Resenha: FURY – Steven Price (Trilha Sonora)


Fury_CDMúsica composta por Steven Price
Selo: Varése Sarabande Records
Catálogo: 302 067 308 8
Lançamento: 14/10/2014
Cotação: ****

Apesar de eu ter algumas ressalvas com a trilha de Gravidade, que venceu o último Oscar, não dá para negar que ouvi-la é uma experiência interessante. Seu compositor, Steven Price, mostrou talento e, principalmente, criatividade, com o score do premiado filme de Alfonso Cuarón. Em seu projeto seguinte, o filme de guerra Corações de Ferro (Fury), felizmente, ele manteve a mesma inventividade de seu projeto anterior, e propôs uma abordagem bastante original para o gênero.

O filme conta a história de um sargento, interpretado por Brad Pitt, que comanda a tripulação de um tanque de guerra numa missão mortal na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Dirigido por David Ayer, experiente em filmes policiais urbanos como Dia de Treinamento e Marcados para Morrer, ele, aparentemente, possui uma visão distinta da guerra e, para isso, precisaria de uma trilha igualmente singular. Assim, nada de hinos orquestrais épicos e dramáticos como os de John Williams para O Resgate do Soldado Ryan, por exemplo. A música de Price retrata a guerra como algo muito mais selvagem e brutal, enquanto os momentos de heroísmo surgem numa abordagem moderna.

Para isso, o compositor entrega uma enorme variedade de eletrônicos e sintetizadores, combinados com orquestra (no caso, a The Philharmonia Orchestra, de Londres, que recentemente colaborou com Fernando Velázquez em Hércules e Brian Tyler em Thor: O Mundo Sombrio e Homem de Ferro 3) e um enorme coral. Lembra um pouco as trilhas da afamada Remote Control, não é? A boa notícia é que a trilha de Price é mais original que a dos associados de Hans Zimmer, e combina com talento os elementos eletrônicos e orquestrais. Nesta divisão, a parte eletrônica do score responde pelos sons mais mecânicos e brutais da trilha, enquanto a orquestral compreende os momentos mais dramáticos.

Assim como a trilha de Gravidade tinha um arco bem definido e bem estruturado por Price, que ia do caos à catarse, a de Fury também possui praticamente o mesmo arco, que o compositor elabora com calma e paciência. A diferença com o score do filme do ano passado é que o caminho percorrido pela música aqui é mais acidentado e menos direto. Price, entretanto, demonstra ter uma boa noção de onde quer chegar e o que quer dizer com a sua partitura.

O disco pode ser dividido em duas partes: a primeira tem maior proeminência dos sons mecânicos e selvagens, combinados com orquestrações agressivas e um canto repetido pelo coral, que soa quase como uma marcha, enquanto a segunda é mais dramática. A primeira faixa, April 1945, demonstra bem isso, com seu ritmo de rock e os sons “sampleados” que parecem ter saído de um campo de batalha. Ela é seguida por War is Not Over e Fury Drives Into Camp, que mantém o clima de tensão. Refugees introduz duas marcas que se tornarão importantes no decorrer da trilha: uma delas são notas descendentes nas cordas, que lembram bastante um motivo recorrente na trilha de James Horner para O Novo Mundo (sim, é isso mesmo que você leu). O outro é o tema principal do filme, que aqui aparece a cargo de um melancólico piano.

A violência retorna em Ambush e The Beetfield, uma das longas setpieces do disco. A primeira faixa apresenta eletrônicos brutais, enquanto a segunda inicia com o motivo descendente para cordas, porém, após um momento de tensão, incorpora metais, cordas, percussão eletrônica e o canto do coral, lembrando bastante os momentos mais caóticos do início de Gravidade – e que já mostram que Price é um compositor extremamente talentoso para representar musicalmente o caos. O tema principal, novamente ao piano, retorna no final.

Airfight traz orquestrações dramáticas, enquanto o canto do coro mantém a tensão. Em seguida, The Town Square, após um início atmosférico, traz outra característica da trilha anterior de Price, as cordas combinadas a tensos eletrônicos num clima de confusão e destruição. Em seguida, The Apartment utiliza texturas sintetizadas, violoncelo solo e voz feminina para criar uma atmosfera melancólica, enquanto Emma combina orquestra, coral e acompanhamento eletrônico para apresentar o tema principal, executado primeiro nas cordas e depois no piano. Tiger Battle é a melhor e mais brutal faixa de ação do disco. Combinando elementos sintetizados que lembram armas disparando, para efeito de percussão, com dramáticos violinos, tensas violas, metais poderosos e, como não poderia deixar de ser, o cântico profano do coral. É a representação musical da loucura e do horror que é um campo de batalha. Porém, é preciso dizer que aqui ele passa perigosamente perto de soar como seu xará Steve Jablonsky e seus scores para a série Transformers. Felizmente, Price demonstra segurança no que está fazendo e não permite nunca que sua música se torne mais uma trilha genérica de ação da Remote Control.

Porém, se Price é um ótimo compositor para representar a violência de um campo de batalha, ele não se sai tão bem nos momentos de drama, e a segunda metade do álbum é menos empolgante do que a primeira. Mesmo assim, ela ainda possui bons momentos, o primeiro deles a triste apresentação do tema principal pelas cordas em On the Lookout. Na faixa seguinte, This is My Home Price contrasta sombrios e mecânicos sintetizadores com uma melodia mais emocional com a orquestra e o piano. Já em Machine ele utiliza violoncelo, piano e voz, num clima de melancolia, até a entrada do sinistro coro ao final.

Crossroads é a terceira (e última) grande faixa de ação do disco, e utiliza a mesma combinação de instrumentos das anteriores, com maior urgência. Porém, nesta segunda parte do disco Price se permite interromper a violência para momentos mais atmosféricos e introspectivos. O heroísmo aparece finalmente em Still in This Fight, representado por metais e percussão, seguido por uma bela melodia com as cordas. Porém, a música mais intimista e reflexiva retorna, junto com o motivo “horneriano” da terceira faixa, em I’m Scared Too. Wardaddy é ainda mais melancólica, contando com piano e cordas para interpretar o tema principal de maneira bem triste.

O disco chega ao fim com Norman, onde finalmente o arco de Price se completa: após o caos, a destruição e a melancolia, chega o momento da catarse. Assim, o tema principal é interpretado por toda a orquestra e coral (em sua primeira participação sem o cântico sinistro), num dramático crescendo, que lembra bastante o de outra trilha de guerra, Journey to the Line, da trilha de Hans Zimmer para Além da Linha Vermelha.

Corações de Ferro é portanto um score que deve agradar tanto aos fãs da trilha de Gravidade, por seu experimentalismo, quanto aqueles que não gostaram tanto assim da premiada partitura, por ser um disco mais “fácil” de se ouvir, por assim dizer. Steven Price é um compositor talentoso e imaginativo, e chegou para ficar em Hollywood.

Faixas:

1. April, 1945 (04:15)
2. The War Is Not Over (01:48)
3. Fury Drives Into Camp (01:51)
4. Refugees (02:42)
5. Ambush (02:07)
6. The Beetfield (07:59)
7. Airfight (03:05)
8. The Town Square (02:18)
9. The Apartment (00:59)
10. Emma (02:36)
11. Tiger Battle (06:18)
12. On The Lookout (03:04)
13. This Is My Home (03:43)
14. Machine (03:22)
15. Crossroads (08:06)
16. Still In This Fight (03:39)
17. I’m Scared Too (03:46)
18. Wardaddy (02:39)
19. Norman (02:51)

Duração: 67:08

Tiago Rangel

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4 opiniões sobre “Resenha: FURY – Steven Price (Trilha Sonora)”

  1. Os filmes que falam sobre o heroísmo, a pátria ea guerra são os meus favoritos, o enredo deste não gostava de todo, mas eles certamente deve admitir que tem um excelente reaprto e efeitos. Acho americana Sniper é ainda mais tração, o conidero um dos melhores filmes drama , que cativa e eu acho que foi mais bem sucedido na tela grande. Eu recomendo ver o último, acho que o final de corações de aço poderia ser melhor.

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