Na Trilha: Celebrando a Parceria David Cronenberg / Howard Shore


Howard Shore e Divid Cronenberg
Howard Shore e David Cronenberg

O canadense Howard Shore é conhecido pela maioria dos Scoretrackers como o responsável pelas grandiosas partituras das duas trilogias de Peter Jackson ambientadas na Terra-Média, O Senhor dos Anéis e O Hobbit. Porém, o fato é que o colaborador mais frequente de Shore é o consagrado – e também canadense – diretor David Cronenberg, com quem o compositor estabeleceu uma parceria duradoura. Os sombrios filmes de Cronenberg, cujos gêneros variam entre a ficção científica, o drama e o horror físico e psicológico, são complementados pelas inteligentes trilhas de Shore, em trabalhos muito diferentes daqueles ouvidos nas sagas de Frodo e Bilbo. Dentre eles, alguns exemplos famosos são os sintetizadores usados em Scanners – Sua Mente Pode Destruir, a opulência do horror em A Mosca e os belos solos de violino em Senhores do Crime.

Recentemente, o selo próprio do compositor, Howe Records, lançou novos álbuns contendo a música de Shore para três filmes do diretor, o drama Gêmeos – Mórbida Semelhança, de 1988, a ficção científica Mistérios e Paixões, lançada em 1991, e o thriller Crash – Estranhos Prazeres, de 1996. Aqui vão alguns pequenos comentários sobre estas três importantes obras do compositor.

dead-ringersCDDead Ringers – Cotação: ***½

Lançado logo após o sucesso de A Mosca, este Gêmeos – Mórbida Semelhança (que possui um péssimo título em português) é um drama psicológico que conta a história de dois gêmeos idênticos (numa elogiada interpretação de Jeremy Irons) que trabalham como ginecologistas. O longa mergulha no sombrio universo psicológico dos personagens, contando para isto com um interessante trabalho de Howard Shore, mais maduro a este ponto de sua carreira.

Primariamente orquestral, a trilha tem uma grande ênfase na seção de cordas, que executam longos acordes tonais. Shore aqui acerta ao manter constantemente o domínio da música, enquanto sua escrita, apesar de parecer relativamente simples ao contar com poucas notas, revela complexidade e profundidade ao ser analisada mais a fundo.

Porém, ao ser ouvida no disco, a trilha pode cansar rapidamente o ouvinte, com suas várias faixas parecidas entre si. A sensação que se tem é de que Shore compôs uma longa suíte de quase uma hora para o filme todo, e a dividiu conforme a necessidade impôs. O tom da música é constantemente opressivo, sinistro e melancólico, com um clima de tensão aumentando levemente conforme as faixas avançam.

As cordas, como já foi dito, dominam por completo o score, às vezes com sutis aparições de oboés, trompas e flautas. Aqui vale destacar a excelente performance da London Philharmonic Orchestra, com quem Shore já colaborou diversas vezes, inclusive em seus trabalhos mais famosos. O talento dos músicos da orquestra ajuda o compositor a manter o controle necessário para que sua trilha funcione.

Um dos problemas que podemos apontar neste score é que ele é bastante esparso. Não há um tema forte para conduzir a trilha. Mesmo assim, o Main Title apresenta uma melodia recorrente, interpretado pela orquestra e por sutis sintetizadores, que é mais lírica e melodiosa que o restante da trilha. Ela será reutilizada em Finale, que possui certa leveza quando comparada às sombrias e opressivas Welcome Home, Birthday Party e Suicide (que, juntas, compõem a melhor sequência do disco), que vieram logo antes.

Enfim, este é um trabalho diferente de Howard Shore, que inclusive influenciou outras trilhas (como o ótimo trabalho de Fernando Velázquez para o filme espanhol El Mal Ajeno, que também é um drama ambientado no universo médico, composto no mesmo estilo de Dead Ringers, por exemplo). Mostra o quanto o canadense é versátil e, principalmente, especialista em retratar com profundidade a mentalidade e os desejos de seus personagens.

naked-lunchCDNaked Lunch – Cotação: ****

Rebatizado no Brasil com o bizarro título Mistérios e Paixões, este filme é uma livre adaptação de Cronenberg para o clássico livro de William S. Burroughs, Almoço Nu. Burroughs foi um dos expoentes do movimento beat, que, junto a outros famosos escritores como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, produziram grandes obras que influenciaram todo o pensamento da década de 1950. Associado a este movimento estava o jazz, que também começou a fazer sucesso a partir da mesma época. Assim, seria natural que Howard Shore incorporasse esse estilo musical ao seu score.

Porém, Shore fez mais do que isto. Admitindo como a maior influência o músico de free jazz Ornette Coleman para compor sua trilha, o canadense resolveu incorporar várias peças do jazzista em seu próprio score, além de, é claro, chamar o próprio para tocar como solista. O resultado é ótimo: a trilha sinistra e melancólica de Shore (que lembra um pouco o seu trabalho em O Silêncio dos Inocentes), combinada com o evocativo saxofone de Coleman cria uma atmosfera urbana, sombria e única. Ao ouvir este álbum, o ouvinte será imediatamente transportado para as noites das cidades americanas na década de 1950, em que esfumaçados clubes de jazz serviam como locais para se ouvir música, trocar ideias e filosofar.

Faixas como Naked Lunch, Mujahaddin, a tensa Dr. Benway e Welcome to Annexia seguem neste estilo, com a escrita de Shore se incorporando de maneira orgânica aos ritmos e melodias jazzísticas, com ótimos solos de Coleman. Já em outras como Mugwumps, Fadela’s Coven, William Tell e Nothing is True; Everything is Permitted, além da bônus track Writeman, Shore utiliza notas primariamente graves nas cordas e leves sopros e metais, em mais uma ótima interpretação da London Philharmonic Orchestra, para criar uma atmosfera de tensão palpável. Demonstrando ser um talentoso maestro, ele mantém domínio sobre a orquestra durante toda a trilha, e sempre consegue que ela lhe entregue o clima que sua música pede. A exceção é Interzone Suite, uma longa e enérgica faixa para sax.

A grande inspiração para Shore, entretanto, foi a peça Midnight Sunrise (no disco, a segunda parte da décima quinta faixa), gravada por Coleman e pelo grupo marroquino Masters Musicians of Jajouka. Burroughs esteve presente na gravação desta faixa no Marrocos, em 1973. Assim, a música desempenha um papel importante no filme. Já o trabalho do grupo aparece de forma sutil durante o álbum, em especial durante a faixa Clark Nova Dies. Outra música importante, sugerida por Coleman à Shore, é Misterioso, composta pelo grupo de jazz Thelonious Monk, que possui um trecho apresentado na segunda parte da sexta faixa. O álbum ainda compreende algumas peças do próprio Coleman, como a bela Intersong, a estranha Ballad/Joan e a agitada Bugpowder.

A integração que Shore faz entre sua música orquestral e o jazz de Ornette Coleman é o grande destaque deste score. O álbum demonstra toda a versatilidade dos dois compositores, que atingiram um grande grau de excelência e renome em suas respectivas áreas musicais.

crashCDCrash – Cotação: ****

Crash – Estranhos Prazeres conta a história de um grupo de pessoas que sentem prazer sexual em acidentes de carro. Como já seria de se esperar, ele causou polêmica em seu lançamento, embora sua premissa ousada tenha atraído elogios de alguns críticos.

Para acompanhar um longa tão perturbador, Howard Shore contou com um de seus instrumentos preferidos: a guitarra, que ele depois voltaria a utilizar na trilha de Os Infiltrados. É um score baseado primariamente em acordes do instrumento, sempre contando com o efeito do reverb, a fim de criar uma atmosfera sinistra e psicologicamente ambígua. A primeira faixa tem uma espécie de tema, na verdade, um conjunto de acordes entrelaçados a cargo de um conjunto de guitarras, numa inteligente escrita de Shore. Estes mesmos acordes irão se tornar recorrentes ao longo de todo o álbum.

As faixas seguintes seguirão o mesmo padrão de guitarras, frequentemente acompanhadas por sutis instrumentos de percussão e camadas de sintetizadores, seja em melodias mais fortes, seja de maneira mais tranquila. Em Mirror Image, sutis instrumentos de sopro acompanham as guitarras, e adquirem um papel de destaque em Sexual Logic, junto à guitarras acústicas e pratos. Já Chromium Bower traz apenas efeitos eletrônicos sombrios ao longo de seus mais de três minutos.

Em A Benevolent Psychopathology ouvimos o primeiro sinal de uma orquestra, no caso, uma seção de cordas, aqui interpretando uma melodia evocativa e sinistra. Porém, em Two Semi-Metallic Human Beings e Accident… Accident… Shore produz um interessante e hermético efeito ao “afogar” esta mesma melodia em efeitos eletrônicos, junto a sopros (no caso da primeira) e guitarras distorcidas (para a segunda), criando uma ambientação surrealista e ameaçadora. Prophecy Is Dirty And Ragged inicia-se da mesma forma, logo as cordas assumem o protagonismo novamente, num final dissonante e carregado de tensão.

O álbum ainda possui mais sete faixas bônus, todas no mesmo estilo musical anterior, excetuando-se Crash (Piano Demo), que, como o próprio título indica, traz o tema do filme interpretado por um piano.

Este é um sensacional trabalho de Howard Shore, que varia inteligentemente de guitarras mais melódicas a orquestrações mais dissonantes, enquanto constrói uma atmosfera ambígua e perturbadora. É uma música mais experimental, porém que prende a atenção do início ao fim.

Tiago Rangel

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