interstellar

Resenha: INTERESTELAR (Filme em Destaque)


interestelarInterstellar, EUA, 2014
Gênero: Ficção Científica
Duração: 169 min.
Elenco:  Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Wes Bentley, Topher Grace, William Devane, Casey Affleck
Trilha Sonora OriginalHans Zimmer
Roteiro: Jonathan Nolan, Christopher Nolan
Direção: Christopher Nolan
Cotação: ****

A missão de Christopher Nolan é tão ambiciosa quanto a dos astronautas que pretendem procurar recursos para salvar o planeta Terra da extinção em INTERESTELAR (2014), muito provavelmente o melhor trabalho do diretor. Felizmente, o saldo foi mais do que positivo e todos aqueles problemas habituais nos filmes de Nolan (excesso de didatismo e falta de senso de humor, por exemplo) são minimizados nesta ficção científica que homenageia explicitamente a obra-prima 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick.

O didatismo até aparece, como quando um dos astronautas tenta explicar o buraco de minhoca para Cooper, o personagem de Matthew McConaughey. Esse tipo de teoria é bem parecido com a dobra espacial tão comum nos filmes da série STAR TREK. No entanto, há tantos momentos de fundir a cuca, que Nolan está mais do que perdoado. Até porque sua história (e de seu irmão Jonathan) é tão cheia de engenhosidade e inteligência que não resta outra coisa a não ser admirar.

Quanto à falta de senso de humor em seus filmes, não deixa de ser curioso o fato de o humor vir justamente de um robô. Claramente mais uma piscadela de olho para os fãs de 2001, já que no filme de Kubrick os homens são frios e o computador HAL-9000 é o único a ter sentimentos. Em INTERESTELAR, por outro lado, não falta sentimentalismo, necessário para a dramaticidade da história. Afinal, trata-se do fim da espécie humana e uma busca desesperada por salvação.

O que pode ser um perigo em admirar tanto o filme é a excelência dos efeitos especiais, especialmente se vistos em uma sala IMAX. Aliás, devia ser obrigatório ver o filme em IMAX, com toda sua glória. Fico imaginando como seria ver numa sala IMAX com um projetor 70 mm, que dizem ter muito mais nitidez, mas do jeito que está já é espetacular. E o fato de a janela ser em scope nas cenas não filmadas em IMAX e ter sua tela expandida para cima e para baixo nas cenas com a tecnologia ajudam bastante a percebermos o quanto a imagem fica mais bonita e o som ainda mais potente.

Felizmente, nem só de efeitos visuais de cair o queixo se faz INTERESTELAR. O filme tem um diálogo com o tempo e com a solidão enternecedor. E começa desde o momento em que Cooper precisa partir e não sabe quando voltará. Isso entristece profundamente a filha devotada e inteligente Murph (Mackenzie Foy, na versão infantil; Jessica Chastain, na versão adulta).

Um dos problemas do roteiro, porém, acontece justamente no recrutamento de Cooper, que é muito rápido e soa pouco convincente. Faltou mais capricho nessa parte. Mas, uma vez que essa sequência passa, o que vem a seguir é de estremecer o corpo e excitar o coração. Os momentos anteriores à entrada no buraco de minhoca são cheios de emoção e suspense, já que não se sabe nada do que os astronautas verão do outro lado. Ou se sobreviverão àquilo.

A degeneração da Terra através de uma poeira que destrói plantações e faz a população mundial sofrer com falta de comida e doenças é outro aspecto que o filme não deixa para trás depois que Cooper, Amelia (Anne Hathaway), o robô TARS e outros dois astronautas adentram naquele caminho desconhecido e perigoso. Assim, o filme segue num paralelo interessante (e emocionante – como não ficar comovido com os vídeos enviados para a nave?), ainda que o foco seja mais no espaço.

A música de Hans Zimmer, aqui especialmente inspirado, também contribui para toda essa carga de emoção e excitamento que o filme provoca, tanto sentimental quanto racionalmente. Afinal, Nolan sempre foi mesmo muito racional, vide sua visão tão cerebral dos sonhos em A ORIGEM (2010). Outro técnico digno de nota é o diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema, o mesmo de outra ficção científica fascinante, ELA, de Spike Jonze. As imagens são de encher os olhos, tanto na Terra quanto no espaço.

Também merece louvor a montagem de Lee Smith, colaborador habitual de Nolan, que faz com que as quase três horas de duração do filme sejam sequer sentidas pelo espectador, que se senta na poltrona do cinema como se estivesse participando também da viagem para um lugar além da nossa galáxia. E de certa forma estamos.

Ailton Monteiro

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