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Resenha: A MILLION WAYS TO DIE IN THE WEST – Joel McNeely (Trilha Sonora)


Million_Ways_Die_CDMúsica composta por Joel McNeely
Selo: Back Lot Music
Catálogo: 267
Lançamento: 27/05/2014
Cotação: ****

Compor um score para uma comédia pode ser uma tarefa extremamente difícil. Talvez por isso não existam tantas trilhas clássicas lançadas para o gênero. Mesmo assim, ainda existem algumas formas de se musicar uma comédia, sem precisar recorrer apenas à música não-original. Elmer Bernstein, com seus scores para comédias como Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu!, ensinou que uma das maneiras é fazer a música passar direto pela comédia. Ou seja, ao invés de compor temas engraçadinhos, musicar o filme como se ele fosse “sério” – e, assim, realçar o efeito cômico. Afinal, poucas coisas são mais engraçadas que situações absurdas encenadas como se fossem o mais sério dos dramas (o contrário também é válido, como pregam principalmente as comédias dos Irmãos Coen). É exatamente isto que Joel McNeely faz em Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola (o título em português do filme é vergonhoso, eu sei).

O filme é uma comédia pastelão ambientada no Velho Oeste americano, que procura ridicularizar os clichês dos filmes de western, em meio a palavrões e piadas sexuais. Seu diretor e protagonista, Seth McFarlane, é conhecido por criar as bem sucedidas séries animadas Family Guy e American Dad, além de também ter dirigido o sucesso Ted, de 2012. McNeely, que já havia colaborado com McFarlane em episódios de suas animações, ao invés de realçar a comicidade do filme, entrega um autêntico score de faroeste, à moda antiga, no melhor estilo de Alfred NewmanJerome Moross e do próprio Elmer Bernstein. Se você for um Scoretracker jovem talvez não reconheça alguns desses nomes, mas certamente, ao escutar a trilha de McNeely, irá se lembrar do estilo musical e da orquestração, digna dos grandes faroestes clássicos.

McNeely, inspirado, entrega uma trilha que não faria feio ao lado destas citadas. Ao ouvir a primeira faixa do score, Main Titles, imediatamente passamos a imaginar que estamos no universo de vaqueiros durões e paisagens desérticas eternizado pelo cinema. Esta faixa introduz o tema principal do disco, que, embora seja semelhante ao de Marc Shaiman para Amigos, Sempre Amigos, ainda serve como uma ótima introdução à trilha, com sua bela escrita para toda a orquestra.

Após esse incrível início, o álbum prossegue de maneira irrepreensível. Temos o romantismo melancólico de Missing Louise, com destaque para o belo motivo para cordas, madeiras e gaitas; além de uma versão mais alegre do tema principal em Old Stump; e a enérgica Saloon Brawl, uma típica faixa de ação de faroestes, que inclusive conta com a adição de banjos e um violino solo. Em seguida, Rattlesnake Ridge introduz o tema da personagem Anna, que também é o tema romântico do filme, uma bela melodia, com um romantismo pulsante e uma sensibilidade raramente vista na música de cinema de hoje em dia.

Na sétima faixa, o tema principal faz uma boa apresentação. Porém, uma das melhores do disco é a seguinte, The Shooting Lesson, onde a inspiração de McNeely a scores clássicos do gênero, como Sete Homens e Um Destino (do já citado Bernstein), se mostra presente, com seus acordes e progressão temática característicos. O clima country se faz presente em The Barn Dance, onde instrumentos típicos do interior americano são o destaque. O belo tema romântico retorna em Anna and Albert, em sua versão mais completa. É uma linda faixa, que se destaca pela beleza e pelo romantismo da melodia, assim como a interpretação sensível da orquestra. Nem parece que a trilha pertence a uma comédia pastelão.

Infelizmente, após essa faixa, o álbum, que seguia muito bem, dá uma leve caída. Temos momentos não muito inspirados em Clinch Hunts Albert, Captured by Cochise e Albert Takes a Trip, que poderiam ter saído de momentos menos memoráveis de uma trilha de John Williams. E, falando em Williams, McNeely entrega uma das melhores faixas de ação do disco, Racing the Train, que parece ser inspirada pelo colaborador de Steven Spielberg. A orquestração, as trocas entre metais e cordas e os acordes, todos poderiam entrar em trilhas como Star Wars, Indiana Jones ou Jurassic Park. Apesar disto, ainda é uma dos grandes destaques do score. Para encerrar o álbum, McNeely entrega Sheep to the Horizon, que contém uma bonita e grandiosa apresentação do tema principal, bem como End Title Suite, que mistura os temas principal e o de Anna, servindo como um belo finale para o disco.

A Million Ways to Die in The West, assim, é uma bela e divertida trilha, bem escrita, orquestrada e interpretada por um elenco de 98 músicos da Hollywood Studio Symphony. McFarlane e McNeely, ambos grandes fãs da música de cinema (bem como críticos do atual estado dela, como comprovam suas mensagens no folheto do disco), prestam uma homenagem aos clássicos do faroeste, ao passo em que entregam a melhor trilha do gênero desde Wyatt Earp, de James Newton Howard. Certamente, este é um compositor que, apesar de veterano, deveria receber mais atenção por parte de Hollywood.

Faixas:

1. A Million Ways to Die (02:28)
Music by Joel McNeely. Lyrics by Seth MacFarlane. Performed by Alan Jackson.
2. Main Title (02:34)
3. Missing Louise (02:08)
4. Old Stump (00:45)
5. Saloon Brawl (01:51)
6. Rattlesnake Ridge (01:28)
7. People Die at the Fair (02:11)
8. The Shooting Lesson (02:16)
9. The Barn Dance (02:30)
10. If You’ve Only Got a Moustache (01:32)
Written by Stephen Foster. Additional lyrics by Seth MacFarlane, Alec Sulkin and Wellesley Wild. Performed by Amick Byram.
11. Anna and Albert (04:19)
12. Clinch Hunts Albert (03:42)
13. Racing the Train (02:22)
14. Captured by Cochise (02:07)
15. Albert Takes a Trip (02:24)
16. The Showdown (02:20)
17. Sheep to the Horizon (02:01)
18. End Title Suite (02:31)

Duração: 41:29

Tiago Rangel

12 opiniões sobre “Resenha: A MILLION WAYS TO DIE IN THE WEST – Joel McNeely (Trilha Sonora)”

  1. Esqueci de comentar sobre as duas canções do disco. A primeira é A Million Ways to Die, cantada por Alan Jackson, e cuja melodia reaparece em Saloon Brawl. A outra é a engraçada If You’ve Only Got a Moustache, cuja letra, escrita ainda no século XIX, foi modificada pelos roteiristas do filme, e é cantada com vivacidade pelo tenor da Broadway, Amick Byram. As duas podem não ser tão boas quanto o score de McNeely, mas são bem divertidas.

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    1. Mais uma vez concordo com você, Tiago!
      Joel McNeely é disparado um dos melhores compositores de trilhas sonoras que conheço, tempos atrás comentei neste site que seu estilo sem dúvida é o que mais lembra o estilo de John Williams dos anos 70, 80 e 90, tanto pelas belas composições como também pela rica orquestração.
      Acredito que se Star Wars precisar de um sucessor para John Williams, Joel McNeely deveria ser uma escolha natural. Porém sabemos que JJ Abrams já tem seu compositor, que também é excelente.
      Joel é um compositor muito subestimado pelos estúdios – inclusive eu acredito que ele próprio não se dá o devido valor!!! – quem sabe a partir de agora isso muda e ele se torna mais atuante.

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      1. Como já comentamos com o Tiago, Joel McNeely integra um grupo de compositores talentosos que também inclui Bruce Broughton e Christopher Young, mas que também são muito azarados… os projetos nos quais trabalham ou acabam fracassando nas bilheterias ou são malhados pela crítica – normalmente, as duas coisas… Por isso, por melhor que tenha sido a trilha do McNeely, essa comédia dificilmente acrescentará algo de positivo na sua carreira.

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  2. Esta resenha me surpreendeu. Fora os seus trabalhos como regente, não conheço nenhuma composição feita pelo McNeely.

    Esse score é muito bom. É agradavel de se ouvir e, como o Tiago apontou, não parece ter sido escrito para um filme de comedia.

    “McFarlane e McNeely, ambos grandes fãs da música de cinema (bem como críticos do atual estado dela, como comprovam suas mensagens no folheto do disco)”

    É bom saber que existe gente preocupada com isso. E é bom saber, que eles não se deixam levar pela onda musical atual em Hollywood.

    Pode até ser que este trabalho, não vá acrescentar nada na carreira dele. Entretanto, só por pensar assim, McNeely e McFarlane, acabaram de ganhar um novo admirador.

    Procurarei ouvir outros trabalhos dele.

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  3. Outro sujeito que faz parte dos menosprezados por Hollywood: John Debney. Sua trilha para A Ilha da Garganta Cortada (Cuttroath Island) é simplesmente uma das melhores já feitas para filmes de piratas. Deixa no chinelo o trabalho de Zimmer & Cia na franquia Piratas do Caribe.

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    1. A trilha de Cutthroat Island é brilhante mesmo, um de meus scores favoritos de aventura e o melhor trabalho do John Debney até hoje. Quanto a Piratas do Caribe, sou um grande fã do score do terceiro filme (em minha opinião, um dos melhores do Hans Zimmer), mas nem tanto das trilhas dos outros filmes da franquia.

      Mas, sobre o Debney, não sei dizer se a culpa é dos produtores de Hollywood que não o chamam para projetos maiores ou do próprio que ficou acomodado demais e agora só faz comédias que ninguém assiste. Só sei que ele deveria trabalhar mais em filmes de ação e aventura, mostrar mais de sua criatividade – bem como o próprio Joel McNeely, tema deste texto.

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      1. Apesar de detestar o caminho tomado por Zimmer atualmente, eu concordo com o Tiago. A trilha do terceiro Piratas é bem melhor que o próprio filme, que tem uma trama confusa por demais.

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  4. Além da trilha de A Ilha da Garganta Cortada, Predators é outro fantastico score do Debney. Eu adoro a ambientação que ele criou nesse trabalho. Foi um score ambicioso ao meu ver. Ele é ótimo pra se ouvir na academia =D

    Apesar de conhecer apenas um trabalho dele, sempre achei Cliff Eidelman um compositor menosprezado por Hollywood.

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  5. Gostei muito desta trilha, ótimo saber que outras pessoas não estão satisfeitas com o rumo que tomou o cenário musical em Hollywood, atualmente monopolizada pelo picareta do Hans Zimmer e seus clones.

    Apesar de ter gostado da trilha, não posso deixar de reparar que o tema romântico, “Anna and Albert” é uma cópia do tema de “Courage Under Fire” do James Horner. São praticamente idênticos.

    Joel McNeely é outro grande compositor menosprezado por Hollywood, juntamente com John Debney, Bruce Broughton, Robert Folk, Trevor Jones, Don Davis entre outros.

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