hercules_dwayne

Resenha: HERCULES – Fernando Velázquez (Trilha Sonora)


hercules_CDMúsica composta por Fernando Velázquez
Selo: Sony Classical
Catálogo: D002036192
Lançamento: 22/07/2014
Cotação: ***½

A Europa e, em particular, a Espanha, tem servido como um grande celeiro para novos compositores, que tem entregado trilhas orquestrais de qualidade. No caso do país ibérico, nomes como Javier Navarrete, Roque Baños e Federico Jusid tem atraído a atenção de crítica e público, bem como dos grandes estúdios hollywoodianos. Fernando Velázquez é certamente um dos mais bem sucedidos entre esses compositores. Ele conquistou reconhecimento com scores como o de O Impossível, uma partitura dramática e emocional; Los Últimos Dias, um thriller espanhol apocalíptico, que continha uma trilha forte e dissonante; e O Orfanato, seu melhor trabalho no gênero do terror (no qual ele é especialista). Assim, foi em busca de um som novo e revigorante que o diretor Brett Ratner decidiu contratar Velázquez para seu épico Hércules, não é?

Bem, isso não é inteiramente verdade. Ao ouvir a trilha, percebemos que o espanhol, na verdade, foi solicitado a escrever um score no melhor estilo das trilhas hollywoodianas que fazem sucesso atualmente, ao invés de fazer algo inteiramente original. Diversas características, e problemas, que encontramos em vários trabalhos de proeminência dos últimos anos do cinema hollywoodiano, também aparecem aqui neste trabalho de Velázquez.

Aposto que você pensou nos infinitos ostinatos e nas “trompas da perdição”, que caracterizam o “som Remote Control”, e que, após ser criado por Hans Zimmer e John Powell, tem sido ostensivamente utilizado pelos aprendizes do alemão, e por diversos outros compositores nos últimos anos. Pois bem, a boa notícia aqui é que Zimmer não foi a fonte de inspiração para Velázquez nesse caso, mas sim outro compositor que tem alçado voos cada vez mais altos em Hollywood: Brian Tyler.

A música de Velázquez para Hércules parece ser uma mistura dos trabalhos de Tyler nos dois Os Mercenários e em Thor – O Mundo Sombrio. Temos quase todos os elementos que caracterizam uma típica trilha do compositor americano, em especial na escrita para os metais e percussão (que, como seria de se imaginar, tem grande proeminência aqui). A forma de compor dos dois é tão similar, que Tyler devia se sentir honrado por ter se tornado um compositor tão referencial, ainda que só tenha onze anos de carreira no cinema. Veja a faixa Pirate’s Camp, por exemplo, que, com sua mistura de orquestra e banda de rock, poderia ter saído das trilhas de Tyler para os filmes da série Velozes e Furiosos.

A verdade é que, depois da traumática experiência de Gabriel Yared em Tróia, os estúdios hollywoodianos dificilmente deixariam um músico “de fora” escrever com total liberdade artística. O próprio Javier Navarrete foi vítima disso, ao ser orientado (no caso, por Hans Zimmer em pessoa) a compor para Fúria de Titãs 2 no melhor estilo Remote Control, ocasionando um baque em sua carreira do qual ele ainda não se recuperou.

O tema principal é um bom exemplo da influência do atual compositor da Marvel Studios: introduzido em Son of Zeus, e depois reapresentado em Hercules, ele guarda certa semelhança com o tema de Tyler para a aventura do Deus do Trovão. Ele será repetido ao longo de toda a partitura, em interpretações heroicas, que destacam a força do personagem mitológico, que no filme será interpretado por Dwayne Johnson. O tema se tornará mais recorrente ao final do álbum, e receberá interpretações catárticas e grandiosas em Comrades Stand Together, Alternative Ending e End Credits, com toda a orquestra e coral.

O disco de Hercules se divide em duas partes muito bem distintas. Seu início consiste basicamente em faixas melodiosas e repletas de grandeza, como cabe a um grande épico – ainda que contenha o sabor “moderno”. Assim, alguns motivos novos são apresentados em Arrival at Lord Cotys’ City e Athens, enquanto I Will Believe in You e The Lion’s Tooth possuem alguns momentos de lirismo.

Tudo começa a mudar a partir de Bessi’s Valley, que é repleta de suspense e tensão. Ela é seguida pela excelente Bessi Battle, uma faixa de ação complexa, com uma enérgica performance por toda a orquestra, destacando-se em particular os metais. São quase seis minutos de pura adrenalina, finalizados com uma épica apresentação do tema de Hércules. A partir desta faixa, a trilha assume de vez seu lado aventureiro e agitado, apostando em grandes setpieces de ação, intercalados por alguns poucos momentos mais líricos.

Em Training, destacam-se os trombones e a percussão, com acompanhamento de cordas. Já The Battle possui um ritmo militar, marcado pela percussão e pelos baixos, enquanto o restante da orquestra e o coral executam uma melodia tensa. Ela é seguida por Rhesus Caught, que usa as trompas para criar um clima grave, violento. Um outro destaque é Kill Eurystheus, que adiciona bateria, guitarra e sintetizador à orquestração, criando assim um ritmo de rock ‘n’ roll, lembrando um pouco o trabalho de Alan Silvestri em A Lenda de Beowulf, por exemplo.

A trilha atinge seu clímax final em Final Fight & Tydeus’ Death, que utiliza notas do tema de Hércules, interpretadas, porém de maneira mais tensa, e The Statue Falls, na qual a melodia segue num crescendo ritmado por coral e percussão, até culminar num final grandioso com toda a orquestra. Em seguida, vem o já citado final épico, sobrando espaço, inclusive, para uma versão do tema do filme para coral em Choir Theme. Novamente, o estilo de escrita aqui é bastante similar ao de Brian Tyler, mas dá para notar também influências das trilhas mais grandiosas de Patrick Doyle, e, por tabela, do próprio John Williams (que é uma das maiores inspirações de Tyler, vale dizer).

Para ser justo com Velázquez, entretanto, não se pode dizer que seu trabalho aqui é uma cópia total dos scores de outros compositores. Quem já ouviu suas obras anteriores poderá perceber progressões de acordes similares aos de trilhas como Demônio, Los Últimos Dias e dos momentos de suspense de O Impossível. Isso será particularmente notável na interpretação das cordas – seção da orquestra esta que Velázquez é especialista em compor. Porém, não vemos esse talento do compositor aqui, visto que a verdadeira estrela da trilha de Hércules são os metais, restando às cordas fazerem, na maior parte, acompanhamentos.

Assim, Hércules é uma boa trilha, bem composta e com ótimos momentos de ação. Além disso, se ela servir como porta de entrada de Fernando Velázquez para os blockbusters de Hollywood, e fizer quem ainda não o conhece pesquisar as obras deste ótimo compositor, terá cumprido a sua função. Mas eu preferiria ter ouvido algo com mais originalidade.

Faixas:

1. Son of Zeus 3:23
2. Pirate’s Camp 1:47
3. Hercules 0:23
4. Arrival at Lord Cotys’ City 1:31
5. Flashback 0:53
6. Athens 0:59
7. Lord Cotys’ Palace 1:44
8. I Will Believe In You 1:13
9. The Lion’s Tooth 0:52
10. Bessi’s Valley 6:29
11. Bessi-Battle 6:12
12. The Campfire 2:02
13. Training 1:43
14. Centaurs 4:27
15. The Battle 4:42
16. Rhesus Caught 0:55
17. Dungeon & I Am Hercules 6:30
18. Kill Eurystheus 2:11
19. Cotys Brings Out Arius 1:45
20. Final Fight & Tydeus’ Death 3:28
21. The Statue Falls 2:04
22. Comrades Stand Together 2:04
23. Alternative Ending 3:07
24. End-Titles 3:24
25. Choir Theme

Duração: 65:14

Tiago Rangel

6 opiniões sobre “Resenha: HERCULES – Fernando Velázquez (Trilha Sonora)”

  1. “A verdade é que, depois da traumática experiência de Gabriel Yared em Tróia, os estúdios hollywoodianos dificilmente deixariam um músico “de fora” escrever com total liberdade artística.O próprio Javier Navarrete foi vítima disso, ao ser orientado (no caso, por Hans Zimmer em pessoa) a compor para Fúria de Titãs 2 no melhor estilo Remote Control, ocasionando um baque em sua carreira do qual ele ainda não se recuperou.”

    Rapaz… Isso é serio mesmo? Eu não parei para ouvir o score de Wrath of Titans, mas lembro de ter ouvido a musica do End Credits e parecia bem original pra mim. E, bem, Hans Zimmer é um outlander tambem porra, qual foi na parada ai? É incrível como esse sujeito têm uma influencia politica (para não dizer ‘negativa’) em Hollywood… Incrível…

    Interessante notar que, Max Steiner, Erich Wolfgang Korngold e Trevor Jones, são compositores “estranhos, numa terra estranha” e, pelo que eu saiba, nunca tiveram problemas em impor seus estilos nos filmes que realizaram.

    Agora pow, se o Ratner queria uma trilha à la Brian Tyler, porque ele não chamou o proprio? hahahaha. Eu não conheço o trabalho do Velasquez, contudo, só de saber que esse score não foi feito ao estilo Remote “sem criatividade alguma” Control, já ganha um ponto. E por ser totalmente organico, ganha mais um ponto.

    Eu achava que, depois de A Hora do Rush III, Ratner fosse retomar a parceria com o Lalo Schifrin… Enfim, felizmente, Velasquez foi uma escolha audaciosa e acertada.

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  2. A faixa “End-Titles” dessa trilha merece uma menção honrosa também .. Totalmente grandiosa e envolvente! Magnífico trabalho de Velazquez!

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