12239Música composta por Henry Jackman
Selo: Disney / Intrada
Catálogo: D001872392
Lançamento: 04/04/2014
Cotação: **½

Músico de sintetizadores talentoso, que logo recebeu oportunidades para trabalhar compondo para filmes em Hollywood mesmo sem nunca ter tido formação erudita. Apesar disso, ele logo conseguiu o papel de compositor para uma série de blockbusters e suas melodias apareceram em alguns dos principais filmes de super-heróis dos últimos anos. Estamos falando de Hans Zimmer, porém o texto acima também poderia ser aplicado a um de seus pupilos, Henry Jackman, que substituiu Alan Silvestri no novo filme do bandeiroso herói Capitão América. E, ao ouvir esse score de Jackman, é realmente mais apropriado iniciar o texto falando de Zimmer, afinal, eu não duvidaria que essa trilha seja composta apenas de temas descartados pelo alemão em seus trabalhos anteriores.

Nos dias atuais, a trilha sonora para filmes de ação parece amaldiçoada por compositores sem criatividade, que repetem apenas a mesma fórmula popularizada pela empresa de Zimmer, a Remote Control: muitos sintetizadores, arpejos tensos de cordas e frases bombásticas dos metais. Se ouvirmos em sequência o álbum de alguns dos principais lançamentos do gênero em 2014, como Jack Ryan, RocoCop e agora Capitão América 2: O Soldado Invernal, quase dá para dizer que elas foram compostas pelo mesmo sujeito. A mesma falta de imaginação e a preguiça que tanto prejudicaram os trabalhos de Patrick Doyle e Pedro Bromfman assolam esse score de Jackman, com o agravante de que este último se perde em tentativas patéticas de emular seu mestre alemão.

Para o primeiro filme, Alan Silvestri compôs um score orquestral e à moda antiga que, apesar de ser inferior a alguns dos trabalhos mais clássicos do músico, ainda era interessante o suficiente para se destacar no gênero dos super-heróis. Além disso, Silvestri nos entregou um tema marcante para o herói que acabou se tornando um dos hinos da Marvel Studios, sendo, inclusive, executado em concertos ao longo do mundo (em especial o festival Hollywood in Viena, que prestou uma homenagem ao ítalo-americano em 2011), e reutilizado pelo próprio compositor em Os Vingadores e por Brian Tyler numa divertida participação/homenagem em Thor: O Mundo Sombrio. Pois bem, para a continuação, Jackman simplesmente descarta, sem dó nem piedade, o belo tema de Silvestri e, pior, não o substitui por nada marcante – o que é um crime na atual era, onde temas de heróis são cada vez mais uma raridade.

Por outro lado, ao ouvir a música de Jackman, percebe-se que essa continuação é na verdade mais sombria que seu antecessor, e o compositor acerta ao investir em tons sinistros e ameaçadores. Não estamos diante de uma aventura na Segunda Guerra como foi o primeiro Capitão América, mas sim de um thriller conspiratório e político (ou ao menos é assim que a Marvel tenta vender o filme, o resultado só saberemos quando o mesmo estrear no Brasil no mês que vem). O problema é que simplesmente falta inspiração a Jackman para sair da típica música ambiente que, se funciona bem acompanhada das imagens, torna-se simplesmente tediosa ao ser escutada em disco. Mesmo que as fanfarras orquestrais de Silvestri não se encaixassem bem na proposta desse filme, nada justifica a completa falta de desenvolvimento da música desse álbum.

Para piorar, é possível notar o quanto a influência de Hans Zimmer foi nociva no caso dessa trilha de Jackman. Claro, todo compositor tem suas fontes de inspiração, mas não a ponto de simplesmente tentar emular o trabalho do outro. Pior ainda, impede que Jackman crie seu estilo próprio e desenvolva seu talento. No caso do score de O Soldado Invernal, percebe-se que os trabalhos de Zimmer na trilogia Batman e, principalmente, em O Homem de Aço foram mais do que simples influências para o seu aprendiz, que se perdeu em desesperadas tentativas de soar tão “inovador” (muitas aspas aí) como seu mestre. Por exemplo, se escutarmos o “tema” (?!) que Jackman criou para o vilão do filme, na faixa “The Winter Soldier”, dá para perceber semelhanças demais com o tema de Zod para O Homem de Aço. A diferença é que, enquanto Zimmer utilizou basicamente orquestra e percussão, Jackman acrescenta instrumentação eletrônica demais, chegando a parecer um DJ qualquer de festas rave, e tornando a faixa um martírio que se estende por mais de seis minutos. Esse tema será reaproveitado novamente (e, felizmente, de forma mais eficiente) em faixas como “Into the Fray”.

Para o herói, Jackman criou alguns motivos, nada de muito marcante, porém que funcionam relativamente bem dentro da proposta do álbum. Eles aparecem em faixas como “The Smithsonian” (a melhor do álbum, justamente por lembrar o estilo de Silvestri no primeiro filme), “Taking a Stand” e “Countdown”. Apesar disso, Jackman peca ao fazer uma emulação porca das trilhas da trilogia Batman e, novamente, O Homem de Aço.

Para ser justo, porém, é preciso dizer que o álbum tem algumas qualidades, e a forma como a música se apresenta, ficando progressivamente mais dramática, é uma delas. As faixas de ação, se não possuem nada de original, ao menos são relativamente empolgantes e criam tensão o suficiente. Bons exemplos são as já citadas “Taking a Stand”, “Into the Fray” e “Countdown”, bem como “The Causeway”. Esta última, porém, possui uma percussão gritantemente semelhante a que Zimmer usou em… Bem, você já sabe. Para os momentos de drama, entretanto, Jackman não nos entrega novamente nada memorável. Faixas como “An Old Friend” e as tediosas “Frozen in Time” e “Natasha” são alguns bons (péssimos?) exemplos. A exceção é “End of the Line”, com sua interessante e dramática melodia interpretada por cordas e piano.

Ao final do álbum, temos a longa suíte “Captain America”, em que, finalmente, Jackman consegue usar a influência de Zimmer de forma positiva – ou, ao menos, melhor do que antes. Essa faixa emprega a técnica popularizada pelo alemão do adágio progressivo orquestral, ouvida nas famosas “Journey to the Line” (do álbum de Além da Linha Vermelha), “Chevaliers de Sangreal” (presente na trilha de O Código DaVinci) e “Rise” (ouvida em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge). Jackman, por sua vez, inicia a faixa de forma exclusivamente eletrônica e, aos poucos, vai empregando a orquestra, numa melodia progressivamente mais dramática, primeiro com a aparição das cordas e em seguida com a incorporação dos metais e percussão. Apesar disso, ela se encerra de maneira estranha, simplesmente sem final. É como se Jackman não soubesse como sair do próprio ciclo que criara.

Muitos compositores foram inseridos no mercado graças a Hans Zimmer, e apenas alguns poucos conseguiram escapar da sombra do seu mestre, como John Powell e Ramin Djawadi. Já outros como Steve Jablosnky e Henry Jackman, por comodismo ou falta de criatividade, decidiram simplesmente copiar os trabalhos de Zimmer. E o pior é que Jackman é um compositor talentoso quando decide sair de sua zona de conforto. Basta ouvir seus interessantes scores para animações (como Monstros vs. Alienígenas e Gato de Botas), sua experiência anterior com super-heróis (X-Men: Primeira Classe) ou mesmo seu ótimo trabalho para a comédia É o Fim, no qual ele mistura de maneira criativa orquestra e coral – e é uma lástima que nenhuma gravadora tenha se interessado em lançar essa trilha de Jackman em disco, provavelmente, o melhor e mais imaginativo trabalho do compositor. Torço pelo sucesso artístico de Jackman, embora seja mais fácil acreditar que ele irá seguir os padrões ditados por Zimmer como um fiel segue um pregador messiânico.

Faixas:

1. Lemurian Star
2. Project Insight
3. The Smithsonian
4. An Old Friend
5. Fury
6. The Winter Soldier
7. Fallen
8. Alexander Pierce
9. Taking a Stand
10. Frozen in Time
11. Hydra
12. Natasha
13. The Causeway
14. Time to Suit Up
15. Into the Fray
16. Countdown
17. End of the Line
18. Captain America
19. It’s Been a Long, Long Time (Harry James and His Orchestra)
20. Trouble Man (Marvin Gaye)

Duração: 67:12

Tiago Rangel

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