Curtin

Entrevista: HOYT CURTIN


curtinfredNão há quem, em algum momento da sua vida, não tenha assistido às criações da Hanna-Barbera, a lendária produtora de desenhos animados para a TV dos Estados Unidos. Seus criadores, William Hanna e Joseph Barbera, conheceram o sucesso bem antes da fundação da companhia, nos anos 1940, durante todo o período em que produziram a fase áurea dos desenhos de Tom e Jerry para a MGM. No final dos anos 1950, quando deixou a MGM, a dupla contratou o compositor e arranjador Hoyt Curtin para ser o diretor musical da sua nova empresa, e o resto é história.

Curtin cresceu em San Bernardino, Califórnia, e começou a aprender piano aos 5 anos de idade. Antes de formar-se no ginásio, já era o líder de uma pequena banda que tocava em bailes. Depois de servir na Marinha durante a 2ª Guerra Mundial, Curtin tentou arranjar emprego em estúdios de cinema, ao invés disso, passou a compor para a televisão e para comerciais de rádio. Foi graças a um de seus comerciais que os produtores Hanna e Barbera o contrataram para o seu primeiro desenho, Jambo e Ruivão. Nas três décadas seguintes, a Hanna-Barbera produziu mais de uma centena de shows animados que se tornaram antológicos, graças, entre outras coisas, aos clássicos temas e scores baseados em jazz, para desenhos como Os Flintstones, Manda-Chuva, Os Jetsons e Jonny Quest.

Infelizmente, muitas das fitas masters destas gravações não mais existem, sendo que parte do material existente foi reunido em 1996 na coletânea de 4 CDs “Pic-A-Nic Basket of Cartoon Classics”, da Rhino. Curtin aposentou-se em 1992, e nos meses de abril e maio de 1999, o músico Gary Karpinski realizou, através de e-mail, uma entrevista na qual o compositor revelou detalhes inéditos de seu trabalho em Jonny Quest e de sua longa colaboração com William Hanna e Joseph Barbera. Menos de dois anos após esta entrevista, no dia 03 de dezembro de 2000, Hoyt Curtin faleceu em sua residência.

GK: Caro Sr. Curtin, se não houver problema, gostaria de fazer uma pequena entrevista sobre a música que o senhor compôs para a Hanna-Barbera, especialmente Jonny Quest.
HC:
Olá Gary, será um prazer!

GK: É verdade que o senhor estava compondo música para comerciais de rádio quando conheceu Bill Hanna e Joe Barbera?
HC: Sim, eu estava compondo e gravando uns 10 comerciais por semana. Um deles era para a cerveja Schlitz, que Bill e Joe estavam produzindo na MGM. Duas semanas depois eles me ligaram, leram ao telefone uma letra de música e perguntaram se eu poderia compor uma canção para ela. Cinco minutos depois eu liguei de volta, e cantei a canção para eles. Silêncio… Acho que eu os surpreendi… Logo em seguida assinei um contrato para gravá-la, era Ruff &Reddy (Jambo e Ruivão). Na época eles já haviam deixado a MGM e iniciado seu próprio negócio. Todos os primeiros temas dos desenhos foram feitos assim; Huckleberry Hound (Dom Pixote), Quick Draw McGraw (Pepe Legal), etc.

GK: Em que ano o senhor começou a trabalhar para a Hanna-Barbera?
HC: 1957.

GK: Uma curiosidade: o seu sobrenome foi grafado “Curtain” nos créditos dos primeiros desenhos. Foi apenas um engano por parte da Hanna-Barbera?
HC: Eu nunca consegui corrigir aquilo, mas como eles diziam… era bem parecido.

GK: Dentre todas as grandes músicas que o senhor compôs para a Hanna-Barbera ao longo dos anos, quais são as suas favoritas?
HC: Os Flintstones, eu acho, porque era um prazer ouvir os músicos tocando-as. Jonny Quest e Os Jetsons também, porque as escrevia para desafiar os meus amigos da banda. Jonny Quest é quase impossível de tocar ao trombone!

jquestGK: Minha favorita é a música que o senhor compôs para Jonny Quest. Toda a música para este desenho em particular era criada e adicionada após a animação? Ou já havia algumas músicas previamente prontas?
HC: Uma parte dela foi criada para formar uma biblioteca de músicas, a serem utilizadas em vários episódios, o resto compus para episódios específicos.

GK: Quantas versões do tema de abertura de Jonny Quest existem? Eu sei que há uma versão mais longa na coletânea de 4 CDs de Hanna-Barbera “Pic-A-Nic Basket”.
HC: Creio que apenas duas. Meu pianista, Jack Cookerly, inventou o protótipo do sintetizador, como hoje o conhecemos, para aquele show. Era feito de caixas laranja, com um teclado e um monte de válvulas! Todo mundo na banda se apaixonou por ele.

GK: Há muita música conhecida que o senhor criou para JQ, no LP de 1965 de Jonny Quest “20,000 Leagues Under The Sea”. Porque foi colocada uma versão diferente do tema de abertura naquele disco? Era um dos temas originais que o senhor compôs, mas não utilizou? Ou o senhor o criou especialmente para aquele álbum? Eu sempre achei que soava demais como a música de “James Bond” em certos trechos.
HC: Essa versão foi feita por Marty Paitch, um ótimo arranjador.

GK: Então, o senhor não teve nada a ver com essa versão específica? Sei que no verso do álbum eles lhe deram crédito (Música – Jonny Quest: Hoyt Curtain). E eles novamente erraram o seu nome.
HC: Sim, eu compus o tema naquela versão lenta de JQ, mas acredito que a faixa foi retirada de um disco arranjado por Marty Paitch.

GK: Ouvindo sua música nos CDs de Hanna-Barbera “Pic-A-Nic Basket”, eu ainda fico maravilhado, como o senhor compôs todas aquelas obras-primas, uma após a outra. O senhor criou “títulos oficiais” para as diferentes músicas compostas para Jonny Quest? Ou o senhor apenas numerava cada uma (JQ1, JQ2,etc)? O tema de abertura de Jonny Quest foi o primeiro a ser composto e gravado?
HC: Primeiro fiz o tema, depois as faixas. Creio que o departamento de montagem batizou cada faixa.

PicANicBasketGK: Gostei muito dos CDs da Hanna-Barbera “Pic-A-Nic Basket”, mas também fiquei um pouco desapontado porque não continha toda a música composta para Jonny Quest. O restante das faixas ainda existe, ou poderá ser lançado?
HC: Eu precisaria confirmar, mas penso que esse material já não existe mais, dificilmente será encontrado.

GK: Em muitos casos, Hanna e Barbera foram os co-autores dos temas, já que escreviam as letras para determinado desenho, e as passavam para o senhor, para que compusesse a música. Eles já tinham idéia de como queriam a música para Jonny Quest? Adorei o modo como o senhor combinou música tradicional e jazz. Ficou perfeito, estabeleceu todo o clima do desenho.
HC: Sim, normalmente eu recebia as letras prontas, e as combinava com a minha música para criar os temas de abertura. Destes, 85 foram instrumentais, e 60 possuíam vocaI. Jonny Quest era instrumental, então só tive de criar um tema de aventura.

GK: Além das músicas de abertura e de encerramento de Jonny Quest, tenho as minhas favoritas, como a música de “Perseguição” ou a música da “Múmia”, como muitos fãs as batizaram. A banda que as tocava era incrível. Quantos músicos o senhor usou para gravar a música de Jonny Quest?
HC: Era uma banda regular de jazz, com 4 trompetes, 6 trombones, 5 madeiras (sopro), e uma seção rítmica com 5 músicos, incluindo a percussão.

GK: A música de Jonny Quest muitas vezes era poderosa e energética. Quantos trombonistas o senhor usou, e qual era o nome daquele incrível baterista?
HC: Alvin Stohler ou Frankie Capp normalmente eram os bateristas. JQ tinha 6 trombones, porque era muito difícil de interpretar. A competição entre aqueles músicos era algo mais!

GK: Quantas gravações normalmente o senhor fazia em cada sessão de gravação para Jonny Quest? Ou o senhor e os músicos simplesmente entravam no estúdio e gravavam uma só vez?
HC: O tema de abertura, levamos uma hora para gravar, mas foi uma exceção. A maior parte das músicas era tocada apenas uma vez, e então gravada.

GK: Existe alguma foto da banda que o senhor usou para Jonny Quest? Ou talvez algum filme raro das sessões de gravação?
HC: Não que eu saiba. Mas lembro-me bem das sessões no estúdio MT da RCA em Hollywood. Eu tinha que ficar na cabine, porque ria demais vendo o meu pessoal, os trombonistas, tentando tocar aquela música! Ninguém desistia, é claro. Utilizei as piores notas possíveis para trombones… ADOREI!

GK: O senhor usou a mesma banda para gravar a maior parte das músicas compostas para a Hanna-Barbera?
HC: Sempre que possível, utilizei os mesmos caras. Eram os únicos que conseguiam ler e tocar como demônios.

GK: Como era trabalhar com Doug Wildey?
HC: Não me lembro dele. Quem era?

GK: Doug Wildey foi o criador de Jonny Quest, e ele supervisionou o visual e a animação da série.
HC: Meu envolvimento com os episódios era posterior ao desenho e à animação, e acho que por isso nunca conheci Doug.

GK: Qual foi o último desenho da Hanna-Barbera para o qual o senhor compôs?
HC:
Os Smurfs. Usei temas clássicos, e foi um dos meus trabalhos favoritos.

GK: Uma última pergunta: Como o senhor se sente sendo uma lenda?
HC: Muito obrigado por estas palavras tão gentis!

GK: Gostaria de agradecer mais uma vez ao senhor, por ter arranjado tempo para conceder-me esta entrevista. Tenho tocado bateria há 25 anos, e sua música (especialmente Jonny Quest!) foi a minha primeira e maior influência. Desejo o melhor para o senhor, e espero ouvir novas músicas suas no futuro.
Saudações, Gary Karpinski.

Curtin

Nota do ScoreTrack.net: Deixamos aqui o nosso agradecimento ao Gary Karpinski, que forneceu as imagens por nós utilizadas e que gentilmente autorizou-nos a traduzir sua entrevista, para que pudéssemos prestar esta homenagem ao homem que, com sua música excepcional, alegrou nossas tardes passadas à frente de uma TV. Agradecemos, também, ao site Classic Jonny Quest, que divulgou esta entrevista pela primeira vez, em inglês.

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