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Resenha: MALEFICENT – James Newton Howard (Trilha Sonora)


Malifecent_CDMúsica composta por James Newton Howard
Selo: Walt Disney Records
Catálogo: D001908702
Lançamento: 27/05/2014
Cotação: ****

As influências de outros compositores são fundamentais para se compreender a filmografia de James Newton Howard. Por serem tão diversas (variando de compositores da Era de Ouro de Hollywood a Jerry Goldsmith), tais influências só poderiam resultar numa salada musical, que Howard mistura com criatividade, fazendo com que seu estilo não possa ser definido por apenas um trabalho. Ele é um compositor com uma obra rica, variada, que soube utilizar bem suas influências e mesclá-las, formando seu próprio estilo, que pode abarcar desde trilhas primariamente eletrônicas (como a indicada ao Oscar Michael Clayton) e experimentais (como Um Dia de Fúria) até grandes arroubos orquestrais. A trilha de Malévola se adequa ao último caso e, embora aqui e ali tenhamos momentos que lembrem outras obras do compositor, a música ainda consegue soar nova, distinta, sem parecer ser apenas uma cópia de outros trabalhos do músico.

Malévola é uma aventura para a família produzida pela Disney e estrelada por Angelina Jolie, que conta a história do famoso conto / longa animado A Bela Adormecida, porém, pelo ponto de vista de sua vilã, a personagem-título do filme. Assim, mais do que apenas uma bruxa má, ela é retratada como uma anti-heroína, uma fada essencialmente boa que se corrompe, porém busca a redenção. E, como já se tornou regra entre filmes de fantasia, um filme desses pedia uma trilha orquestral, repleta de temas, magia e encantamento. Howard, que há dois anos entregou uma de suas melhores trilhas recentes justamente para uma fantasia, Branca de Neve e o Caçador, aqui não decepciona, embora essa seja uma trilha diferente em sonoridade da do filme de 2012.

Pode-se dizer que, enquanto em Branca de Neve seu score era mais dramático e pesado, em Malévolapredomina a magia, e o tom é mais leve. Apesar disso, a primeira faixa, Maleficent Suite, inicia-se de forma justamente mais tensa. Ela começa com o motivo dedicado aos humanos, os vilões da trama, que querem atacar o reino mágico dos Moors. Esse motivo, executado primariamente pelos violoncelos e baixos, traz certa ameaça, mas também comicidade, especialmente no trecho interpretado pelo oboé, logo em seguida. A faixa segue de forma mais atmosférica, até que incorpora outro tema do filme, dedicado à broca de fiar na qual a princesa Aurora espeta o dedo. Esse é executado principalmente por uma voz feminina misteriosa, que sugere a poderosa magia por trás do artefato. Na sequência, um crescendo dramático por toda a orquestra, até desembocar no tema da protagonista, uma melodia doce e relativamente triste, aqui numa interpretação melancólica por uma soprano e pelas cordas. Pode não ser o melhor dos temas de Howard, mas é eficiente e funciona bem no álbum e no filme.

A segunda faixa, Welcome to the Moors, serve para introduzir o reino do título, povoado por fadas e outros seres mitológicos. Ela é interpretada por orquestra e coral em allegro, e possui uma energia e vivacidade que não eram vistos há muito tempo na música de Howard. Porém, é na terceira faixa, Maleficent Flies, que percebemos o quanto essa é uma obra especial do compositor. Cuidadosamente construída, ela se inicia de forma sutil, com cordas e madeiras, até incorporar o tema de Malévola novamente e introduzir um outro, dedicado à magia do universo em que os personagens estão inseridos. O coral e a orquestra seguem num belo crescendo, com lenta incorporação dos metais, até culminar num grandioso retorno do tema da protagonista e um final romântico. Não é exagero dizer que apenas esta faixa é melhor do que boa parte das composições de Howard nos últimos anos.

O tema dos humanos malvados volta num ritmo militar em Battle of the Moors, surpreendente faixa de ação em que os metais se destacam. Apesar de lembrar um pouco John Williams, não deixa de ser puramente Howard. Entretanto, embora tenha um tom mais pesado, a leveza e a comicidade retornam nas faixas seguintes, em especial, Three Peasant Women, em que o destaque são as madeiras, executando um motivo dedicado às três fadas que servem como protetoras de Aurora. Falando na princesa, ela ganha alguns motivos na bela Aurora and the Fawn, que também traz de volta o tema mágico, mas que também merece destaque por trazer novamente a elegante escrita para cordas característica de Howard, que sempre eleva suas obras em qualidade.

Porém, nem tudo é perfeito, e a faixa The Christening se revela um dos pontos fracos do disco, pecando por ser sem direção e por trazer uma percussão moderna que em nada combina com o estilo apresentado até então. Apesar disso, a boa Prince Phillip compensa um pouco, ao apresentar um tema dedicado ao príncipe do título. Esse tema, após um início com flautas e harpa, traz as cordas executando uma melodia romântica, inocente, como são as primeiras paixões juvenis. A décima faixa, The Spindle’s Power, inicia-se de forma tensa e heroica, com arpejos de cordas e metais rápidos, apenas para diminuir o ritmo, porém mantendo a tensão, ao trazer de volta o tema da broca de fiar, conforme a princesa aproxima-se de seu fatídico destino e os personagens correm, sem sucesso, para impedi-la. A culminação disso é num final repleto de suspense, em que o clima atmosférico e sustentado inclusive por sutis sintetizadores, coro e sinos.

Um violoncelo solo, vozes infantis e harpa são os destaques em You Could Live Here Now, que mistura melancolia e certa ameaça. Já Path of Destruction traz as cordas executando uma melodia de suspense que lembra muito Tubarão, enquanto metais e coro enérgicos ditam o clima de perigo. Uma das melhores do disco, entretanto, é a faixa seguinte, Aurora in Farieland. Ela inicia-se de forma atmosférica com piano e acompanhamento eletrônico, prosseguindo calmamente com cordas e madeiras, de maneira melancólica. É uma faixa sutil, onde cada estas duas seções da orquestra e o coro tem seu momento de brilhar, sem, entretanto, ocupar o espaço do outro. Em termos de ritmo, orquestração e construção, esta faixa pode ser considerada uma irmã das igualmente belas Jacob Sees Marlena, do disco de Água para Elefantes, e da dobradinha Sanctuary/White Hart, presentes em Branca de Neve e o Caçador.

O álbum prossegue com The Wall Defends Itself, que traz semelhanças com o trabalho de Howard nas faixas de ação de King Kong e Dinossauro, enquanto o tema da broca de fiar retorna em The Curse Won’t Reverse. Já em Are You Maleficent?, um novo tema é introduzido, uma dramática melodia a cargo de cordas e coro. Certamente, é um dos melhores e mais bonitos temas do disco, que merecia aparecer mais vezes no álbum (visto que, no filme, ele é executado em três ocasiões). Aqui, ele aparece apenas ao início da faixa, e logo é seguido por melodias sem muito destaque.

The Army Dances traz uma valsa macabra e, em Phillip’s Kiss, o lírico tema do príncipe retorna, seguido por um belo final a cargo do piano. The Iron Gauntlet tem um clima de suspense, conduzido pela orquestra, mas sem perder a leveza. Já True Love’s Kiss é uma bonita faixa, conduzida especialmente pelas cordas, numa melodia melancólica, porém ao mesmo tempo esperançosa, num típico cue de drama de Howard – o que é sempre ótimo.

A maior surpresa do disco, porém, vem da vigésima primeira faixa, Maleficent is Captured, provavelmente uma das melhores de ação já escritas por Howard. Para ser sincero, nunca fui um grande fã das faixas de ação do músico, em minha opinião, seu maior talento como compositor não era este, ao passo em que aprecio muito suas composições mais dramáticas para cordas. Entretanto, essa faixa do álbum contém todos os ingredientes de um excelente cue orquestral de ação: uma escrita complexa, orquestra em total potência, metais enérgicos, percussão, coral, e melodias que se alternam entre o perigo e o heroísmo – neste caso em particular, incluo a excelente apresentação do tema de Malévola de maneira grandiosa e heroica. Enfim, esta é uma brilhante faixa de Howard, que, sem sacrificar seu estilo, conseguiu compor um dos melhores cues de ação de 2014, e conseguir isso em ano do Godzilla de Desplat é um grande feito.

Os temas relacionados aos heróis do longa retornam em The Queen of Faerieland, bela faixa executada por orquestra e coral que traz um encerramento adequadamente mágico, grandioso e otimista, representando o final feliz do filme. Para encerrar o disco, temos a versão da cantora Lana Del Rey para Once Upon a Dream, canção tema do clássico da Disney A Bela Adormecida, que inspirou Malévola. É uma faixa interessante, sombria e misteriosa, que pouco lembra o encantamento da versão original.

Howard, que vinha irregular nos últimos tempos, começa a dar sinais de recuperação com essa obra. Em Malévola ele mistura suas já citadas influências (compositores clássicos, Korngold, Williams, Elfman) para criar um som inteligentemente orquestrado e belamente escrito. Particularmente, ainda prefiro Branca de Neve e o Caçador, mas Malévola não deixa de ser mais um ótimo trabalho em um gênero no qual ele vem ficando especialista.

Faixas:

1. Maleficent Suite (06:39)
2. Welcome to the Moors (01:05)
3. Maleficent Flies (04:40)
4. Battle of the Moors (04:59)
5. Three Peasant Women (01:05)
6. Go Away (02:26)
7. Aurora and the Fawn (02:29)
8. The Christening (05:31)
9. Prince Phillip (02:29)
10. The Spindle’s Power (04:36)
11. You Could Live Here Now (02:27)
12. Path of Destruction (01:48)
13. Aurora in Faerieland (04:41)
14. The Wall Defends Itself (01:06)
15. The Curse Won’t Reverse (01:21)
16. Are You Maleficent? (02:11)
17. The Army Dances (01:28)
18. Phillip’s Kiss (02:21)
19. The Iron Gauntlet (01:35)
20. True Love’s Kiss (02:33)
21. Maleficent is Captured (07:42)
22. The Queen of Faerieland (03:25)
23. Once Upon A Dream (03:20) Performed by Lana Del Rey

Duração: 71:57

Tiago Rangel

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9 opiniões sobre “Resenha: MALEFICENT – James Newton Howard (Trilha Sonora)”

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