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Na Trilha: Ouvindo STAR TREK – 1979 a 2002 (Parte 1)


Desde o seu início em 1966, a franquia Jornada nas Estrelas (Star Trek) deu origem a um variado e extenso material composto para a TV e o cinema, tendo a maior parte já sido lançada comercialmente e, em alguns casos, em várias edições. Neste artigo em duas partes, abordaremos apenas os scores compostos para os filmes de cinema, prévios à nova fase iniciada em 2009.

star_trek1Jornada nas Estrelas: O Filme (Jerry Goldsmith, 1979. *****) – A trilha de Goldsmith para a estreia cinematográfica da franquia é uma obra-prima clássica, e certamente o melhor score de 1979 (apesar de o Oscar ter ido para Um Pequeno Romance, de Georges Delerue). Seguindo ao nascimento do fenômeno Star Wars, Goldsmith tomou a difícil decisão de criar um novo tema que de forma alguma fosse confundido com o da popular série original de TV. Hoje, é difícil de se acreditar que Goldsmith teve dificuldades com o tema principal do filme, já que ele virou uma espécie de “hino” tanto para os filmes como para a série de TV da Nova Geração. Dito isto, e já tendo ouvido o tema tantas vezes, é preciso reconhecer que nenhuma trilha Trek, desde então, apresentou tantas faixas e temas secundários de qualidade. O que de certa forma é de espantar, se considerarmos o cronograma apertado para a produção de Star Trek: The Motion Picture, que levou mesmo o compositor a buscar o auxílio do autor do tema original da série clássica, Alexander Courage, para auxiliá-lo na finalização das gravações.

Abrindo a reedição do CD expandido da Sony, de 1999, o tema da personagem Ilia possui sensibilidade e romantismo adaptados à orquestra, de uma forma nunca mais igualada na série. Ele é central para a trilha, com sua última performance em “Vejur Speaks”, já ao final do filme. Star Trek: The Motion Picture apresenta uma suíte nos créditos finais, na forma estabelecida por  John Williams em Star Wars, e nela, o tema principal (que é o da nave estelar Enterprise) e o de Ilia são reprisados, combinados de forma perfeita. O estilo sonoro único deste trabalho também pode ser atribuído à utilização de um grande e metálico instrumento chamado “Blaster Beam”. Este instrumento é ouvido pela primeira vez  durante a seqüência inicial com os Klingons. O “Beam” reapareceu em curtos trechos das duas trilhas posteriores de James Horner, e depois foi esquecido. Por outro lado, na seqüência Klingon mencionada acima também surgiu a matriz para a música que caracterizaria esses alienígenas em outros filmes com música de Goldsmith, inclusive tornando-se o tema de Worf em Primeiro Contato e Insurreição.

star_trek2Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan (James Horner, 1982, ****½) – Segundo Horner, quando Nicholas Meyer contratou-o para compor a música para a antecipada primeira seqüência de Star Trek: The Motion Picture, a ideia era fazer uma trilha mais convencional, com um senso de aventura em alto-mar. Horner não usou a instrumentação eletrônica esparsa que Goldsmith empregou no original, e nem o material temático do seu colega, retornando com sucesso à introdução do tema de televisão de Alexander Courage, incorporando-a ao seu novo tema principal. Sendo a trilha que impulsionou a carreira de Horner, The Wrath of Khan contém um grande número de “Hornerismos” que se repetiriam em trabalhos subsequentes (por exemplo, as fanfarras que são idênticas às de Krull, Rocketeer e outros filmes). A música de Wrath of Khan, com sua ênfase nos metais, forma uma coreografia “náutica” que combina perfeitamente com os visuais. Tematicamente falando, Wrath of Khan não é melhor que o filme anterior, mas possui temas extremamente criativos que culminam na inspirada faixa final  (quando nos é revelado que o esquife de Spock encontra-se intacto no Planeta Gênesis). A grandeza épica de A Ira de Khan a coloca entre as melhores trilhas já compostas para Star Trek.

star_trek3Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock (James Horner, 1984, ***) – A trilha de Horner para The Search for Spock é, infelizmente, medíocre. O compositor tentou apresentar uma música mais elaborada para esta sequência, e apesar de a orquestra soar melhor, o todo não possui o frescor do trabalho anterior. Alguns momentos de The Search for Spock são até mesmo mais impressionantes que The Wrath of Khan, porém há muitas faixas que são, simplesmente, monótonas. O score é “requentado” – não houve a introdução de nenhum grande novo tema, e nem os apresentados no filme anterior foram significativamente alterados. O tema Klingon empregado por Horner é uma inferior variação do equivalente de Goldsmith, basicamente um conjunto superficial de metais e percussão, e não ajuda muito a cena na qual a nave U.S.S. Grissom é destruída pela Ave de Rapina. Também não ajudam as longas versões do tema de Spock, ouvidas particularmente na metade do álbum. No lado positivo, Horner faz um melhor uso do tema de Courage: ouvimos até mesmo um trecho inteiro dele, além da conhecida fanfarra. O álbum original inclui uma desnecessária (e datada) versão pop/dance do tema principal.

star_trek4Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa (Leonard Rosenman, 1986, **) – O score mais atípico de todos, The Voyage Home de Rosenman até que engana no filme, mas decepciona em disco. Como esta trilha foi indicada para o Oscar é um mistério – foi mais uma daquelas indicações estranhas, ainda mais se considerarmos que nenhuma das trilhas Trek subsequentes – e superiores – teve esta distinção. É aceitável que a música do quarto exemplar da franquia fosse diferente, dada a natureza mais leve e cômica do filme, mas isso não justifica o enorme desvio que a trilha de Rosenman tomou, já que não apresenta qualquer semelhança com a música que ouvimos nos outros filmes. Há uma “falta de espírito” que é crucial para avaliarmos o trabalho de Rosenman: a música é leve demais, deslocada e orquestralmente desinteressante. Mesmo o tema de Alexander Courage, que poderia remediar a situação, é usado apenas um par de vezes. A orquestra é fraca, e o tema principal de Rosenman é mais adequado para um documentário do Discovery Channel sobre baleias. Falta ação nas “músicas de ação” de Rosenman, e seu uso de sonoridades russas na faixa de Chekov é tolo e desnecessário. Na verdade, o som mais memorável de todo o filme é o canto das baleias: a música, ao contrário, ruma em velocidade de dobra para o limbo. Sem dúvida alguma esta é a mais fraca trilha Trek já composta para o cinema, e felizmente, um par de anos depois, o ator / diretor William Shatner telefonou para Goldsmith e recolocou (pelo menos musicalmente) as coisas no lugar.

star_trek5Jornada nas Estrelas V: A Fronteira Final (Jerry Goldsmith, 1989, ****) – Esta é, talvez, a trilha Trek mais injustiçada – provavelmente em virtude do fracasso de crítica e público do filme. Goldsmith trouxe de volta seu tema de Star Trek: The Motion Picture, que lhe valeu a indicação ao Oscar em 1979 e um Emmy em 1987 (pela série de TV da Nova Geração), mas agora, a exemplo do que Horner e Rosenman fizeram, com a introdução da fanfarra original de Alexander Courage. Junto retornou o tema Klingon, ao lado de um novo tema dedicado a “Deus”, desenvolvido na faixa “A Busy Man”. Apesar das falhas do filme (que pelo menos tem bons momentos de camaradagem envolvendo a “Santíssima Trindade” Kirk, Spock e McCoy),  sua trilha, mesmo ouvida separadamente, é muito boa. Possui a característica qualidade Goldsmith:  metais pesados e envolventes, percussão eclética para os Klingons malvados, sintetizadores aqui e ali, e um cativante tema de cordas que faz milagres até no filme. As composições de ação são tão boas quanto as de O Vingador do Futuro (composta no mesmo ano). O tema de quatro notas que conduz a trilha (e que será ouvido novamente em Star Trek: First Contact) torna-se um tanto repetitivo, entretanto o tema principal, o de Alexander Courage e o dos Klingons são utilizados de forma econômica e efetiva. De um modo geral, pode ser considerada como a segunda melhor partitura que Goldsmith compôs para a franquia.

Continua na Parte 2

Jorge Saldanha

13 opiniões sobre “Na Trilha: Ouvindo STAR TREK – 1979 a 2002 (Parte 1)”

  1. Senhor Saldanha,

    Ótimo trabalho, como sempre. Dúvidas: sobre a trilha do filme de 79, o senhor mencionou o cd duplo de 1999 da Sony. E o cd triplo da La-La Land Records? é bom?
    E quanto as trilhas de Horner: o senhor tomou como base as “expanded”?
    A de Roseman é a também expandida da Intrada?

    Abraços e continuemos a aventura da Humanidade!

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    1. O CD triplo de ST: TMP da La-La Land é indicado para o completista, já que inclui todas as versões alternativas e outtakes desse score. Mas o CD de 1999 da Sony já traz o melhor da trilha. Os comentários de A Ira de Khan tomaram por base o CD expandido, já os de À Procura de Spock e de A Volta para Casa, não.

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