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Resenha: LIBERTADOR – Gustavo Dudamel (Trilha Sonora)


liberatorCDMúsica composta por Gustavo Dudamel
Selo: Deustsche Gramophon
Catálogo: 002105402
Lançamento: 29/07/2014
Cotação: ****½

É impressionante que, no Brasil, saibamos tão pouco sobre a cultura (incluindo a cinematográfica) de nossos vizinhos na América Latina, em comparação com a dos norte-americanos e europeus. Excetuando-se alguns exemplos, principalmente da Argentina, que veio a erguer uma indústria cinematográfica forte e premiada, podemos dizer que o brasileiro não tem o costume de assistir a filmes produzidos em países com quem faz fronteira.

Libertador é um desses filmes, um drama venezuelano dirigido por Alberto Arvelo sobre um ídolo latino-americano, Simon Bolívar (interpretado pelo ator Edgar Ramírez), que, como o título indica, ajudou a libertar várias nações sul-americanas do domínio espanhol. Seu score foi composto por Gustavo Dudamel que, apesar de ter apenas 33 anos, já é um maestro de renome, trabalhando inclusive com a Los Angeles Philharmonic Orchestra. Também venezuelano, ele inicialmente foi contratado apenas como consultor musical do filme, entretanto, após impressionar os produtores, Dudamel recebeu a chance de compor sua primeira trilha sonora. Dizem que, para se preparar, ele se consultou com um “obscuro e desconhecido” compositor, John Williams, que aconselhou Dudamel a procurar a ajuda de William Ross, que já havia trabalhado com Williams antes.

Sob a orientação e as excelentes orquestrações do experiente Ross, o trabalho que ele entregou mostra-se como uma pequena surpresa, uma joia escondida em meios aos scores para blockbusters americanos. Interpretada com gosto pela Orquesta Sinfónica Simón Bolívar, Coral Nacional Juvenil e Niños Cantores de Venezuela, regidas pelo próprio compositor, além de flautas étnicas tipicamente sul-americanas, a cargo de Pedro Eustache, esta é uma trilha emocional, inteligente, forte e musicalmente interessante e bem construída. Lembrando um pouco os grandes trabalhos épicos de James Horner (o que nunca é uma coisa ruim para um fã incondicional do compositor norte-americano como eu), a música tem uma audição soberba, que flui incrivelmente bem ao longo de quase uma hora.

A primeira faixa, Quien puede detener la lluvia?, já introduz o estilo da trilha. Ela inicia de forma atmosférica, com a flauta, até incorporar uma melodia poderosa a cargo da orquestra e coral, com os cellos e a percussão tribal marcando o ritmo e frases fortes dos metais. Em seguida vem a dramática El 25 de septiembre de 1828, que constrói um clima melancólico, porém repleto de tensão, que cresce cada vez mais, até culminar numa melodia de ação (lembrando um pouco o cue Attack on 10880 Malibu Point, da trilha de Homem de Ferro 3), encerrando-se de forma atmosférica com coral, guitarra acústica e a flauta de Eustache.

Em Regreso a Venezuela, Dudamel faz uso, além da flauta étnica, de percussão andina típica, numa bela integração entre os instrumentos solistas e a orquestra, lembrando o trabalho dos dois James, o já citado Horner (mais especificamente, em Avatar, Desaparecidas e Coração Valente) e Newton Howard (em Dinossauro e Diamante de Sangue). Maria Teresa é uma das melhores faixas do disco, descrevendo desde o amor de Bolívar por sua primeira esposa, até a turbulência de sua trágica morte de febre tifoide, num cue perfeitamente estruturado. Já Paris estrela oboés ligeiramente cômicos e cordas nostálgicas, numa melodia levemente pomposa e divertida, enquanto Fanny du Villars o clima é solene, conduzido por cordas atmosféricas e melancólicas madeiras.

Em La caida de la República há um clima de guerra e tragédia iminente, conduzido pela orquestra de forma sutil, porém igualmente bela. Um trompete solo aparece ao final, típico dos momentos dramáticos de filmes de guerra. Destierro a Cartagena inicia de maneira atmosférica com a harpa e a flauta étnica, até a entrada de metais poderosos e padrões de percussão tribal que lembram um pouco a trilha de Rei Arthur, de Hans Zimmer, culminando num potente crescendo, apenas para se encerrar com cordas tristes. Na sequência, Esto no es una frontera, es un rio e Jamaica possuem uma atmosférica dramática e grave conduzida pela orquestra, com destaque para violoncelos, baixos e percussão.

Angostura traz o retorno ao padrão de escrita da primeira faixa, com uma melodia em ritmo de marcha militar a cargo da orquestra, culminando num final grandioso onde as trompas e trombones, além da flauta étnica, assumem o comando. Falando em trompas, elas dão o tom melancólico do início de El paso de Los Andes, até que as cordas e o coral assumem e dão prosseguimento a este mesmo tom. Porém, a participação do coro nesta faixa é apenas uma introdução para Ellos estan con nosotros, no qual possuem o destaque em uma passagem de tons espirituais e quase religiosos, até a entrada da orquestra, num grandioso final.

Os metais tem destaque no início de Boyaca, numa melodia crescente, até a entrada de tons mais otimistas e vitoriosos. Muere al Mariscal traz o retorno de um tema ouvido inicialmente em Maria Teresa, uma melodia melancólica interpretada por cordas e um garoto soprano. Por sua vez, Manuela parece trazer inspirações de Maurice Ravel, porém, ao invés de um Bolero, aqui temos um motivo triste, quase trágico, interpretado primeiro de forma atmosférica e depois elegíaca por toda a orquestra. O disco se encerra com El Último Viaje, que reprisa alguns motivos recorrentes da trilha, numa interpretação solene, lembrando um pouco o próprio John Williams de scores como Nascido em 4 de Julho, O Resgate do Soldado Ryan e Lincoln.

Gustavo Dudamel, assim, emerge como um compositor extremamente talentoso, com grande domínio da orquestra e sabedoria ao tocar o ouvinte com sua música. Seria ótimo se ele entregasse mais obras do tipo. Quanto a nós, Scoretrackers brasileiros, fica a lição de que nem sempre precisamos ir muito longe para encontrar música de cinema de qualidade.

Faixas:

1. Quien puede detener la lluvia 3:52
2. 25 de septiembre de 1828 4:41
3. Regreso a Venezuela 3:51
4. Maria Teresa 6:42
5. Paris 1:22
6. Fanny du Villar 1:17
7. La caída de la Republica 3:11
8. Destierro a Cartagena 3:24
9. Esto no es una frontera, esto es un río 4:01
10. Jamaica 2:25
11. Angostura 1:58
12. El paso de Los Andes 4:04
13. Ellos están con nosotros 3:28
14. Boyaca 2:42
15. Muere el Mariscal 1:29
16. Manuela 1:54
17. El último viaje 3:39
18. Maria Theresa’s Farewell 4:24

Duração: 58:24

Tiago Rangel

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