dh_boxProdução: 1971, 1973, 1976, 1983, 1988
Duração: 530 min.
Direção: Vários
Elenco: Clint Eastwood, Harry Guardino, Ren Santoni, Andy Robinson, John Larch, John Vernon, David Soul, Robert Urich, Sondra Locke, Pat Hingle, Bradford Dillman, Paul Drake, Audrie J. Neenan, Jack Thibeau, Michael Currie, Liam Neeson, Patricia Clarkson, Evan Kim, David Hunt, Jim Carrey
Vídeo: Widescreen anamórfico 2.35:1, 1.85:1 (1080p/VC-1)
Áudio: Inglês (Dolby TrueHD 5.1), Português, Espanhol, Japonês (Dolby Digital 1.0)
Legendas: Português, Inglês, Espanhol, Francês, Holandês, Alemão, Italiano, Japonês, Norueguês, Sueco
Região: A, B, C
Discos: 5
Lançamento: 03/06/2008
Cotações: Som: ***½ Imagem: ***½ Filme: **** Extras & Menus: ****½ Geral: ****

SINOPSE
Harry Callahan (Clint Eastwood) é um durão, inteligente e experiente tira em São Francisco, mais conhecido como Dirty Harry (Harry, O Sujo). Seja um franco atirador que chantageia a prefeitura de São Francisco, seja um esquadrão da morte que passa a eliminar os chefões do crime; ou ainda, uma mulher que busca vingança contra os que a violentaram e um assassino que escolhe suas vítimas em uma lista mortal, Harry enfrentará essas ameaças e irá eliminá-las… de um jeito ou de outro.

COMENTÁRIOS
Clint Eastwood é, para dizer o mínimo, um ícone do cinema norte-americano. Desde a sua estréia fazendo pontas em filmes de monstros dos anos 1950, passando por sua revelação nos spaghetti westerns de Sergio Leone (como o inesquecível “Pistoleiro Sem Nome”) e até chegar à consagração como diretor de prestígio, Eastwood sempre impressionou por seu carisma, talento como ator (sim, não confundi-lo com outros astros de ação canastrões que lhe sucederam) e presença física marcante. E para parte de seus fãs, o ator/diretor será principalmente lembrado por seu papel como Harry “O Sujo” Callahan, o policial linha dura de São Francisco que utiliza uma poderosa pistola Magnum calibre 44 e protagonista de uma série de cinco filmes iniciada em 1971. A franquia DIRTY HARRY, apesar de ter perdido seu impacto ao longo dos anos, é um marco no gênero policial, tendo dado origem a vários filmes e programas de TV de temática semelhante, e alguns bordões do personagem, como “Do you feel lucky, punk?” ou “Go ahead, make my day”, já fazem parte da cultura pop. De certa forma um dos últimos desempenhos de Eastwood à frente das câmeras, no admirável GRAN TORINO (2008), é um tributo a este tipo de personagem que ele soube encarnar tão bem.

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No primeiro filme, PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL (DIRTY HARRY), dirigido em 1971 por Don Siegel, somos apresentados a Harry, um policial conhecido por quebrar as regras e utilizar métodos violentos para prender os criminosos. Ao longo do filme descobrimos que ele é um sujeito inconformado com o sistema legal, que muitas vezes beneficia os criminosos. Seus parceiros via de regra são mortos ou feridos, e ele acaba se preocupando com a segurança do jovem de origem mexicana que foi designado para trabalhar com ele. Segregado por seus superiores, as piores e mais difíceis missões vão para Harry, que ao final demonstra ser o único capaz de capturar o assassino psicopata e sequestrador Scorpio (Andy Robinson). A cena em que ele captura Scorpio e o tortura, pisando em sua perna ferida, é forte e antológica. O filme gerou grande polêmica devido à violência empregada pelo protagonista, por muitos considerado fascista, e principalmente por questionar o Judiciário norte-americano.

Mas o longa foi um grande sucesso, e Harry Callahan retornou em MAGNUM 44 (MAGNUM FORCE, 1973, direção de Ted Post). Dessa vez, Dirty Harry vê-se face a face com um grupo de jovens policiais que, a exemplo do que ocorreu no Brasil nos anos 1960 (fato inclusive mencionado no filme), integram um esquadrão da morte que começa a eliminar os chefões do crime que, graças a artifícios legais, haviam escapado da Justiça. O filme, roteirizado por John Millius e Michael Cimino, possui muitas cenas de violência, é inteligente ao fazer Harry confrontar colegas que são versões mais jovens dele mesmo, e surpreende ao colocá-lo em defesa do sistema que tanto critica. Outro mérito do filme foi revelar jovens atores como David Soul e o falecido Robert Urich, que protagonizaram respectivamente as populares séries de TV JUSTIÇA EM DOBRO (STARSKY & HUTCH) e VEGA$.

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Já em SEM MEDO DA MORTE (THE ENFORCER, 1976), do diretor James Fargo, Harry volta mais humanizado e um pouco mais bem-humorado, tendo que enfrentar um dos seus maiores desafios – uma parceira mulher (Tyne Daly). Além disso, deve resgatar o prefeito de São Francisco, que fora raptado e levado para a prisão abandonada de Alcatraz. Considero este um dos filmes mais fracos da série, e se não fosse por sua violência poderia ser confundido com uma produção televisiva. Além disso, o genial compositor Lalo Schifrin, autor das trilhas incidentais dos demais filmes, fez alguma falta – neste, ele foi substituído por Jerry Fielding -, e a temática da emancipação feminina hoje está completamente ultrapassada.

Melhor é IMPACTO FULMINANTE (SUDDEN IMPACT, 1983, dirigido pelo próprio Eastwood), onde Harry, sempre em conflito com a chefia, investiga uma série de assassinatos cujas vítimas, todos homens, receberam disparos em seus órgãos genitais. Os crimes são cometidos por uma mulher (Sondra Locke, ex-Mrs. Eastwood) que, juntamente com a irmã, fora violentada anos antes pelas vítimas. Em sua investigação, Harry vai para uma pequena cidade no interior da Califórnia e lá conhece a criminosa, com quem acaba se envolvendo romanticamente. Este filme volta a discutir com mais ênfase as falhas do sistema legal e a Justiça feita com as próprias mãos.

Finalmente, DIRTY HARRY NA LISTA NEGRA (THE DEAD POOL, 1988, dirigido por Buddy Van Horn) é o último filme da série. Um assassino está eliminando celebridades cujos nomes estão numa lista feita por um famoso diretor de filmes de terror (Liam Neeson). O diretor surge como principal suspeito, e o envelhecido Harry, que agora tem um jovem chinês como parceiro, logo descobre que também faz parte da lista. Apesar de ser o filme mais convencional de toda a série, ele agrada por ter boas cenas de ação, inclusive uma divertida cena de perseguição de carros que homenageia a antológica caçada automobilística de BULLIT (1968), mas com um detalhe: o veículo perseguidor é um brinquedo explosivo guiado por controle remoto. Como curiosidade, vemos Jim Carrey em um de seus primeiros papéis, na pele da primeitra vítima – um astro do rock viciado em drogas.

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SOBRE O BD
Após já ter lançado duas vezes em DVD os filmes de Harry Callahan – a primeira em edições precárias em termos de som e imagem, e posteriormente em versões remasterizadas dentro da “Coleção Dirty Harry” -, em 2008 a Warner diponibilizou nos EUA esta primorosa “Dirty Harry Ultimate Collector’s Edition” em Blu-ray. Infelizmente ainda inédita por aqui, ela traz cinco discos BD de camada dupla acondicionados em duas embalagens digipack, envoltas em uma grossa luva de cartolina que, além de todos os filmes, contém ótimos extras e alguns itens de coleção interessantes. Sem dúvida, é um dos boxes em Blu-ray mais atrativos que já avaliamos – tanto em apresentação como em conteúdo.

Iniciando pelo principal, as então novas transferências widescreen anamórficas em alta definição (1080p/VC-1) buscaram preservar as características originais da película dos cinco filmes. DIRTY HARRY, por exemplo, possui muitas cenas noturnas que destacam a granulação e manchas a elas inerentes. Em MAGNUM 44 notamos granulação mas também melhoria de nitidez, com a imagem apresentando maior nível de detalhes. SEM MEDO DA MORTE possui uma das melhores qualidades de vídeo do pacote, apresentando ótimos brilho e contraste, com riscos de pelicula praticamente inexistentes. Beneficiado por ser um filme mais recente, IMPACTO FULMINANTE tem uma das transfers mais limpas e detalhadas. As cenas noturnas são mais claras e nítidas que as do filme original, ao mesmo tempo apresentando pretos bem sólidos. DIRTY HARRY NA LISTA NEGRA, o único filme com formato original de tela na proporção 1.85:1 (os demais são 2.35:1), apesar de ser o mais recente, ganhou uma transferência apenas mediana mas que não chega a desagradar. Há pouca granulação e determinadas sequências, como a da perseguição de carros, se destacam pela qualidade. Sem dúvida, à época do lançamento deste box,  sua qualidade de imagem estava à altura dos padrões do então iniciante formato Blu-ray, mas sem dúvida hoje em dia  ela já demonstra que uma nova restauração / remasterização em 4K desses filmes seria necessária.

Todos os longas possuem opções de áudio em inglês (Dolby TrueHD 5.1 e Dolby Digital 5.1), português (BR) e japonês (ambos mono, no encode Dolby Digital 2.0). Além delas, cada disco traz variáveis opções de idiomas, que incluem francês e chinês. Obviamente busquei sempre selecionar as faixas multicanal, e entre elas não notei grandes diferenças. Mesmo o áudio lossless em inglês Dolby TrueHD 5.1, em especial nos filmes mais antigos, permanece nos canais frontais a maior parte do tempo – ainda que haja uma certa superioridade na clareza e na distribuição do palco sonoro. Nas cenas de ação surgem alguns efeitos surround, mas que não chegam a criar uma efetiva sensação de envolvimento. Os diálogos na maior parte do tempo são claros, e é nos graves que estas mixagens demonstram sua maior carência. Sem dúvida o que mais se beneficiou no áudio remasterizado foram as trilhas sonoras de Lalo Schifrin, que ganharam uma ótima fidelidade. É em DIRTY HARRY NA LISTA NEGRA que os canais surround e o subwoofer finalmente tornam-se mais ativos, mas ainda assim de uma forma bem distante dos padrões de hoje. Por fim, há uma grande quantidade de opções de legendas: português (BR), inglês, espanhol, francês, holandês, alemão, japonês, italiano, etc.

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EXTRAS
Não temos aqui uma overdose de extras como no box de MATRIX, mesmo assim esta “definitiva” Coleção Dirty Harry traz uma grande quantidade de material suplementar, que exige várias horas para ser apreciada. Todos os os documentários e featurettes estão apresentados em resolução standard (480p), porém com a opção de legendas em português (na resenha mantive o título original em inglês, na forma como aparecem nos menus). Os comentários em áudio, infelizmente, não têm a opção de legendas em português:

DIRTY HARRY

  • Comentários em áudio – Ótima faixa com o biógrafo de Eastwood Richard Schickel, que fala sobre a carreira de Eastwood e de sua importância para a história do cinema. Há algumas pausas, mas apenas o suficiente para que apreciemos determinada cena que será comentada;
  • Dirty Harry: The Original (29:45 min.) – Robert Urich, que atuou em MAGNUM 44, narra esta retrospectiva que traz depoimentos de Eastwood, Ted Post, John Milius, Arnold Schwarzenegger, Andy Robinson e outros. Os assuntos discutidos abrangem a realização dos filmes, o personagem Dirty Harry, os temas abordados, etc.;
  • Dirty Harry’s Way (7:06 min.) – Featurette promocional da época do lançamento, focado no personagem e no elenco de apoio. É interessante comparar o visual precário deste curta com a transferência em alta definição do filme;
  • The Long Shadow of Dirty Harry (25:31 min.) – Vários roteiristas, diretores, atores e críticos comentam o impacto do personagem Harry Callahan na cultura pop, e como o filme refletiu os aspectos sociológicos e legais dos EUA na época;
  • Clint Eastwood: The Man from Malpaso (58:08 min.) – Documentário de 1993 dedicado a Eastwood e sua carreira, trazendo entrevistas com vários colegas e cineastas. O próprio Eastwood comenta seu desenvolvimento, o que ajuda a tornar este um dos melhores documentários do pacote;
  • Clint Eastwood: Out of the Shadows (86:48 min.) – Outro ótimo documentário sobre Eastwood, dessa vez mais longo e realizado pela BBC em 2000;
  • Interview Gallery (27:25 min.) – Galeria de entrevistas com Patricia Clarkson, Joel Cox, Clint Eastwood, Hal Holbrook, Evan Kim, John Milius, Ted Post, Andy Robinson, Arnold Schwarzenegger e Robert Urich. São versões estendidas de entrevistas presentes nos três principais documentários do disco, além de algumas novas, que podem ser assistidas em bloco ou individualmente;
  • Trailer Gallery (11:06 min.) – Galeria com os trailers de cinema dos cinco filmes. Ela se repete em outros discos do box, exceto no de IMPACTO FULMINANTE.

MAGNUM 44

  • Comentários em áudio – O longa pode ser assistido com comentários do roteirista John Milius, que em meio a várias pausas, tenta ligar o primeiro filme com este, além de apontar os símbolos e temas tratados;
  • A Moral Right: The Politics of Dirty Harry (24:15 min.) – Outro ótimo documentário na linha de The Long Shadow of Dirty Harry, que trata das questões morais, políticas e sociológicas tratadas (ainda que algumas de forma superficial) nos filmes. Milius, Eastwood e outros notáveis roteiristas e diretores comentam a classificação do filme como fascista, feita pela crítica Pauline Kael, os pontos de vista extremos, o impacto do personagem e da série, etc.;
  • The Hero Cop: Yesterday and Today (8:03 min.) – Interessante pseudo-documentário da época das filmagens, focado em policiais, criminosos, crime, punição e o papel de Harry Callahan em tudo isso.

SEM MEDO DA MORTE

  • Comentários em áudio – O diretor James Fargo fornece, ao longo do filme, informações e curiosidades. Nada de mais profundo, como aspectos do roteiro ou dos personagens;
  • The Business End: Violence in Cinema (30:09 min.) – Eastwood e vários colegas roteiristas e diretores discutem a violência, e a forma como ela é apresentada nos filmes da série, gestados em um período onde a violência passou a ser mais incisiva no cinema norte-americano;
  • Harry Callahan / Clint Eastwood: Something Special in Films (6:00 min.) – Curto making of da época do lançamento do filme, trazendo cenas de bastidores e entrevistas;

IMPACTO FULMINANTE

  • Comentários em áudio – O biógrafo Richard Schickel retorna, em uma faixa de comentários mais aprofundada que a de PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL;
  • The Evolution of Clint Eastwood (25:43 min.) – Outra retrospectiva de Eastwood, dessa vez focada em filmes mais recentes, como OS IMPERDOÁVEIS e MENINA DE OURO;

DIRTY HARRY NA LISTA NEGRA

  • Comentários em áudio – O diretor de fotografia Jack N. Green e o produtor David Valdes fazem um comentário muito bom sobre a produção, os personagens e os grandes temas deste e de outros filmes de Dirty Harry;
  • The Craft of Dirty Harry (21:39 min.) – O último documentário é dedicado a técnicos e membros da equipe de produção da série – diretores de fotografia, editores e outros. O compositor Lalo Schifrin, merecidamente, ganha um segmento onde comenta sua música para o filme original. Adicionalmente, Andy Robinson (Scorpio) reconhece que, entre os elementos de produção que mais deram impacto ao seu personagem, o principal foi o tema criado por Schifrin.

Bem, além dos extras contidos nos discos, o box ainda traz alguns mimos para os colecionadores, que certamente terão maior valor para uns do que para outros. Dentro de um estojo de cartolina temos uma réplica da carteira de Harry, com direito a distintivo e tudo (pena que é de plástico e sem sem relevo), um grande mapa de São Francisco onde estão marcadas as localizações do assassino Scorpio, cards que reproduzem os cartazes dos filmes, cópias de várias cartas e telegramas de Eastwood e outros envolvidos nos filmes (numa delas descobrimos que o filme original seria chamado “Dead Right” e dirigido por Irvin Kershner), uma mensagem pessoal de Eastwood sobre a série (onde ele revela que, antes dele, o papel foi oferecido a Frank Sinatra, Robert Mitchum e Steve McQueen), e um bem acabado livreto com 44 páginas e capa dura, contendo fotos, citações e dados sobre os filmes.

Jorge Saldanha

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