Resenha: X-MEN: DAYS OF FUTURE PAST – John Ottman (Trilha Sonora)


X_men_Days_Future_CDMúsica composta por John Ottman
Selo: Sony Classical
Catálogo: 88843055832
Lançamento: 10/06/2014
Cotação: **½

De volta à franquia X-Men após onze anos, o diretor Bryan Singer e o compositor John Ottman tinham um trabalho desafiador pela frente. O novo filme, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, junta os mutantes vistos na antiga trilogia (exibida nos cinemas entre 2000 e 2006) e suas versões mais jovens, apresentadas em X-Men: Primeira Classe, para uma batalha épica através do tempo que pode definir o futuro do planeta. Em sua colaboração anterior em um filme da franquia, X-Men 2, John Ottman contou com uma abordagem basicamente orquestral que, ainda que tivesse seus problemas, era interessante o suficiente para sobressair-se perante o trabalho anterior de Michael Kamen.

Para o novo filme, entretanto, Ottman e Singer decidiram que, num esforço para revitalizar a franquia, a melhor abordagem seria compor um score parecido com as atuais trilhas de super-heróis: muita instrumentação eletrônica e dissonâncias, juntamente com metais graves que lembram os Batmans de Hans Zimmer. Ou talvez, o lado sci-fi do filme tenha falado mais alto do que o super-heróico (o que é compreensível, visto que os X-Men são um grupo com mais do que um pé na ficção científica). Seja como for, o fato é que Ottman, numa tentativa de soar como suas prováveis influências, que eu aposto serem Prometheus, de Marc Streitenfeld e, claro, A Origem, de Zimmer, acabou realizando um score pouco inspirado – o que é uma pena, visto que, no ano passado, ele entregou uma de suas melhores trilhas para aventuras, a ótima Jack – O Caçador de Gigantes.

Dois temas são os principais na trilha do novo X-Men: o primeiro é o da equipe, que Ottman já havia apresentado em X2 e que aqui é reutilizado pelo compositor. Talvez esta não seja a mais original das ideias, muitos poderão criticar Ottman por ter trazido de volta um tema que é apenas mais um entre tantos que os mutantes já ganharam. Por outro lado, o tema de Ottman é um dos melhores da franquia, juntamente com o excelente tema de Henry Jackman para X-Men: Primeira Classe, e, ao trazê-lo de volta, o músico cria um bom senso de continuidade musical, algo em falta na saga cinematográfica dos heróis. Enfim, o tema de Ottman para os X-Men é executado por toda a orquestra, com destaque para os metais, que interpretam as seis notas que servem de base. Ao invés de destacar o heroísmo do grupo, ele casa perfeitamente com a ideia de que os mutantes “defendem um mundo que os teme e odeia”. Nesse novo álbum, ele é apresentado inicialmente em The Future – Main Titles e recebe uma interpretação mais completa em Welcome Back – End Titles.

O outro tema de destaque no score é o de Charles Xavier, o Professor X, que no longa é interpretado por James McAvoy (em sua versão jovem) e Patrick Stewart (que interpreta o mentor dos X-Men mais velho). O personagem foi solenemente ignorado em todos os scores dos filmes nos quais apareceu, e finalmente ganha de Ottman sua própria identidade musical. Infelizmente, é um tema fraco e mal desenvolvido, que deixa mais do que claro sua inspiração na famosa Time, da trilha de A Origem (parece até piada o número de versões “inspiradas” nesta cue). Voltando ao tema de Xavier, ele aparece na faixa Hope – Xavier’s Theme, e inicia-se com cordas e sintetizador, num crescendo melodramático que incorpora toda a orquestra, até voltar à calmaria do início no final. Demonstrando ser um bom aluno da escola de Hans Zimmer, Ottman toma como base para seu tema duas notas, que serão desenvolvidas ao longo da faixa. É uma pena, porém, que seja um tema tão insosso e, pior, clichê.

O restante da trilha é composto por basicamente, texturas e climas sombrios, o que ajuda a ambientar os personagens num mundo triste e preconceituoso (diferentemente de, por exemplo, Os Vingadores, que apostavam no bom humor). Poderia ser uma boa ideia, entretanto o que temos são faixas repetitivas de drama e ação, cuja orquestração, que mistura efeitos eletrônicos e guitarras distorcidas à orquestra, logo acaba cansando e alienando o ouvinte. Tudo bem, nem todo álbum de trilhas sonoras precisa ser easy listening, desde que suas melodias sejam bem compostas e bem estruturadas, de forma a manter o interesse de quem as ouve – o que não é o caso aqui.

Todos esses problemas são exacerbados na faixa Paris Pandemonium, que contando com distorções, sintetizadores e dissonâncias a cargo da orquestra, se torna um cue histérico e cansativo. Tudo bem se fosse um caso isolado, porém, boa parte das faixas de ação não difere muito disso (embora não sejam de audição tão torturante quanto a citada). Alguns exemplos são Saigon – Logan Arrives e The Attack Begins. A primeira conta com o típico clichê da orquestra e sintetizador, que se tornou o padrão para filmes de ação nos dias de hoje. Já a segunda é mais interessante, com sua forte percussão e trombones (que eu suponho representarem as Sentinelas, as máquinas caçadoras de mutantes do longa), mas ainda está abaixo do padrão de Ottman para sequências do tipo.

Dito isso, o álbum de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido ainda traz alguns bons momentos. Um deles é a melancolia presente em He Lost Everything, com sua melodia triste a cargo de violoncelos, violinos e sintetizadores. Temos também a boa Springing Erik, que quebra o clima pesado da trilha com baixos, guitarras, percussão e orquestra, numa faixa que lembra os típicos scores dos anos 1970 e espionagem. Outros bons exemplos são o triste e evocativo primeiro terço de All Those Voices, bem como as belas Contacting Raven e Join Me.

Mas o melhor do disco mesmo são as duas versões de Time’s Up, a original (segunda faixa) e a presente no filme (décima quinta faixa). Contando com orquestra e coral, são duas ótimas faixas de ação, que estabelecem um bem vindo senso de urgência e tensão. Apesar disso, a versão original, com seus corais wagnerianos, consegue ser superior à do filme. Esta também conta com coro, mas de forma menos criativa e inventiva que a original.

Esta trilha mostra um John Ottman mais amadurecido e experimental. Sendo assim, é triste constatar que sua música para Dias de um Futuro Esquecido é falha, representando uma experiência auditiva, com algumas exceções, muito ruim. Espero que isso não se torne um padrão e que seu trabalho no vindouro X-Men: Apocalipse, seja uma trilha que faça jus aos mutantes da Marvel.

Faixas:

1. The Future/Main Title (02:45)
2. Time’s Up [Original Version] (04:18)
3. Hope (Xavier’s Theme) (04:48)
4. I Found Them (02:51)
5. Saigon/Logan Arrives (04:36)
6. Pentagon Plan/Sneaky Mystique (03:24)
7. He Lost Everything (01:51)
8. Springing Erik (03:33)
9. How Was She? (01:46)
10. All Those Voices (03:18)
11. Paris Pandemonium (07:44)
12. Contacting Raven (01:48)
13. Rules of Time (03:07)
14. Hat Rescue (01:29)
15. Time’s Up [Film Version] (03:33)
16. The Attack Begins (05:03)
17. Join Me (03:20)
18. Do What You Were Made For (02:56)
19. I Have Faith in You/Goodbyes (02:27)
20. Welcome Back/End Titles (03:57)
21. Time in a Bottle (02:26) Performed by Jim Groce
22. The First Time Ever I Saw Your Face (05:19) Performed by Roberta Flack

Duração: 66:19

Tiago Rangel

Enhanced by Zemanta
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16 opiniões sobre “Resenha: X-MEN: DAYS OF FUTURE PAST – John Ottman (Trilha Sonora)”

  1. Excelente crítica. Realmente esta onda Hans Zimmer está afetando diretores e produtores, pena que eles não lêem seus críticos de trilhas sonoras pra saberem que os fãs de agora não estão nada satisfeitos com esta onda. Sites como http://www.filmtracks.com deixam claro indignação dos americanos ao compositor Zimmer e sua influência.

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  2. “Infelizmente, é um tema fraco e mal desenvolvido, que deixa mais do que claro sua inspiração na famosa Time, da trilha de A Origem (parece até piada o número de versões “inspiradas” nesta cue).”

    Bem, essa musica do Hans Zimmer, fora utilizada em um dos trailers. Mas não esperava que John Ottman fosse se inspirar (como se a falta de estilo de HZ inspirasse, REALMENTE, algum compositor) nisso… Porra, eu já estou cansado de ir ao cinema para ouvir variações de um tema (que nem é isso tudo fora do filme!) composto há mais de quatro anos. Eu adorei Jack – The Giant Slayer, e esperava uma partitura à moda antiga para este X-Men.

    É engraçado. Nos extras de X-Men II, John Ottman diz que ‘gostaria de ser o proximo John Williams, ou Jerry Goldsmith’. Ele e Brian, nessa época, tomaram os scores de Star Trek II e O Imperio Contra-Ataca como referencia… É incrivel notar como este alemão conseguiu destruir todo um conceito musical, estabelecido há tantos anos. Hoje em dia, parece que ‘criatividade’, ‘evolução’ e ‘arte’ viraram palavrões! Quem não seguir o estilo industrial Hans Zimmer de fazer musica, está andando no escuro… Absurdo uma coisa dessas. É de partir o coração…

    Enfim, estou baixando o score para dar meu veredicto.

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    1. Acabei de ouvir e concordo com o Tiago. É uma trilha que tem bons momentos, mas é fraca. É uma pena, pois estava esperando um trabalho melhor…

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    2. Boa noite, eu gosto muito de ler as criticas, mas estou percebendo uma coisa que me espanta muito, nada pode ser feito de diferente que uma orquestra faria para um filme, que já recebe uma critica ruim, eu acredito muito que uma orquestra é fundamental para compor algo com “qualidade de cinema”, mas gente, vamos parar de falar mal do Zimmer, se ele criou algo que todos aparentemente estão seguindo é pq não seja de “todo ruim”, do jeito que vocês falam até parece que o Zimmer é um “Xavier”, que controla a mente das pessoas, e o pior de Hollywood, sou músico também, escrevo e leio partituras, não sou tão burro assim, mas quero fazer uma proposta, que alguém faça uma música melhor que ele fez para os filmes, não a trilha inteira, mas uma música só, pq ser critico aqui no Brasil está fácil, fazer algo melhor é o difícil.
      Boa Noite e espero respostas.

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      1. Véi, se eu tivesse o dom para escrever musicas, com toda a certeza do mundo, eu faria muito melhor que Hans Zimmer. Eu o critico há algum tempo, porque eu não acho certo a maneira que ele trabalha – o uso exagerado de visões adicionais ao filme. Esta visão, a emoção de um filme, é unica e exclusivamente de UM compositor. Ele faz as notas, ele trabalha as ideias que vêm à sua mente, chama os orquestradores (quando o próprio não sabe orquestrar) e os musicos interpretam essas emoções. Zimmer usa muitos compositores adicionais e leva o credito por coisas que não faz. E isso, não é profissional da parte dele.

        Eu não vejo Zimmer com bons olhos, e não o verei mais. Suas composições atuais, não possuem alma. Não possuem emoções genuínas, são feitas de maneira industrial e são, totalmente, desprovidas de criatividade e originalidade. A prova disso é que, QUALQUER COMPOSITOR, é capaz de reproduzir o estilo (ou falta de) dele. Citando os exemplos recentes das resenhas do site: Mychael Danna em Transcendence; Patrick Doyle em Shadow Recruit; Pedro Bromfman em Robocop; Henry Jackman em Capitão America II; John Ottman em X-Men: Days of Future Past. Tirando Henry Jackman, que é pupilo do proprio Hans, todos os demais citados, possuem um estilo de composição próprio e unico. E eles são capazes de fazer coisas melhores dentro dos seus estilos. Mas, por culpa de Hans Zimmer, parece que eles são incapazes de segui-lo.

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  3. Não tenho procuração para defender o Ottman, e de fato este trabalho é inferior a X2 – apesar de resgatar aquele heroico tema. Mas uma trilha sonora deve ser vista / ouvida principalmente em seu contexto fílmico, e nesse caso é bom lembrar que a ação deste X-Men se passa em boa parte no futuro, onde os mutantes estão ameaçados de extinção pela perseguição dos robôs Sentinelas. Nada mais natural, portanto, que boa parte do score soe sombrio, mecânico e por vezes dissonante. Também é bom lembrar que Zimmer (e suas crias) não foi o criador da soundtrack minimalista e eletrônica. Só como alguns exemplos, cito os trabalhos cinematográficos do Tangerine Dream nos anos 1970/1980, e as trilhas de Brad Fiedel para os dois primeiros Exterminador do Futuro (estes com temática muito semelhante ao do novo filme mutante) que precedem a “onda Zimmer”. Na verdade, como o alemão anda muito em evidência, scores que entram nessa linha tendem a ser comparados com seus trabalhos, mas neste caso de Ottman as referências usadas podem estar em outras – e mais antigas – fontes.

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  4. Assisti ao filme hoje, e infelizmente não posso dizer que a trilha sonora seja um fator de destaque. Infelizmente, Ottman, talvez por orientação de Singer, decidiu que a música deveria ser um elemento discreto. O problema nisso é que o score soa simplesmente sem inspiração ao longo do filme, com poucos momentos de destaque. Estes seriam algumas sequências mais dramáticas (já citadas na resenha, e que no filme provam-se eficientes) e de ação (acho um pecado terem decidido que a versão de “Time’s Up” a aparecer no longa não seja a Original Version).

    Quanto às inspirações em Hans Zimmer, acho que elas são mais evidentes apenas no tema de Xavier, que, em estrutura, orquestração e composição, mais do que lembra Time. Porém, admito que o alemão talvez não tenha sido a única influência de Ottman, e o Jorge acertou ao apontar Brad Fiedel, cuja música mais mecânica dos filmes de Terminator deve ter servido de inspiração para a representação musical das Sentinelas. Seja como for, eu teorizo que, mais do que simplesmente imitar Zimmer, Ottman decidiu que era melhor manter-se discreto, com o pé no freio – o que é uma pena, pois é um ótimo filme, que muito poderia beneficiar-se de um score mais inspirado.

    Em tempo: Ottman saiu-se muito melhor como editor do filme do que como compositor.

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