Russell Crowe as Noah

Resenha: NOAH – Clint Mansell (Trilha Sonora)


Noah_CDMúsica composta por Clint Mansell
SeloNonesuch Records
Catálogo: 542164
Lançamento: 25/03/2014
Cotação: ***½

Ouvir as trilhas sonoras de Clint Mansell sempre é uma experiência, no mínimo, diferente. Criativo e talentoso, ele sempre procura dar uma sonoridade diferente do que estamos acostumados. Após iniciar sua carreira juntamente com a do diretor Darren Aronofsky, a dupla agora lança seus olhos sobre a história bíblica de Noé. Em geral, filmes baseados na Bíblia possuem fortes melodias orquestrais de modo a ressaltar o caráter épico da história. Um bom exemplo é o score indicado ao Oscar de A Paixão de Cristo, de John Debney. Porém, um compositor tão distinto quanto Mansell certamente daria uma abordagem inesperada a esse gênero cinematográfico. Dessa forma, o que ele preparou para esse filme?

O primeiro aspecto a ressaltar é a orquestração criada por Mansell, e como esta trabalha a serviço do score. Após os seus renomados trabalhos em Réquiem para um Sonho e Fonte da Vida, Mansell volta novamente a colaborar com o Kronos Quartet, um famoso quarteto de cordas que fica com a maior parte da música. Além dele, o compositor utiliza guitarras, percussão e sintetizadores e, com essa mistura, consegue criar um som semelhante a uma verdadeira orquestra. Porém, o mais importante é como essa orquestração ajuda Mansell a criar um clima para a música, que, nesse caso, é um clima pesado e sombrio.

Assim, nesse aspecto, é uma trilha cujo tom opressivo relembra o trabalho de Mansell em Réquiem para um Sonho. Dessa forma, se por um lado falta sutileza ao compositor, por outro a força presente nas melodias é o principal destaque desta trilha sonora. A primeira faixa, “In the Beginning there Was Nothing”, nos dá um resumo do clima dark da trilha, apesar de, em estrutura, lembrar mais uma canção de rock dos anos 1980 (reparem na percussão e no sintetizador utilizados). A sisudez da música também é marcante em faixas como “The End Of All Flesh Is Before Me” e “The Fallen Ones” (esta última contendo certa semelhança com a trilha de O Senhor dos Anéis).

O álbum também conta com faixas que, se não são particularmente momentos de leveza, contam com uma bela construção. Dois bons exemplos são “Make Thee an Ark” (que conta com um excelente crescendo que se estende por cinco minutos) e a grandiosa “Every Creeping Thing That Creeps” (cuja orquestração traz ainda uma ótima participação de violões). O Kronos Quartet tem grandes momentos em “Flesh of My Flesh” e, principalmente, na dramática “In Sorrow Thou Shalt Bring Forth Children”.

Prosseguindo com a audição, a participação de guitarras e percussão deixa o clima do álbum ainda mais sombrio, especialmente em “By Man Shall His Blood Be Shed” e “The Judgement of Man”, que inclusive adiciona metais e coral à sua orquestração, buscando tornar a música mais grandiosa. Porém, ao final, a trilha, ao invés do suspense e da ação, passa a apostar no drama e na melancolia – afinal, o mundo havia sido inundado por Deus em uma enchente divina. Novamente, o Kronos Quartet tem um papel primordial na construção do drama das faixas. Bons exemplos são “Forty Days and Nights” e “The Fear and the Dread of You”. O álbum se encerra de forma mais otimista com “Day and Night Shall not Cease”, que retoma a orquestração mais grandiosa de modo a dar um finale adequadamente épico, além da sombria canção “Mercy Is”, interpretada por Patti Smith.

Ouvintes mais atentos irão perceber que a música traz alguns temas recorrentes. O primeiro, relacionado a Deus, é composto por duas notas interpretadas pelos metais e coral e acompanhadas pela percussão. Esse tema pode ser logo ouvido na primeira faixa. Outro tema, relacionado a Noé e a arca, é um motivo de seis notas a cargo dos violinos, cuja melancolia dá o tom da missão do protagonista. Sua primeira aparição se dá em “Make Thee an Ark”, e reaparece vez ou outra no disco.

Enfim, essa certamente é uma trilha esforçada de Mansell, com grandes ambições, mas sem a sutileza de Fonte da Vida ou Lunar, por exemplo. Vale pela ousadia do compositor, e por sua curiosa forma de se musicar um épico, e tentativas bem sucedidas de novas experiências na música de cinema já merecem aplausos. Felizmente, podemos sempre contar com Mansell para novas e interessantes experiências no gênero.

Faixas:

1. In The Beginning, There Was Nothing (04:12)
2. The World Was Filled With Violence (01:30)
3. The End Of All Flesh Is Before Me (02:15)
4. A Sweet Savour (04:28)
5. The Fallen Ones (03:57)
6. For Seasons, And For Days, And Years (02:27)
7. Make Thee An Ark (05:09)
8. Every Creeping Thing That Creeps (05:46)
9. I Will Destroy Them (02:53)
10. Flesh Of My Flesh (01:42)
11. The Wickedness Of Man (01:39)
12. In Sorrow Thou Shalt Bring Forth Children (03:55)
13. Your Eyes Shall Be Opened, And Ye Shall Be As Gods (02:24)
14. The Flood Waters Were Upon The World (03:01)
15. By Man Shall His Blood Be Shed (03:33)
16. The Judgement Of Man (02:45)
17. The Spirit Of The Creator Moved Upon The Face Of The Waters (03:00)
18. Forty Days And Nights (03:20)
19. What Is This That Thou Hast Done? (02:11)
20. The Fear And The Dread Of You (04:23)
21. And He Remembered Noah (04:18)
22. Day And Night Shall Not Cease (05:49)
23. Mercy Is – Patti Smith* (04:11)
Written by Patti Smith & Lenny Kaye, Performed By Patti Smith & Kronos Quartet

Duração: 78:48

Tiago Rangel

Enhanced by Zemanta

6 opiniões sobre “Resenha: NOAH – Clint Mansell (Trilha Sonora)”

  1. Quando eu ouço uma trilha de Clint Mansell tento me preparar pra esperar qualquer coisa, mas ainda assim ele me surpreende, rsrsrs. No mínimo curiosa, a orquestração utilizada pelo compositor para um filme épico. Só poderemos saber se a inovação é digna de parabéns ou de críticas negativas quando o filme chegar nos cinemas. Porém, já não considero um trabalho tão bonito como os anteriores em sua parceria com o diretor Aronofsky (Requiém para um Sonho e A Fonte da Vida são belíssimos trabalhos e o que falar da obra realizada na adaptação da música de Tchaikovsky para Cisne Negro?). Claro que uma opinião pode ser modificada com o tempo.

    Obs: Fico perplexo como o Tiago Rangel consegue associar os temas aos personagens do filme, antes mesmo de assisti-lo rsrsrs. Até consigo perceber os temas, mas pra mim por enquanto ainda são incógnitas hahaha. Excelente resenha, como sempre!

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  2. Gostaria de fazer um pequeno adendo ao texto. Assistindo ao filme hoje, notei que a trilha possui mais do que dois temas recorrentes, embora eles não apareçam tanto no álbum. De fato, há uma imensa variedade de temas e motivos. Mesmo assim, essa não é uma trilha muito intrincada de Mansell, e ele não é Howard Shore para colar tantos temas num todo coeso. Mas ainda mantenho minha posição quanto a essa ser uma obra ambiciosa do compositor. Só espero que, no futuro, lancem uma edição especial com mais da trilha, afinal, embora seja um álbum de quase oitenta minutos, muita música ficou de fora do disco, afinal, ela é praticamente onipresente em um filme de duas horas e vinte minutos.

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