Na Trilha: A L I E N – A Evolução Musical do Monstro


Falar sobre uma saga mitológica da história do cinema norte-americano sempre é difícil, ainda mais quando se trata de um fenômeno que transcendeu fronteiras no mundo todo. A saga Alien segue deleitando-nos com sua originalidade, inclusive de sua música, já que suas soundtracks são o exemplo mais claro da versatilidade, do empenho e da originalidade das partituras modernas para o cinema.

alienCDALIEN (1979) marcou não apenas a consagração do diretor Ridley Scott, mas também um dos picos mais altos na criatividade do compositor Jerry Goldsmith. Scott, que já havia dirigido vários comerciais e programas de TV na Inglaterra, debutara dois anos antes nos EUA com seu filme The Duellists. Nele trabalhara o compositor Howard Blake (Riddle of the Sands, Flash Gordon), também de origem inglesa. Não é de se estranhar, portanto, que graças à sua exitosa colaboração em The Duellists, Scott convidasse Blake para compor a música de Alien – O Oitavo Passageiro. Sabe-se, inclusive, que o compositor visitou o set de filmagem e ficou fascinado. Mas os executivos da 20th Century Fox decidiram que para um projeto de tamanha magnitude era necessário o talento de um compositor mais experimentado. Sai Blake, entra Goldsmith. Para muitos fãs, Alien (junto com Poltergeist, Planet of the Apes, The Omen e Coma) é indiscutivelmente um dos melhores scores de Jerry Goldsmith para este gênero cinematográfico. Desde as primeiras notas da obra nos damos conta de que esta será mais uma história sobre o desconhecido, de mistério e de suspense, do que de horror gráfico. A música de Goldsmith é crucial para que o espectador experimente este tipo de sensação. E aqui está a resposta de porque Alien – que surgiu meramente como um filme de terror no espaço – se converteu em um mito. É uma fita de ficção científica combinada com suspense, e não com cenas nauseantes, onde a criatura extraterrestre é mostrada nas sombras, onde a câmara joga com a luz e a obscuridade, onde os atores têm realmente presença dramática e não são apenas vítimas figurativas.

O “Main Title”, que começa com um acorde politonal e continua imediatamente com um solo de trompete extraordinário, sem dúvida evoca a solidão e o terror do espaço. Trata-se de uma das composições para o cinema mais famosas de todos os tempos, que aparece interpretada e reinterpretada em qualquer compilação de música de filmes. Os mais observadores notarão que o tema é também utilizado no início de Alien Resurrection (o quarto título da saga), na cena onde vemos Ripley como se fosse um bebê de proveta. Uma bela variação deste tema pode ser ouvida em “The Landing”, primeiro interpretada pelas cordas, em seguida por um solo de flauta e finalmente retomada pelo conjunto de cordas, chegando a uma grandiosa intervenção de toda a orquestra. Única em sua espécie também é a faixa “Breakaway”, que apresenta um feroz motivo de percussão acompanhado por fenomenais interpretações dos metais. Esta composição ressurgiu em Aliens, quase ao final do filme, quando a Rainha sai do elevador. Na tradição de Béla Bartók e Igor Stravinsky, Jerry Goldsmith consegue extrair da orquestra um som distinto e experimental, como o faz maravilhosamente em “The Droid”. Combinando sua característica forma rítmica de composição com um desenvolvimento misterioso para cordas, Goldsmith evoca nos espectadores uma mescla de sensações: um medo implacável e uma curiosidade devastadora. Em “The Alien Planet”, por sua vez, busca criar uma atmosfera de suspense, que se caracteriza pelo emprego percussivo dos instrumentos de corda e a utilização do delay para gerar um efeito de eco. A faixa “The Egg Chamber”, que podemos desfrutar na versão estendida do CD em edição limitada para colecionadores, apresenta uma notável utilização de ostinatos contínuos, tanto das cordas como dos sopros (tal como faz em “Waiting”), que joga muito com a dinâmica do som. Finalmente, “Burial in Space” nos brinda com trombones tocando em uníssono com as cordas em seu registro grave, recurso que Goldsmith empregaria posteriormente para o urso assassino de The Edge (1997).

Em geral, Alien é uma obra sombria e modernista, que bem poderia situar-se entre as melhores composições sinfônicas do século XX. Um tipo de composição bastante atonal às vezes, mas unida a um todo, que são os vários motivos da trama. É importante destacar que a maior parte dos efeitos sonoros são acústicos, feitos a partir de instrumentos da orquestra e não de sintetizadores, mais uma razão que torna Alien uma obra realmente genial, inconfundível e muito efetiva para o filme. Devido a cláusulas do contrato com o estúdio, a orquestra foi regida por Lionel Newman, como em The Omen. O final dos anos 1970 foi um dos períodos mais criativos do maestro Jerry Goldsmith, onde o falecido compositor experimentava muito mais em suas obras do que posteriormente em sua carreira, quando se voltou para o romantismo. E se pensarmos um pouco, veremos que até hoje não se fez mais nada parecido com a música composta para Alien. É realmente uma lástima que Ridley Scott haja recortado tantas passagens da partitura original substituindo-as por obras clássicas, como a Sinfonia Nº 2 de Howard Hanson, ou por fragmentos de outro score de Goldsmith, Freud. Felizmente dispomos da versão remasterizada em Blu-ray do filme, que traz o score completo, tal como composto por Jerry Goldsmith. Clássico.

aliensdeluxeALIENS (1986) marca a consagração de outro grande compositor do cinema, James Horner, e junto à nova visão do diretor James Cameron (muito mais voltada à ação), a música igualmente tomou um outro rumo. Para Aliens, Horner criou uma partitura marcial, cheia de trompetes e tambores que destacam precisamente esse aspecto heroico dos protagonistas. Inclusive, em certo momento a música tornou-se tão predominante que foi cortada. O exemplo concreto é a faixa “Preparing for the Drop”, que somente pode ser escutada na versão promocional do score, ou na edição de luxo lançada em 2001 pela Varèse Sarabande (“Combat Drop”). Esta composição foi descartada porque dava um tom demasiadamente heroico à cena em que os comandos vão à luta. Sem música, a cena cria na platéia a sensação de não saber o que irá ocorrer, que era precisamente o efeito buscado. Uma das peças favoritas deste score é “Futile Escape”, faixa típica de seu compositor, que começa com um ritmo de piano e percussão genial, e logo se transforma em um motivo de ação feroz, muito percussivo e dramático, que representa o choque entre os dois exércitos, humanos e aliens.

Poderíamos dizer que a trilha sonora de Aliens – O Resgate se divide em dois grupos de temas: os que seguem a ação quase bárbara e os que evocam o suspense mais dramático. “Bad Dreams” faz parte do segundo grupo, onde os trombones, tocando notas contínuas sobrepostas, e a percussão resultam em um som extraordinário, parecido ao da composição de Goldsmith. O outro grupo de temas, os de ação pura, sempre provocaram uma grande admiração de minha parte e, como sabemos, por muito tempo foram temp tracks favoritas em Hollywood para qualquer tipo de filmes. Suas inumeráveis imitações são impossíveis de listar. “Going after Newt” e “Ripley’s Rescue” são as de maior destaque na música de Horner, com grande presença sonora, repletas de tambores e ritmo de piano, onde toda a orquestra toca em um colossal motivo de ação. Talvez o tema mais heroico de todos seja “Bishop’s Countdown”, onde Horner emprega basicamente o mesmo motivo musical que John Williams em Star Wars, para a fuga da nave ao espaço. A faixa termina de uma forma maravilhosa com o tema principal de Aliens.

Apesar de ser uma obra estupenda, a música de James Horner é muito mais tradicional que a composta por Jerry Goldsmith. E se prestarmos atenção, veremos que na realidade Horner repete uma fórmula musical que descobriu anos antes em Wolfen e Humanoids From the Deep. O que faz Aliens soar diferente é a fabulosa interpretação da The London Symphony Orchestra e uma orquestração muito boa por parte do reconhecido Greig McRitchie. Adrenalina.

alien3CDALIEN 3 (1992), de Elliot Goldenthal, é uma dessas trilhas sonoras que em alguns fãs provoca elogios e em outros pavor. Aqui, Goldenthal redescobre Alien mediante sua música, de uma forma muito pessoal e sem copiar nenhuma das composições anteriores. De fato, Elliot Goldenthal possui um estilo tão próprio que indubitavelmente é um dos compositores modernos mais originais e reconhecíveis da música para o cinema. “Agnus Dei”, que é o tema principal do filme, recaptura a essência da saga, apresentando notas largas nas cordas e sopros, combinadas com o solo de voz de um menino soprano (uma técnica pessoal muito usada por Goldenthal). Reparamos que os três filmes de Alien começam com a mesma cena, a nave solitária que desliza lentamente pelo espaço, e cada compositor teve que enfrentar a tarefa de musicar um mesmo começo. Elliot Goldenthal o faz de uma forma bela e misteriosa.

Tanto “Lento” como “Adagio” também se adequam a essa qualificação, onde podemos escutar os violinos, os metais e a voz do solista em um verdadeiro Requiem para a moribunda tenente Ripley. “Adagio” é uma das melodias mais belas, melancólicas e efetivas que já foi ouvida em um filme. “Wreckage and Rape” e sobretudo “Death Dance” são típicas da forma de expressão de Goldenthal, com os metais que praticamente gritam acompanhados de muita percussão. Uma famosa combinação que o compositor utilizou frequente em suas obras, como Batman Forever, Interview With the Vampire ou Final Fantasy. Com secos pizzicattos, cordas e percussão da mais fantástica criatividade, “Bait and Chase” é uma das composições de musique concréte mais espetaculares de nossos dias. Esta é a composição de Alien 3 que consagrou Elliot Goldenthal perante a crítica como um prodigioso compositor e orquestrador. É recomendável que escutem esta faixa no escuro, com um bom par de fones de ouvido ou caixas acústicas, para melhor desfrutar a sensação de que realmente há um alien em sua casa, que corre pelas paredes de um lado para o outro. Genial.

alien4CDALIEN RESURRECTION (1997), lamentavelmente, é o ponto baixo musical (e para muitos também fílmico) da franquia. O score de John Frizzell é tão derivativo e imitador que torna-se praticamente impossível destacar algum aspecto do mesmo, ouvi-lo é como escutar pouco mais que puro ruído. O “Main Title”, com seu coro feminino, é um esforço inútil de remeter ao mistério do filme, mas fracassa por seus efeitos eletrônicos que (tal como em todo o álbum) são demasiados e ruidosos. “The Aliens Escape” é quase puramente eletrônico, com ataques de volume ao máximo e que, segundo uma declaração do compositor, atende às exigências do diretor Jean-Pierre Jeunet. Aliás, a visão vanguardista européia de Jeunet parece pouco adequada à imagem que vínhamos aceitando para a saga Alien, e o mesmo vale para a música de John Frizzell. “They Swim” é um verdadeiro mutante dos metais gritantes do score de Goldenthal, que seguramente é a partitura mais copiada aqui. Sem dúvida, uma boa orquestração caracterizada pelo potente som dos metais salva a situação em “Docking the Betty”, o tema mais apreciável da trilha. Por desgraça, o tema sinfônico-coral que aparece ao final do filme está ausente do CD. Em entrevista para a revista norte-americana Film Score Monthly, John Frizzell mencionou que gostaria de ser lembrado pelos fãs como o compositor de Alien – A Ressurreição. Infelizmente para ele, assim foi. Medíocre.

prometheusCDPROMETHEUS (2012) marcou o retorno do diretor Ridley Scott ao universo por ele introduzido no antológico Alien, após muitos anos de especulação sobre a realização de um quinto filme da série. Aliás, muitos prefeririam que este filme não fosse incluído nesse artigo, por ter ficado abaixo das expectativas geradas antes de sua estreia. Contudo, hoje não há como simplesmente esquecer de Prometheus, já que além de ele ser um prelúdio que se passa no mesmo universo dos demais filmes, revela, de uma forma nada modesta, a origem do monstro (e de quebra da própria raça humana). Para a música, Scott convocou o mesmo compositor que vinha utilizando até então, Marc Streitenfeld, que se não conseguiu igualar o trabalho de Goldsmith, Horner e Goldenthal, indiscutivelmente revelou-se bem mais inspirado que Frizzell. A trilha de Streitenfeld nos passa a sensação de que estamos diante de um filme de escala épica, grandiosa e certamente assustador, como constatamos em determinados segmentos.

Por exemplo, o medo e o deslumbramento podem ser “ouvidos” em “Space Jockey”, faixa cujo título remete ao retorno de um icônico elemento do filme de 1979. O score faz referências a Alien, muitas vezes sutis, mas na faixa “Friend From The Past” a sutileza é completamente deixada de lado quando ouvimos o tema original de Goldsmith em uma interpretação, digamos, mais “etérea”. Contudo, referências à parte, Streitenfeld soube dar identidade própria a este trabalho, ainda que o material temático seja esparso e o maior esforço concentre-se em transmitir sensações de deslumbre e ameaça. Entre os poucos letmotivs, os que mais chamam a atenção é o introduzido em “Life” (o mais assemelhado a um tema principal) e “David”, dedicado ao androide que faz parte da tripulação. A música parece refletir a curiosidade quase infantil da forma de vida artificial diante das descobertas que faz, mas em sua essência também traz perigo – o que certamente se coaduna com o papel ambíguo que os androides sempre tiveram nos filmes da franquia.

O compositor também se mostrou competente em faixas como “Hammerpede” (dissonante e intensa), “A Planet” (épica e lírica) ”Infected” (sinistra), e “Planting The Seed”, que com esse título soa como algo que qualquer um poderia esperar ouvir em um filme de Alien. Por fim o álbum se encerra com a sinistramente evocativa ”Birth”, que como o título indica,  acompanha o nascimento do que poderíamos chamar de “Proto-Alien”. Quando do seu lançamento, Ridley Scott afirmou que o projeto de Prometheus foi iniciado como um prelúdio de Alien e posteriormente tornou-se algo maior e mais ambicioso, ainda que nele seja perceptível o “DNA” de seu antigo filme. Afirmação que, no que se refere à trilha sonora de Marc Streitenfeld, está correta. Ambicioso.

Iordan StoitchkovJorge Saldanha

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14 opiniões sobre “Na Trilha: A L I E N – A Evolução Musical do Monstro”

  1. Muito bom o artigo. Em “Aliens – O Resgate”, o Horner comenta que teve um prazo insano para concluir a soundtrack (pouco tempo, briga com os produtores, etc.). E acho que todo esse estresse se refletiu no tom de urgência que a trilha sonora do filme passa.

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