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Resenha: PENNY DREADFUL – Abel Korzeniowski (Trilha Sonora)


Penny_Dreadful_CDMúsica composta por Abel Korzeniowski
Selo: Varese Sarabande
Catálogo: 302 067 298 8
Lançamento: 19/08/2014
Cotação: ****

Exibida pelo canal a cabo norte-americano Showtime, e aqui no Brasil pela HBO, a série Penny Dreadful é um drama de horror sobrenatural de teor gótico, passado (onde mais?) na Londres vitoriana. Conta a história do explorador Malcolm (interpretado pelo ex-James Bond Timothy Dalton) e sua aliada Vanessa Ives (a bela Eva Green, que coincidentemente já foi Bond Girl) que, com a ajuda do aventureiro de passado misterioso Ethan (o sumido Josh Hartnett), devem encontrar a filha do primeiro e amiga de infância da segunda, Mina, que pode ter sido raptada por uma criatura maligna. Esses personagens acabarão por cruzar com figuras clássicas da literatura gótica de terror, como o monstro de Frankenstein, Dorian Gray e (possivelmente) Drácula.

Para musicar a série, os produtores – John Logan e Sam Mendes, que também possuem ligações com os filmes mais recentes de 007 – decidiram contar com o talentoso polonês Abel Korzeniowski, que vem seguindo uma carreira ascendente: além de seus belos scores para Direito de Amar e W.E. terem recebido indicações ao Globo de Ouro, respectivamente em 2009 e 2011, outros ótimos trabalhos seus como Batalha por TERRA, Copernicus Star e Escape from Tomorrow foram recebidos com entusiasmo pela crítica especializada. Além disso, em 2013, ele teve a difícil tarefa de substituir James Horner para o romance Romeu e Julieta, porém, sua bela e romântica trilha foi eleita a melhor do ano pelo International Film Music Critics Association – e o próprio Korzeniowski recebeu o prêmio de compositor do ano.

Para Penny Dreadful ele compôs um score tão superlativo quanto os seus anteriores: é um trabalho em estilo clássico, escrito para uma orquestra sinfônica (regida pelo próprio compositor) e sem medo de ser melodramático e exagerado. Não que isso seja um ponto negativo, na verdade, a melhor coisa sobre essa trilha é a sua exuberância, que se destaca quando tantos compositores hoje preferem trabalhar com o pé no freio. Na verdade, Korzeniowski não é um compositor que escreve música grandiosa, porém sem motivo (como fazem tantos hoje trabalhando em blockbusters hollywoodianos milionários), ele possui total domínio sobre a orquestra (o que comprova suas brilhantes orquestrações), e dá uma direção para seus scores seguirem.

Dividida, basicamente, entre os momentos de drama e os de terror, Korzeniowski entrega alguns temas recorrentes para a série. O primeiro, e melhor, deles, é o de Vanessa. Inicialmente, ele aparece logo na primeira faixa, Demimonde (Main Titles), que traz uma construção surpreendentemente genial: ela se inicia com ostinatos a cargo das cordas, como num típico score de terror, até que o tema de Vanessa entra, interpretado de maneira dramática e progressivamente grandiosa, numa súbita substituição de notas mais rápidas pelas mais longas. Este tema retornará novamente em cues como Never Say No, executado num melancólico violino solo, e Back Hand of God, a cargo do piano, antes de entrar outra melodia com orquestrações mais grandiosas e um dramático coral. Porém, sua melhor apresentação é na belíssima Closer Than Sisters, quando o tema de Vanessa é combinado com um outro que representa sua relação com Mina, numa tocante performance de piano, harpa e cordas. Este novo tema retornará na igualmente bonita, porém mais curta, In Peace.

Ainda sobre Mina, ela também terá seu próprio tema na faixa de mesmo nome, uma melodia reconhecível de diversas trilhas de filmes de terror, para representar o destino terrível da personagem. Outro personagem representando na música de Korzeniowski é Dorian Gray, no cue homônimo e depois em Secret Room, uma melodia trágica, porém clássica e refinada como o papel interpretado na série pelo ator Reeve Carney. Lembra um pouco o estilo de Marco Beltrami para as passagens mais dramáticas de Eu, Robô e Presságio.

Ainda no grupo das faixas de drama, temos belos momentos em Modern Age, Everyone Likes Oranges, Pull the Trigger e I Was Never Going to Go to Africa. Assim, é uma pena que em Let Me Die Korzeniowski não parecia estar tão inspirado, e entregue uma composição bastante melosa. Porém, ele se redime em Street.Horse.Smeel.Candle lembra o estilo do compositor em Direito de Amar, ao descrever, com orquestrações precisas, o fascínio de um personagem ao conhecer o mundo pela primeira vez, enquanto em Welcome to the Grand Guignol Korzeniowski utiliza um violino solo em meio às cordas para mostrar a chegada de Caliban (a criatura de Frankenstein) ao teatro do título, famoso por exibir peças de terror.

Por falar nisso, para os momentos de horror da série, Korzeniowski entrega uma série de melodias que pagam tributo a alguns dos grandes compositores que possuem scores clássicos do gênero em suas carreiras, como Bernard Herrmann em Too Many Monsters, a John Williams: em First Blood, os cellos parecem fazer uma referência a Tubarão. E em Transgression, Korzeniowski entrega um novo tema que poderia ter saído da trilha de seu compatriota Wojciech Kilar para Drácula de Bram Stoker, numa melodia progressivamente mais tensa interpretada por orquestra e coral. Este tema, que serve para representar a ambiguidade e a maldade presente no coração de Vanessa, aparecerá novamente, com as cordas acompanhadas por tensos metais, em Mother of Evil.

Outras faixas de destaque do gênero são a perturbadora Asylum, em que, com dissonâncias e orquestrações sombrias, Korzeniowski descreve a passagem de uma personagem por um manicômio. Já em I’m Not Myself e The Last Rites a orquestra interpreta melodias aterrorizantes, que indicam os aspectos de possessão demoníaca da série.

Penny Dreadful é certamente uma das melhores trilhas para séries de televisão da atualidade, graças à sua escrita precisa e certeira, orquestrações brilhantes e inesperadas, além de ostentar o estilo elegante e clássico típico do músico. Espero que Abel Korzeniowski retorne para a segunda temporada da série, para nos entregar mais um ótimo score como esse.

Faixas:

1. Demimonde (Main Title) (01:36)
2. First Blood (03:22)
3. Right Behind You (02:15)
4. Modern Age (02:10)
5. Street, Horse, Smell & Candle (02:25)
6. There Is A Place (02:03)
7. Welcome To The Grand Guignol (02:20)
8. Everyone Likes Oranges (01:44)
9. Abomination (01:13)
10. Pull The Trigger (02:02)
11. Mina (02:33)
12. Allegiance (03:39)
13. Dorian Gray (01:35)
14. Never Say No (02:39)
15. Where Do They Go? (02:21)
16. Transgression (03:45)
17. Asylum (03:39)
18. Closer Than Sisters (03:14)
19. Too Many Monsters (03:24)
20. Mother Of Evil (02:43)
21. Secret Room (01:42)
22. I’m Not Myself (01:59)
23. Let Me Die (02:30)
24. To Be Beautiful Is To Be Almost Dead (02:47)
25. The Last Rites (02:48)
26. Back Hand Of God (02:21)
27. In Peace (01:31)
28. I Was Never Going To Go To Africa (03:03)
29. Reborn (03:09)

Duração: 72:32

Tiago Rangel

3 opiniões sobre “Resenha: PENNY DREADFUL – Abel Korzeniowski (Trilha Sonora)”

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