Resenha: GONE GIRL – Trent Reznor, Atticus Ross (Trilha Sonora)


G_Girl_CDMúsica composta por Trent Reznor, Atticus Ross
Selo: Columbia Records
Catálogo: Download Digital
Lançamento: 30/09/2014
Cotação: ***

Em seu texto para o filme Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), o crítico Pablo Villaça, do site Cinema Em Cena, afirma, a certo momento: “… a trilha de Trent Reznor e Atticus Ross é evocativa sem depender de temas óbvios, complementando a atmosfera de tensão sem tentar criá-la sozinha.”. Já Diego Benevides, do Cinema com Rapadura, diz: “Garota Exemplar” ainda conta com mais uma bela parceria dos músicos Trent Reznor e Atticus Ross, que colaboram para a atmosfera de mistério, tragédia e redenção da trama. Sem ser invasiva demais, a trilha sonora acerta ao não forçar emoções e reações do espectador, sublinhando com leveza o que é importante”. Lucas Salgado, do Adoro Cinema e Mariana Peixoto, do Estado de Minas, também elogiaram o score do músico do Nine Inch Nails e seu parceiro. E isto para ficar apenas nos críticos brasileiros, pois os americanos, tanto aqueles especialistas em música quanto os em cinema, consideraram o trabalho de Trent Reznor e Atticus Ross na Música de Cinema como “revolucionário”.

Garota Exemplar é a terceira colaboração da dupla com o diretor David Fincher. As anteriores, A Rede Social (The Social Network, 2010) e Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl With the Dragon Tattoo, 2011), renderam a Reznor e Ross um Oscar e um Grammy, respectivamente. E os dois já são figuras quase garantidas na temporada de premiações deste ano por seu novo trabalho. Mas será que eles são realmente merecedores de tamanho festejo por conta da crítica especializada?

Pelo lado positivo, podemos dizer que Garota Exemplar é de fato a melhor trilha de Reznor e Ross – o que não é lá um grande feito, já que, em seus dois trabalhos anteriores, a música tinha uma participação mínima, quase indistinguível dos efeitos sonoros. Por outro, não dá para dizer que esta é uma das melhores trilhas do ano, pois isto seria um desserviço a tantas outras obras que, além de se encaixarem perfeitamente bem nos filmes, ainda faziam mais por eles.

Porque é justamente isto o que falta nas trilhas de Reznor e Ross: sim, de fato ela funciona bem no filme, mas, na maior parte do tempo, o que ela faz é sair do caminho, quase como se seguisse o velho ditado “muito ajuda quem não atrapalha”. Em Garota Exemplar, a trilha consiste basicamente de ambientação, texturas e atmosferas, utilizando basicamente instrumentos eletrônicos e sons diegéticos como o barulho de um fax, de uma impressora ou de um modem. Não há melodias ou emoção – o que é uma forma válida de se compor para um filme (vide os trabalhos de Cliff Martinez, o especialista em trilhas eletrônicas ambientais), mas em Garota Exemplar a música é simplesmente vazia, como se não tentasse descrever os acontecimentos do filme.

E é perturbador que alguns críticos vejam a parceria de Fincher com Reznor e Ross como uma versão moderna de Hitchcock e Bernard Herrmann. Compare, por exemplo, a trilha de Garota Exemplar com o magistral trabalho de Herrmann em Um Corpo que Cai (Vertigo, 1959). Neste longa, a música tem um papel principal ao descrever de maneira precisa a paixão entre os personagens de James Stewart e Kim Novak, o mistério em torno da identidade da mulher e a loucura a que descende o protagonista. Já no filme de Fincher, falta descrição e precisão à música.

Mesmo assim, não é justo dizer que é um trabalho ruim dos dois músicos. A trilha oferece vários bons momentos, que podem ser apreciados no disco, como em What Have We Done to Each Other, a primeira faixa, que cria um clima triste e sombrio com sintetizadores, e ajuda a pavimentar o caminho para o restante do filme (e do álbum). Este mesmo “tema” retornará em What Will We Do, ao fim do disco, quase como se fechasse um ciclo sinistro e perturbador. Já as duas versões de Sugar Storm trazem uma bela atmosfera mágica, sonhadora, quase surrealista.

Background Noise, apesar do título irônico, traz uma ligeira sugestão de melodia, interpretada pelo piano, com um fundo eletrônico. Like Home, a melhor do disco, também mostra certa ironia, ao consistir numa espécie de hino de sintetizadores, numa melodia sarcástica, envolta numa atmosfera progressivamente mais perturbadora que culmina num final sinistro. Technically, Missing, por sua vez, traz uma interessante construção musical, onde os sintetizadores são complementados por uma guitarra distorcida.

Por outro lado, faixas como The Way He Looks At Me e Perpetual possuem como “estrelas” barulhos de impressoras e modens de internet (a primeira entregando um estranho som que parece ser o de uma pessoa sendo enforcada por uma linha de telefone). Eu, sinceramente, não sei o que Reznor e Ross quiseram ressaltar com a inclusão desses barulhos. Já Secrets e, principalmente, Consumation, trazem barulhos absolutamente irritantes, e incrivelmente altos.

Enfim, este não é um álbum ruim. É um bom disco de música eletrônica para quem gosta do estilo, e sua audição, francamente, não é tão ofensiva quanto a de, por exemplo, Capitão América 2 – O Soldado Invernal ou a série Transformers (que, vale dizer, empregaram orquestras completas). Porém, toda a aclamação que Reznor e Ross vêm recebendo como os grandes “salvadores” de uma arte perdida me parece um pouco exagerado, e suspeito que boa parte dela se deve ao fato de o primeiro ter sido líder de uma famosa e (aí, sim) revolucionária banda. Imaginem só o que teremos que ouvir se a abordagem fria e distanciada do diretor e de seus dois colaboradores for tentar ser recriada por realizadores menos talentosos do que eles?

Faixas:

1. What Have We Done To Each Other? 2:30
2. Sugar Storm 2:53
3. Empty Places 2:46
4. With Suspicion 3:16
5. Just Like You 4:11
6. Appearances 2:52
7. Clue One 1:30
8. Clue Two 5:10
9. Background Noise 3:09
10. Procedural 4:30
11. Something Disposable 4:28
12. Like Home 3:39
13. Empty Places (Reprise) 2:20
14. The Way He Looks At Me 3:27
15. Technically, Missing 6:43
16. Secrets 3:08
17. Perpetual 4:00
18. Strange Activities 2:37
19. Still Gone 2:47
20. A Reflection 1:46
21. Consummation 4:09
22. Sugar Storm (Reprise) 0:41
23. What Will We Do? 3:05
24. At Risk 11:07

Duração: 86:44

Tiago Rangel

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6 opiniões sobre “Resenha: GONE GIRL – Trent Reznor, Atticus Ross (Trilha Sonora)”

  1. Minha cabeça quase explode quando ganharam o Oscar em 2010 (pobre John Powell) e continuei tendo mini infartos com tanta aclamação da crítica em Os Homens que não amavam as mulheres. Não é que sejam ruins, mas existem outros trabalhos muito mais interessantes, como já disse o Tiago. Mais incrível ainda me parece ser que o Fincher já trabalhou com compositores como Howard Shore e Alexandre Desplat, mas sempre mudava e achou na dupla seus colaboradores habituais :o Ainda não ouvi, e infelizmente não vi o filme (dizem ser outra bela obra do Fincher), mas pela resenha já sei o que esperar. Ótima resenha novamente, Tiago, muito legal começar com os comentários de críticos e sites renomados como o Villaça e o CCR.

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  2. Aliás… “não forçar emoções e reações do espectador, sublinhando com leveza o que é importante”??? Alguém concorda com esse papel de uma trilha sonora em um filme? Fiquei surpreso com essa linha da crítica do Benevides.

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  3. Gosto muito da trilha de A Rede Social e de Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Já o score de A Garota Exemplar… não é ruim, mas não tem o apelo dramático-original do primeiro filme (a música que toca nos créditos, que é acompanhada por um solo de piano, é muito boa), e tampouco tem a pegada de suspense hardcore do segundo (um trabalho que tem mais a cara e o estilo do Nine Inch Nails). A bem da verdade, é quase imperceptível na narrativa, uma coisa que me incomodou quando assisti o filme. Se ouvida isoladamente, percebe-se mais a proposta de Reznor e Ross, mas ainda assim não chega mesmo a ser uma das melhores trilhas do ano (e era justamente o score que eu mais aguardava para esse ano). Uma pena.

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