Resenha: HOW TO TRAIN YOUR DRAGON 2 – John Powell (Trilha Sonora)


How_train_dragon_CDMúsica composta por John Powell
Selo: Relativity Music Group
Catálogo: RMG20356
Lançamento: 10/06/2014
Cotação: ****½

Uma continuação tem como propósito ampliar o universo estabelecido anteriormente e dar novos e empolgantes desafios aos protagonistas. Musicalmente, é a oportunidade de um compositor expandir o trabalho realizado no primeiro filme, e ainda acrescentar ideias novas, instigantes, que mantenham a franquia sempre renovada. Músicos como John Williams, Alan Silvestri, Danny Elfman e Jerry Goldsmith obtiveram êxito em criar continuações para trilhas suas que, mesmo sem perder a identidade estabelecida no primeiro filme, davam continuidade à sonoridade musical das franquias, com novos conceitos. É exatamente isto o que John Powell faz com a trilha de Como Treinar seu Dragão 2, a mais aguardada do ano para nove entre dez scoretrackers: mantém o que funcionou em seu score para o filme anterior da franquia e, ao mesmo tempo, acrescenta novas ideias que soam perfeitamente orgânicas na música.

Nesta nova animação da DreamWorks, o herói Soluço, seus amigos vikings e seus dragões, devem enfrentar novos e perigosos desafios. O longa tem uma escala maior que a do primeiro filme, e obviamente a música deve acompanhar esse crescimento. Assim, Powell utiliza uma orquestra sinfônica gigantesca, coral igualmente enorme e uma coleção de instrumentos típicos, como gaitas de fole. Provavelmente, esta é a maior trilha em escala de Powell, e uma das maiores já compostas para uma animação. Contando com uma excelente equipe de orquestradores, o compositor nos entrega um score grandioso e épico como raramente se vê hoje em dia.

Aliás, a trilha desse filme possui uma energia que, com raras exceções, não se vê mais nos scores hollywoodianos. A primeira faixa, Dragon Racing, é um ótimo exemplo disso. Ela traz de volta vários dos temas do primeiro filme, articulados com habilidade, porém com novos arranjos. Estes incluem a presença do coro (que pouco apareceu naquele score), mas que só acrescentam ao escopo épico da música. Assim, esta ótima faixa é uma empolgante introdução ao disco, que funciona como uma ponte de ligação entre as duas partituras.

Porém, logo após essa introdução, os novos temas e motivos do álbum começam a aparecer. Na faixa Together We Map the World, um deles é apresentado, em meio a uma bela escrita para cordas, no melhor estilo de Williams. Em seguida, vem Hiccup the Chief/Drago’s Coming, que se inicia com uma bonita apresentação lírica de alguns temas já conhecidos, antes de logo entrar em um trecho wagneriano e operístico com orquestra e coral. Ouvir algo como isso nos dias de hoje, nos quais os compositores cada vez mais se rendem à instrumentação eletrônica, é quase um alento. Powell, entretanto, nos reserva mais algumas surpresas, e, nesta mesma faixa, ao final, ele entrega uma interessante apresentação do tema principal com toda a orquestra.

A grandiosidade de Powell prossegue nas faixas seguintes. Em Toothless Lost, dois novos temas aparecem e o compositor inclusive utiliza um pouco de mickeymousing (o que é compreensível, afinal, este filme ainda é uma animação infantil), enquanto Should I Know You inicia-se com um belo trabalho de coral, até o aparecimento do tema principal executado de maneira heroica, em meio a melodias de ação repletas de energia.  Já Valka’s Dragon Santuary traz de volta o tema da segunda faixa, executado de forma mais lírica e evocativa, de maneira bela, com destaque para as madeiras. A faixa seguinte não deixa nada a dever para as trilhas de O Senhor dos Anéis, ao entregar um novo tema executado de maneira épica, e, ao mesmo tempo, repleta de lirismo, pela orquestra e coral.

O tema do vilão Drago é interpretado de maneira ameaçadora na oitava faixa. Já em Stoick Finds Beauty, temos lirismo e encantamento, com destaque para o coro feminino. Flying with Mother, por sua vez, lembra a trilha de Avatar na forma como é conduzida, e traz o tema da sétima faixa rearranjado como um cântico para coral e orquestra. Na sequência, vem For the Dancing and the Dreaming, uma canção composta por Powell e por Jónsi, e interpretada pelos atores do filme Gerard Butler, Craig Ferguson e Mary Jane Wells.

Logo após esta, entretanto, o álbum, que já seguia muito bem, melhora dramaticamente. Battle of the BewilderBeast é uma excelente faixa de ação, brilhantemente escrita e orquestrada. Com seus seis minutos de pura explosão orquestral, e contanto com coros heroicos, esta já é um dos melhores cues da carreira de Powell. A maneira como ele organiza e apresenta os temas atinge um nível particularmente incrível apenas nesta faixa. Entretanto, a batalha ainda não acabou e logo vem Hiccup Confronts Drago, que inicia-se de maneira otimista, porém, aos poucos vai ficando mais sombria e dramática, até chegar a um trecho com gaitas de fole, percussão e metais. Ele contém algo de exótico, de estranho, e soa como uma composição bastante criativa. A tragédia, infelizmente, acontece para nossos heróis, e, em Stoick Saves Hiccup, o tema principal deste segundo filme é executado inicialmente em um harmônio, e logo depois por toda a orquestra, de maneira bela e trágica.

O clima de tristeza e derrota prossegue em Stoick’s Ship, que, com sua combinação de orquestra, coral e gaitas de fole, parece ser uma mistura entre o James Horner de Titanic e Coração Valente com Danny Elfman. Ao contrário de muitas trilhas para animações infantis, que apostam apenas na comédia e na aventura, Powell aposta em melodias trágicas, que soam genuinamente emocionantes. Porém, um filme para crianças não pode ter um final deprimente, e logo melodias com heroísmo e comédia retornam em Alpha Comes to Berk.

Para o final do disco, vem Toothless Found, que se inicia ameaçadora, mas logo temos o retorno de temas anteriores, interpretados de forma grandiosa, incluindo os já reconhecidos metais agitados e enérgicos de Powell. Em seguida, Two New Alphas fecha o álbum com perfeição, pois, enquanto o disco iniciava-se com os temas do primeiro filme, em seu final, ele traz de volta todos os temas novos do segundo, fechando, portanto, um ciclo completo. Além disso, esta é uma ótima faixa, um encerramento adequadamente grandioso e épico para o filme. Para finalizar o disco, temos mais uma canção de Jónsi, a boa Where No One Goes, que contém ainda alguns dos temas de John Powell em seu arranjo.

Esta trilha e a do primeiro filme são certamente os melhores trabalhos de Powell, e provavelmente serão lembradas como estando entre os melhores scores já compostos para animações. Talvez ele não seja indicado ao Oscar novamente (afinal, trilhas de animações blockbusters não estão geralmente entre as partituras indicadas ao prêmio da Academia – o que só comprova a qualidade do trabalho de Powell), mas este belo trabalho do músico demonstra amadurecimento e já o coroa como um dos grandes compositores para animações do cinema.

Faixas:

1. Dragon Racing (04:34)
2. Together We Map The World (02:19)
3. Hiccup The Chief / Drago’s Coming (04:44)
4. Toothless Lost (03:28)
5. Should I Know You (01:56)
6. Valka’s Dragon Sanctuary (03:19)
7. Losing Mom / Meet The Good Alpha (03:24)
8. Meet Drago (04:26)
9. Stoick Finds Beauty (02:33)
10. Flying With Mother (02:49)
11. For The Dancing And The Dreaming (03:06)
performed by Gerard Butler, Craig Ferguson & Mary Jane Wells
12. Battle Of The Bewilderbeast (06:26)
13. Hiccup Confronts Drago (04:06)
14. Stoick Saves Hiccup (02:23)
15. Stoick’s Ship (03:48)
16. Alpha Comes To Berk (02:20)
17. Toothless Found (03:46)
18. Two New Alphas (06:06)
19. Where No One Goes (02:44)
performed by Jonsi & John Powell

Duração: 68:17

Tiago Rangel

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11 opiniões sobre “Resenha: HOW TO TRAIN YOUR DRAGON 2 – John Powell (Trilha Sonora)”

  1. O ano começou dando um pequeno susto na qualidade das trilhas e eis que surgem Desplat, James Newton Howard (como é bom ver esse homem retornando a trabalhos de alta qualidade) e John Powell com scores grandiosos e belíssimos. Não que grandiosidade seja sinônimo de qualidade, mas essas três trilhas fazem a gente perceber que a música de cinema ainda respira com força.

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    1. (obs: depois de escrever, achei estranho o “respira com força”, mas acredito que os amigos entenderão o sentido rsrsrsrs)

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  2. Estava sentindo falta de um score orquestral grandioso. Já que ultimamente muitos compositores tem preferido o estilo “Hans Zimmer” de trilha e perdido sua originalidade. Triste realidade.

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