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Resenha: THE AMAZING SPIDER-MAN 2 EXPANDED – Hans Zimmer (Trilha Sonora)


12524Música composta por Hans Zimmer and the Magnificent Six
Selo: Columbia Records/Madison Gate Records
Catálogo: 305987
Lançamento: 22/04/2014
Cotação: ***

Em um featurette divulgado recentemente, o diretor de O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro, Marc Webb, disse que optou por contratar o compositor alemão Hans Zimmer para essa continuação por desejar um som mais “atual” para seu filme. Zimmer certamente entendeu que essa era a oportunidade perfeita de criar algo que ele e seus colegas na Remote Control vem ensaiando há algum tempo: misturar trilhas sonoras e música pop. Para isso, chamou vários músicos em evidência, como o hitmaker Pharrell Williams e seu já antigo colaborador, Johnny Marr, para criar uma super-banda conhecida como “The Magnificent Six” (nome extremamente cafona). Aparentemente, seu objetivo era atrair adolescentes e jovens fãs de pop para o universo das trilhas sonoras e, assim, aumentar sua popularidade, que já é imensa. E, embora ele talvez consiga alguns novos fãs, musicalmente sua tentativa não foi bem sucedida pois a trilha de O Espetacular Homem-Aranha 2 é bastante irregular.

Na realidade, esse é um trabalho pretensioso de Zimmer, cujas ambições de se fazer uma mistura entre clássico e moderno simplesmente não funciona na maior parte do tempo. O que ele nos entrega é uma trilha que tenta desesperadamente soar moderna e inovadora, mas que consegue ser apenas tediosa e musicalmente fraca, como se o alemão achasse que é o bastante incluir dubsteps e remixes, esquecendo-se do principal: simplesmente compor bem. Na certa, esse é um álbum que irá vender bem, mas que logo será esquecido por não possuir a força de um score verdadeiramente marcante.

Ao escutar o disco, veremos que ele é estruturado em torno de quatro conjuntos de temas: para o herói, seus relacionamentos e para seus antagonistas principais nesse filme, Electro e o Duende Verde. Comecemos pelo mais problemático deles, o de Electro. Um de seus motivos é logo introduzido na primeira faixa, convenientemente intitulada I’m Electro, no caso, batidas remixadas de bateria e guitarra. O tema completo, porém, só será ouvido em The Electro Suite, faixa que deixa claro quais foram as intenções de Zimmer e seus colaboradores: fazer uma integração entre o clássico e o moderno, de forma a fundir o orquestral e o pop. Isso fica perfeitamente explícito no início do tema, com a seção das madeiras da orquestra acompanhadas por uma voz digitalizada, que sussurra de forma a ressaltar a loucura do vilão. Conforme a faixa progride, ela se torna mais agressiva, com a entrada de cordas, guitarra e sintetizadores, e com a canção a cargo da voz acompanhando a ferocidade cada vez maior da faixa. Uma variação do tema é ouvida em primeira mão logo ao início do álbum, na faixa My Enemy, quase tão longa quanto a suíte (são oito minutos da primeira contra doze da segunda).

É difícil dizer quais eram as intenções de Zimmer e sua banda com esse tema do vilão. Pois ele não soa ameaçador em nenhum momento. Na realidade, o efeito da voz digitalizada (que eu chuto ser de Pharrell Williams) sobre os clarinetes e oboés é cômico e chega a ser ridículo. Certo, o Electro não é nenhum vilão como o Coringa, mas esse tema, além de ser de péssima audição (My Enemy e The Electro Suite são torturas que, somadas, dão mais de vinte minutos), também deixa o pobre Electro como alguém que, em vez de despertar tensão, só causa risos no ouvinte – o que seria aceitável se este longa fosse uma paródia dos filmes de super-herói, o que não parece ser o caso. É uma pena, pois os temas que Zimmer costuma criar para os antagonistas em suas trilhas para super-heróis são no mínimo bons, como os do Coringa, Bane e Zod.

Em compensação, o tema que Harry Osbourne/Duende Verde recebe para essa trilha ao menos acerta ao sugerir tensão, ameaça e ambiguidade psicológica. Ouvido na íntegra em Harry’s Suite, ele é executado principalmente por cordas e sintetizador e tem algo da trilha de A Origem em sua orquestração e na forma como é construído (na verdade, quase toda trilha recente de Zimmer tem algo de A Origem, mas divago). O compositor acerta ao investir em melodias que sugerem a ameaça do personagem de forma sutil.

Já o Homem-Aranha ganhou de Zimmer um tema que, se não é tão grandioso quanto os de James Horner e Danny Elfman nos filmes anteriores, ao menos é suficientemente heroico para o personagem. Ouvido pela primeira vez em I’m Spider-Man, ele consiste de uma melodia executada com talento e precisão pelo trompete solo de Arturo Sandoval, e acompanhada por sintetizador e guitarra. Esse tema volta a reaparecer seja em meio ao tema dos vilões (como a rápida aparição em My Enemy), seja de forma mais lenta e melancólica, como na faixa Ground Rules, onde recebe uma interpretação mais triste a cargo de piano e acompanhamento de cordas; e também em forma de rock, em You Need Me. Mas a melhor aparição do tema do Homem-Aranha se dá em You’re that Spider Guy, a melhor do disco, onde recebe uma interpretação completa por toda a seção de metais da orquestra.

Aliás, esta faixa também apresenta outro belo tema, que aparece logo ao início. Ele consiste em uma melodia que segue num crescendo grandioso e dramático onde tem destaque as trompas e as cordas. É um ótimo tema, que lembra algo do Hans Zimmer épico de outrora, dos tempos dourados de Além da Linha Vermelha, O Último Samurai e Rei Arthur. Esse tema voltará interpretado de forma mais enérgica na faixa No Place Like Home, onde se mistura a melodias de ação.

Enfim, o quarto conjunto temático deste álbum é ligado aos relacionamentos de Peter Parker. A maioria, infelizmente, é problemática e insípida. Um deles, que aparece ao final de Ground Rules e é interpretado novamente em You’re My Boy, e consiste em duas notas a cargo dos violinos e violoncelos, peca por ser exatamente igual ao tema romântico de Diamante de Sangue, de James Newton Howard (Zimmer parece ter decidido que, para sua nova fase da carreira, ele iria fazer cópias dos temas de seu ex-parceiro nos dois primeiros filmes do Batman, vide seu trabalho em Um Conto do Destino). Falando em temas românticos, o alemão introduz motivos desse tipo em faixas como I Chose You e, principalmente, We’re Best Friends. O da primeira é um agradável tema a cargo de guitarra e sintetizador, mas o segundo, em sua tentativa de soar romântico, acaba se tornando apenas meloso e esquecível.

Felizmente, se Zimmer não estava muito inspirado para a parte dramática da música, ele compensa com faixas de ação enérgicas e divertidas. Como bons exemplos, temos I’m Goblin, em que os violinos e os trombones tem o principal destaque, lembrando o estilo do compositor em O Homem de Aço; bem como Cold War e a já citada No Place Like Home. Nestas duas últimas, podemos citar como destaque positivo a poderosa guitarra de Marr e a bela integração feita com os temas do Aranha.

Avaliando os prós e os contras, vemos que este é um álbum que poderia ser melhor se não fossem as bizarras ambições de Zimmer. Fica claro que suas intenções ao compor esta música foram puramente comerciais, e isso é corroborado pela imensa quantidade de canções (que eu aposto que nem chegarão a aparecer no filme) no segundo disco do álbum. É triste ver que o sucesso subiu a cabeça do alemão e ele deixe que sua busca desenfreada por destaque no cenário pop o faça lançar uma trilha preguiçosa e sem inspiração como essa. Zimmer é de fato um bom compositor, e os bons momentos da trilha de O Espetacular Homem-Aranha 2 comprovam isso, mas talvez ele deva repensar o que significa compor uma trilha sonora. Imaginem se a moda pega entre os apóstolos fiéis do alemão? Teríamos álbuns com os dizeres: “Music Composed by Henry Jackman feat. Lady Gaga, Jay-Z and Kesha”.

Faixas:

Disco 1:

1. I’m Electro 0:46
2. There He Is 2:54
3. I’m Spider-Man 1:04
4. My Enemy 8:17
5. Ground Rules 1:11
6. Look at Me 3:10
7. Special Project 3:14
8. You Need Me 3:17
9. So Much Anger 2:12
10. I’m Moving to England 1:03
11. I’m Goblin 3:42
12. Let Her Go 0:33
13. You’re My 2:57
14. I Need to Know 5:00
15. Sum Total 2:51
16. I Chose You 1:34
17. We’re Best Friends 2:17
18. Still Crazy 2:42
19. The Rest of My Life 2:28
20. You’re That Spider Guy 5:29

Disco 2:

1. The Electro Suite 12:36
2. Harry’s Suite 10:07
3. Cold War 3:28
4. No Place Like Home 1:53
5. It’s On Again (Alicia Keys, feat. Kendrick Lamar) 3:50
6. Song for Zula (Phosphorescent) 6:09
7. That’s My Man (Liz) 3:47
8. Here (Pharrell Williams) 4:38
9. Honest (The Neighbourhood) 3:57
10. Within the Web (First Day Jam) (with Czarina Russell) 4:30
11. Electro Remix (Alvin Risk, Hans Zimmer) 3:27

Duração: 115:03

Tiago Rangel

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25 opiniões sobre “Resenha: THE AMAZING SPIDER-MAN 2 EXPANDED – Hans Zimmer (Trilha Sonora)”

  1. Uma das piores coisas que eu já ouvi recentemente, juntamente com o horrível “Man of Steel” desse picareta chamado Hans Zimmer. O sujeito que acabou com a arte de compor trilhas sonoras em Hollywood, com seu time de clones e que os fãs dele gostam de dizer que é “moderno” e “genial”.
    Ainda por cima esse tema do Homem-Aranha é um plágio descarado do “Fanfare for Common Man” do AAron Copland: https://www.youtube.com/watch?v=ZdqjcMmjeaA
    James Horner havia composto uma ótima trilha para o primeiro filme, e fiquei muito desapontado por ele ser substituído justamente pelo compositor mais abominável do momento. O resultado só poderia ter sido esse, uma trilha composta por uma dúzia de pessoas, orquestra soando como sintetizador, muito ruído eletrônico, enfim, um lixo!

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  2. Eu ouvi este score ontem a noite. Eu não aprecio há muito tempo, os scores que a Hans Zimmer LTDA. têm feito. Entretanto, este trabalho tem algumas (poucas, infelizmente) coisas que se salvam. É um trabalho um pouco mais coeso, e um pouco mais agradavel de se escutar (é bem melhor que as Batucadas de Aço).

    Enfim, coesão por coesão, ainda prefiro o score que Christopher Young fez para Spider-Man III.

    É.. Que venham os scores que, realmente, interessam: Godzilla; Dias de Um Futuro Esquecido e Dawn of the Planet of the Apes :)

    Eu deixo uma sugestão aqui:

    Antigamente, vocês do scoretrack.net, sempre faziam resenhas de CDs mais antigos. O arquivo HTML, foi excluído e vocês andam repostando algumas resenhas. Contudo, se for possivel, gostaria de ler resenhas de scores um pouco mais recentes. Tais como: Mission Impossible – Ghost Protocol, Evil Dead e The Voyage of the Dawn Treader (este ultimo, é uma sugestão direta pra você, Tiago).

    Abraços.

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    1. Obrigado pelas sugestões, Leandro. Eu gosto muito dos dois scores da série As Crônicas de Nárnia do Harry Gregson-Williams, especialmente do segundo, mas ainda não cheguei a ouvir o disco do Dawn Treader, apesar de ter gostado da música no filme. Quanto à sua ideia de textos sobre scores recentes, é algo a se considerar.

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      1. Rapaz…. Tu não sabes o que estás a perder. Este trabalho do David Arnold, foi muito ambicioso. Ele foi perfeito. Depois da fraca trilha de Quantum of Solace, Dawn Treader foi uma especie de redenção para ele… Quando você o escutar, irá se surpreender com a leveza desse score.

        Escute-o. Você não sentirá o tempo passar.

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  3. Poderiam fazer uma resenha do score do Mychael Danna para “Transcendence”. Achei uma merd*, mas gostaria de ler a opinião de profissionais.

    Desde já, agradeço.

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    1. Jack, nos últimos dias eu tenho estado ocupado terminando um trabalho, mas, assim que eu o finalizar, o score de Transcendence será o próximo em que irei trabalhar, bem como o de Divergent.

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  4. Cotado como é para realizar trabalhos em Hollywood somando aos profissionais de sua empresa não vai ser difícil que Hans Zimmer em sua carreira “solo” bata o recorde de trilhas sonoras lançadas em território americano. E como sempre quantidade dificilmente anda lado a lado com qualidade.
    Porém, pra mim, ainda são os produtores e diretores que não se interessam pela partitura instrumental, ou seja, se o chefe não dá importância, qual a vontade em se superar, não vai ganhar nada a mais por isto, ainda mais quando contamos a quantidade de compositores atuais de qualidade na ativa, um trabalho árduo para passar dos 10 e os medíocres tomando conta do mercado, fica cada vez mais claro que partira instrumental nos tempos atuais é somente fundo musical para tirar o silêncio em cena.
    Quanto a Spider-Man, Danny Elfman ainda predomina, melhor e marcante, já para o Amazing Spider-Man continuo esperando um tema marcante, apesar do tema de Zimmer ser mais dinâmico do que o de James Horner (compositor de qualidade indiscutível).

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  5. Como já falei em um outro post, gostei do que ouvi, o que foi uma surpresa para mim mesmo rsrsrs. Minha opinião anda de mãos dadas com a do Leandro Limeira, então não tenho nada a acrescentar.
    Concordo também que nada até agora superou as de Danny Elfman, a não ser a do Young, que utilizou os temas originais melhor que o próprio Elfman (muito legal isso), além de compor interessantes temas pra os vilões.

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  6. I certainly agree with you about the Electro theme being unintentionally comic (just imagine what it will sound like in 20 years, when dubstep will be as old and out-of-style as 1970s disco!). I did not like the Spider-Man theme as much as you did, though–the sound is just too cheesily electronic for me, sounding like something from a pop score in 1982. Be quiet about Jackman and Gaga, though: you never know who might be listening :)

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