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Resenha: INTERSTELLAR – DELUXE EDITION – Hans Zimmer (Trilha Sonora)


interstellarCDMúsica composta por Hans Zimmer
SeloWaterTower Music
Catálogo: WTM39546
Lançamento: 18/11/2014
Cotação: ***½

A colaboração com James Newton Howard em Batman Begins (idem, 2005). O tema de duas notas do Coringa em Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008). As “trompas da perdição” em A Origem (Inception, 2010). O cântico tribal e percussivo de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012). É inegável que, a cada colaboração com o diretor Christopher Nolan, Hans Zimmer traz algum ingrediente novo para a sua salada musical, que depois acaba copiado exaustivamente por outros compositores. Para o novo filme de Nolan, Interestelar (Interstellar, 2014), Zimmer resolveu popularizar um instrumento que andava meio esquecido no mundo das trilhas sonoras: o órgão.

O compositor fez questão, neste caso, de usar um órgão real ao invés de apenas “sampleá-lo” com seus sintetizadores. O instrumento é um Harrison & Harrison, localizado na London’s Temple Church e, de acordo com Zimmer, foi o escolhido por ele ser a “invenção mais complexa de sua época” – estabelecendo, assim, um paralelo com a ciência mostrada no filme. Além disso, como já seria de se esperar numa trilha do alemão para Nolan, a orquestra (composta por 34 cordas e 24 instrumentos de sopro) é apenas mais um detalhe em seus arranjos, que ainda incluem quatro pianos e um coral experimental de 60 vozes.

A boa notícia, entretanto, é que toda essa “bagunça” deu certo e Interestelar é uma trilha superior aos últimos trabalhos de Zimmer, que incluem a péssima O Espetacular Homem-Aranha 2 (The Amazing Spider-Man 2, 2014), a mediana Um Conto do Destino (Winter’s Tale, 2014) e a preguiçosa 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, 2013). Ele, que diz ter passado dois anos trabalhando na música, entregou um de seus scores mais pessoais e emocionais desde talvez Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line, 1998). É sim uma trilha toda baseada em sound design ao invés de melodias, mas, ao mesmo tempo, repleta de temas e nuances.

No disco, a primeira faixa é Dreaming of the Crash, que se inicia com ecos de uma chuva distante. Ao longe, ouvimos no órgão as notas de um dos temas principais, interpretados de maneira tão longínqua quanto a viagem do personagem de Matthew McConaughey, Cooper, empreende para salvar a Terra e a sua família. Em seguida, Cornfield Chase abre introduzindo um novo tema, um acorde de duas notas com o órgão e cordas, dedicado à relação entre Cooper e sua filha Murph. Porém, logo a música se transforma numa quase faixa de ação de ritmo rápido interpretado pelo órgão e por pianos. Dust, por sua vez, apresenta dois novos temas, o primeiro deles dedicado a retratar o estado de pobreza e secura que se transformou a Terra no filme. É uma melodia seca e árida a cargo de violinos, com acompanhamento eletrônico, em que quase dá para se sentir o gosto da poeira. O outro possui órgão, piano e cordas para indicar um dos principais mistérios da trama.

Day One abre com este mesmo tema interpretado pelo piano, até a entrada daquele relacionado a Cooper e Murph, que termina num crescendo. Stay, por sua vez, é toda dedicada ao tema da primeira faixa, que cresce de maneira absurdamente alta. De tons quase religiosos, ele culmina num final potente quando incorpora toda a orquestra ao final. O estilo da faixa e seu desenvolvimento apontam diversas semelhanças com a famosa Journey to the Line. Porém, depois de todo o volume quase exagerado, Message from Home tranqüiliza o ouvinte com uma melodia baseada apenas num piano distante.

The Wormhole, uma das mais curtas, traz um novo motivo percussivo. Já Mountains é uma das melhores do disco: ela traz a batida de um relógio em contagem regressiva, enquanto a música vai crescendo sutilmente em tensão até culminar em uma peculiar faixa de ação orquestrada de maneira incomum, mas trazendo piano, órgão e gritos do coro que lembram muito os Deshi Deshi Bashara da trilha de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Em seguida Afraid of Time traz o piano e o órgão interpretando o segundo tema da faixa três de maneira sutil.

Um novo tema é apresentado em A Place Among the Stars, uma tensa melodia com toda a orquestra, que sugere insensatez e representa o dramatismo cada vez maior da missão dos astronautas. Em Running Out, há o diálogo entre dois pianos, um mais dramático e o outro ameaçador. O seco tema da Terra reaparece em I’m Going Home, que é desenvolvido ao longo de quase seis minutos. Coward, a maior do álbum, possui um clima progressivo de tensão que é desenvolvido num novo motivo para o órgão, grandioso e intimidador, quase operístico, que culmina num complexo final para os pianos.

Detach, por sua vez, inicia de maneira quase que exclusivamente eletrônica, e logo traz de volta o tema que foi tão exagerado em Stay, com percussão, orquestra e o órgão, que culmina num grandioso final com cordas. S.T.A.Y. traz o tema de Murph e Cooper numa ambientação quase onírica e surrealista. Já Where We’re Going, a melhor do disco, tem um clima respeitoso, quase reverencial, e possui os dois temas principais interpretados de forma sutil e melancólica, que cresce até um final dramático.

A versão deluxe do disco traz oito novas faixas, a primeira delas First Step, que já havia sido usada no trailer do filme, em que o órgão e as cordas interpretam o tema principal. Flying Drone é quase que exclusivamente eletrônica, apesar do leve acompanhamento de sopros, e Atmospheric Entry nada mais é do que sutis sintetizadores. No Need to Come Back começa de maneira quieta, mas logo incorpora o tema ameaçador com as cordas.

Em seguida, Imperfect Lock traz a percussão, sintetizadores e mais tarde, cordas e piano, para representar uma das cenas mais dramáticas do filme. Já What Happens Now remete ao estilo de Mark Isham, por exemplo, e Do Not Go Gentle Into That Night traz os atores do filme recitando o poema de mesmo nome de Dylan Thomas, que tem um papel importante no longa. A última faixa é Day One Dark, na qual o órgão e o piano executam o motivo grandioso de Coward, com acompanhamento de sopros, que quase lembra o pavoroso tema de Electro na trilha anterior do compositor, mas que aqui ao menos se incorpora bem à melodia.

No geral, Interestelar é uma boa trilha, que mostra que a parceria entre Nolan e Zimmer está mais forte do que nunca. A confiança entre os dois é tanta que diversos espectadores estão se queixando de que a música está mixada alta demais no filme, impedindo-os de ouvir os diálogos. E, se as suas trilhas para os filmes de Nolan não encontram unanimidade, ao menos com o diretor ele se permite arriscar mais e fugir do padrão que ele próprio (voluntariamente ou não) estabeleceu para a Música de Cinema atual.

Faixas:

1. Dreaming of the Crash 3:55
2. Cornfield Chase 2:06
3. Dust 5:41
4. Day One 3:19
5. Stay 6:52
6. Message From Home 1:40
7. The Wormhole 1:30
8. Mountains 3:39
9. Afraid of Time 2:32
10. A Place Among the Stars 3:27
11. Running Out 1:57
12. I’m Going Home 5:48
13. Coward 8:26
14. Detach 6:42
15. S.T.A.Y. 6:23
16. Where We’re Going 7:41
17. First Step 1:47
18. Flying Drone 1:53
19. Atmospheric Entry 1:40
20. No Need To Come Back 4:32
21. Imperfect Lock 6:54
22. What Happens Now? 2:26
23. Do Not Go Gentle Into That Good Night (written by Dylan Thomas, feat. John Lithgow, Ellen Burstyn, Casey Affleck, Jessica Chastain, Matthew McConaughey, and Mackenzie Foy) 1:39

Duração: 92:29

Tiago Rangel

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