadores, acordes japoneses e até mesmo um solo de bateria.

Finalmente Lee e Han partem para a luta final, cujo início é feito sem qualquer acompanhamento musical, que é retomado apenas quando a ação passa para a sala de espelhos, onde ambos se separam. “Broken Mirrors”, inicialmente com acordes de suspense recheados de cordas e piano,  acompanha a cena, culminando em um segmento rítmico que acompanhará o reencontro decisivo entre herói e vilão. Por fim, “End Titles” reprisa o tema principal para os créditos finais.

Encerrando o álbum ainda temos a já citada versão do tema que abria o LP original (“Theme From Enter The Dragon”), que para os fãs do filme e de Schifrin torna, esta sim, a edição definitiva deste score, e um take alternativo do “Main Titles”.

Enter The Dragon, 41 anos após o seu lançamento, ainda é uma trilha moderna que se torna mais essencial quando comparada aos trabalhos genéricos da atualidade. É a lembrança de uma saudosa era, em que os interesses comerciais da indústria do cinema e a genuína arte (seja ela marcial ou musical) não se excluíam.

Faixas:

1. Prologue – The First Fight (02:36)
2. Main Titles (02:20)
3. Su-Lin (The Monk) (04:56)
4. Sampans and Flashbacks (06:19)
5. Han’s Island (02:54)
6. The Banquet (03:02)
7. Headset Jazz (02:10)
8. The Gentle Softness (02:40)
9. Into The Night (03:43)
10. Goodbye Oharra (01:54)
11. Bamboo Birdcage (02:32)
12. Han’s Cruelty (03:09)
13. The Human Fly (03:34)
14. The Big Battle (04:47)
15. Broken Mirrors (05:54)
16. End Titles (01:06)
17. Theme From Enter The Dragon (02:23)
18. Main Titles (Alternate) (03:17)

Duração: 59:16

PS: Exceto por “Prologue – The First Fight”, as gravações inseridas na resenha correspondem às do álbum original de 30 minutos de duração, e portanto possuem algumas diferenças em relação às da edição estendida.

Jorge Saldanha

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7 opiniões sobre “Resenha: ENTER THE DRAGON: EXTENDED EDITION – Lalo Schifrin (Trilha Sonora)”

  1. Excelente texto, titio Jorge. Mas pow, precisou o Lalo relançar esta trilha para você voltar a resenhar? hehehehehe

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    1. Pois é Leandro, como ando desiludido com o nível dos scores atuais, atualmente me limito a resenhar material mais antigo e deixo as novidades para os jovens! E como sou fã de carteirinha do Lalo e desta trilha, não tinha mesmo como deixar passar.

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      1. Você está com o mesmo pensamento de um grande amigo meu. Ele tambem anda desiludido e ouvindo muita “velharia” kkkkkk. Acho que todos estamos descontentes em algum nivel.

        Abração!

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