Cosmos

Na Trilha: Alan Silvestri e a música de COSMOS (2014)


Cosmos_2014_CDLançada no início do ano, a série Cosmos – A Spacetime Odyssey é uma nova versão do show de mesmo nome, que foi ao ar na década de 1980, estrelado pelo grande cientista Carl Sagan. A série de hoje possui como apresentador o físico Neil DeGrasse Tyson, que leva os espectadores a uma viagem científica pela Terra e pelo espaço. Um dos seus produtores é o comediante Seth MacFarlane, que, fã da trilogia De Volta para o Futuro, convidou o seu compositor, o grande Alan Silvestri, para trabalhar no programa. A aposta foi correta, e Silvestri recebeu o prêmio Emmy de melhor trilha sonora pelo seu trabalho.

A música de Cosmos foi lançada em quatro discos que, segundo o compositor, contém toda a música gravada para a série. São trilhas que demonstram um Silvestri mais experimental, que, como já vem demonstrando em seus scores mais recentes, se arrisca mais no campo dos eletrônicos. Como será dito abaixo, o resultado nem sempre é satisfatório, porém, a música ainda se mantém como uma audição interessante. Assim, sem mais delongas, seguem-se alguns comentários sobre cada volume:

Volume 1

No Volume 1, que compreende a música do primeiro episódio (pelo qual ele ganhou seu prêmio), Silvestri introduz o estilo musical da série, uma combinação de orquestra e elementos eletrônicos. A música é reminiscente do estilo já consagrado do compositor, como sua escrita para cordas e metais, enquanto os sintetizadores lembram a atual fase de Silvestri, em scores como Os Vingadores (The Avengers, 2012) e G.I. Joe – A Origem de Cobra (G.I. Joe – The Rise of Cobra, 2009).

O tema principal é apresentado logo em Cosmos Main Title, a primeira faixa, que possui os dois estilos característicos de Silvestri, tanto o grandioso e arrojado quanto o mais intimista, lembrando scores como Forrest Gump – O Contador de Histórias (Forrest Gump, 1994) e o próprio Contato. Come With Me possui percussão sintetizada acompanhando a orquestra, enquanto a longa The Cosmo is Yours irá agradar a todos os fãs do compositor, com seus momentos de pura grandeza orquestral.

Virgo Supercluster utiliza os sintetizadores de forma estranha, às vezes lembrando uma das genéricas trilhas de ação que assolam o mundo da Música de Cinema hoje em dia, mas compensando com um final grandioso. Já Multiverse constrói texturas com longas notas de cordas e acompanhamento eletrônico, enquanto Giordano Bruno se inicia com belos e dramáticos corais, que infelizmente não continuam no restante da faixa. Porém, Silvestri compensa com bonita melodia com cordas. Revelation of Immensity é uma das melhores do disco, bastante expansiva, com toda a orquestra e coral.

The Inquisition traz metais graves e ameaçadores e um clima de suspense, enquanto a ótima The Staggering Immensity of Time tem dimensões grandiosas a cargo de orquestra e coro. Lembra um dos melhores trabalhos de Silvestri, O Segredo do Abismo (The Abyss, 1989). Star Stuff possui primariamente estranhos e ultrapassados sintetizadores, e é um dos destaques negativos do álbum. Eles também estão presentes em Chance Nature of Existence, porém aqui de maneira menos incômoda.

New Year’s Eve inicia-se com sintetizador e solo de um estranho instrumento de cordas, porém Silvestri surpreende e acaba salvando a faixa, com uma interessante integração de percussão eletrônica, flauta, coro e orquestra, que soa bem original na filmografia do compositor. O primeiro disco termina com Our Journey is Just Beginning, uma faixa sutil e acolhedora, encerrando-se com uma reprise de alguns temas anteriores.

Volume 2

O segundo volume da coleção aborda a música do segundo episódio da série. Porém, se no primeiro disco seu maior defeito era a instrumentação eletrônica ultrapassada, aqui isto é amplificado, especialmente na segunda metade do álbum. De um modo geral, porém, é uma música mais intimista e menos grandiosa do que a do Volume 1.

O mais estranho é que o disco até começa bem, e suas primeiras faixas parecem sugerir que teremos um volume melhor que o anterior. S.O.T.I. é grandiosa, com toda a orquestra interpretando o tema principal, com destaque para as cordas e metais. You and Me and Your Dog é bastante bela, e conta com violinos, madeiras e harpas para dar um tom sutil. Interspecies Partneship tem alguns momentos de suspense com as trompas, mas depois parte para a típica música intimista de Silvestri.

O tema da décima segunda faixa retorna em Artificial Selection interpretado por uma flauta solo, acompanhada por ostinatos de cordas, que se tornarão recorrentes durante toda a faixa, que ainda possui belos momentos em que Silvestri escreve de maneira mais clássica e acolhedora. Living in an Ice Age, porém começa de maneira grandiosa, mas depois passa para uma dura instrumentação eletrônica. Já em Genetic Alphabet, a transição do eletrônico ao orquestral é feita de forma suave.

Entretanto, é a partir de Natural Selection que as coisas tomam um rumo não tão bom quanto os anteriores. Aqui, Silvestri usa uma espécie de guitarra acústica ou violão ligeiramente exótico, que, quando acompanhado dos sintetizadores, surge como um som peculiar para o compositor. Esta instrumentação retorna na faixa seguinte, Family Tree, junto a um sintetizador ultrapassado. É como se Silvestri quisesse remeter aos anos 1980, a época em que a primeira série Cosmos foi ao ar. The Eye traz, junto aos eletrônicos ultrapassados, um leve piano conduzindo a melodia, com pequenas passagens da orquestra aqui e ali.

Theory of Evolution inicia de forma ainda mais áspera, com trombones e sintetizadores trazendo um típico som “espacial”, até a entrada de uma passagem mais suave com a orquestra, que aqui soa quase como um respiro após o que veio antes. Em The Permian Period a instrumentação eletrônica a orquestra se alternam, em passagens mais sutis, com momentos de suspense e de contemplação. Já em Tartigrades, o som “espacial” é proeminente durante toda a faixa, até a entrada de cordas e trompas ao final.

A tal guitarra acústica retorna em Titan, acompanhada por cordas e sintetizador. Nesta faixa, ao menos a integração entre orquestra e instrumentação eletrônica funciona bem. The Story of My Life inicia com sintetizadores e incorpora piano e cordas, numa melodia bastante poética e sutil, algo como o James Newton Howard de Neve Sobre os Cedros (Snow Falling on Cedars, 1999). Em seguida, 4 Billion Years of Evolution começa com uma espécie de música tipicamente aristocrática, até encerrar com um final orquestral.

Não sei dizer se a proeminência dos eletrônicos aqui se deve a restrições orçamentárias ou a uma escolha do compositor, mas Silvestri nunca foi muito talentoso ao trabalhar com sintetizadores, e isto torna o segundo disco ligeiramente pior do que o primeiro. Porém, ele ainda oferece ótimos momentos, especialmente nas suas faixas iniciais.

Cosmos

Volume 3

Este volume, que possui as músicas do terceiro ao sétimo episódio, é o mais quieto e menos grandioso até então. Aqui, Silvestri investe em melodias mais tranquilas, sem tendências a momentos épicos. Infelizmente, esta nunca foi a especialidade do compositor, e o terceiro volume é o mais fraco da série.

A primeira faixa, porém, All that Is or Ever Was or Ever Will Be, inicia o disco bem, com uma lírica melodia para orquestra, coro e piano. Em seguida, Halley’s Efforts é igualmente bela, com ótima escrita para cordas e sopros. Entretanto, The Speed of Light é quase que exclusivamente eletrônica e, pior, conta com os mesmos sintetizadores ultrapassados que tanto incomodaram nos discos anteriores. Mesmo assim, Physical State of the Stars tem uma ótima mistura entre orquestra e piano.

Ibn Al-Haytham, por sua vez, oferece ao menos algo de novo para a música, ao trazer instrumentação típica árabe. The Way We Live Now traz momentos mais contemplativos, alternados com outros cômicos, enquanto The Lead Hearing, com sua mistura de cordas e sintetizador, quase chega a parecer uma faixa de ação genérica (apesar de seu ritmo ser bem mais lento). Em August, 1864, a música começa de maneira quase clássica, aristocrática, porém logo os sintetizadores oitentistas tomam a dianteira novamente.

Na nona faixa, temos sonoridades e texturas exóticas com instrumentos étnicos tipicamente árabes, criando alguma da música mais dissonante de toda a série até então. Em Mo Tze, os tons exóticos continuam predominando, mas desta vez Silvestri utiliza instrumentação japonesa. Em seguida, He Broke Through the Walls of Heaven tem momentos de drama, mistério e deslumbramento, rumo a um final que, com piano, teclado e bateria, poderia ter saído de alguma música pop da década de 1990. The Ultimate Green Power é uma faixa mais cerebral, composta quase que exclusivamente por sintetizadores, e tem um som basicamente “científico”, enquanto em Endless Searching as cordas tem o maior destaque, numa melodia simultaneamente dramática e otimista. Já Halley’s Comet, que encerra o disco, também é uma de suas melhores faixas, e também a que mais tende à grandiosidade.

O terceiro volume da série tem bons momentos, mas estes estão mais esparsos. Além disso, este também é o que menos contém as “marcas registradas” de Silvestri e, em determinados momentos, ele chega a soar como um compositor qualquer. Isso é deprimente, pois Silvestri sempre manteve um estilo muito particular.

Volume 4

Para o último volume, que possui a música dos seis últimos episódios, Silvestri entrega alguns dos melhores momentos de toda a trilha de Cosmos, e faz deste, juntamente com o primeiro, o melhor disco da coleção. Mesmo com os sintetizadores ultrapassados, que, a esta altura, já se tornaram marca registrada da série, Silvestri aqui entrega as melhores melodias da coleção.

A primeira faixa é a bela The Pale Blue Bot, que traz o tema principal interpretado de maneira delicada, primeiro no piano e depois por toda a orquestra. Em Duck Soup  e Pat Patterson há um clima mais ameaçador. Na primeira, duros sintetizadores se alternam com as cordas, e na segunda há um sombrio solo de piano precedendo a entrada da orquestra. Em seguida, a excelente faixa 4,5 Billion Years Old começa com orquestrações misteriosas, até que, em sua segunda metade, os sintetizadores se fundem com a orquestra, com uma escrita complexa, forte e grandiosa.

Sifting the Stars inicia com instrumentação árabe e eletrônica, até se transformar numa peça orquestral que vai do épico ao intimista. Em Stellar Atmospheres o tema principal retorna em toda a orquestra, acompanhado por guitarra, culminando num final eletrônico bastante otimista. Já na faixa What About Us temos a clássica escrita “silvestriana”, com destaque para os metais, que aqui acrescentam grandiosidade à faixa.

Após o banquete que foram as últimas faixas, é ligeiramente assustador iniciar com sintetizadores carregados em Adaptable Species, mas ela logo se converte numa bela faixa orquestral, que ainda inclui uma boa apresentação do tema principal com piano e cordas. Paris, 1878 é uma faixa alegre, de estilo clássico e quase brincalhão, com boa performance de toda a orquestra. Em Once There Was a World há uma expressiva escrita para os metais, com destaque para os trompetes, em uma faixa de tons épicos.

Para o final do disco temos as belas Islands of Lights e Sacred Searching, que fazem belíssimas reapresentações dos temas principais com toda a orquestra. Em seguida, há uma peça para os créditos finais, que reprisam o main theme com a orquestra e os eletrônicos.

O quarto disco é o que tem o maior número de faixas que podem ser consideradas realmente excelentes. Sua audição se revela uma surpresa após os fracos volumes anteriores, e demonstram o talento de Silvestri para criar melodias grandiosas e, ao mesmo tempo, tocantes.

Tiago Rangel

9 opiniões sobre “Na Trilha: Alan Silvestri e a música de COSMOS (2014)”

  1. Fiquei bastante curioso por suas opiniões em relação a esse trabalho do Alan Silvestri. Achei ótimo na série, mas não achei agradável ouvir separadamente, a não ser o volume 4.

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