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Resenha: THE HOBBIT – THE DESOLATION OF SMAUG – Howard Shore (Trilha Sonora)


Hobbit_2_CDMúsica composta por Howard Shore
SeloWaterTower Music
Catálogo: WTM 39489
Lançamento: 10/12/2013
Cotação: ****

Em 2012, o mundo retornou à Terra Média através de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada. Dirigida por Peter Jackson, a aventura contou com uma ótima trilha de Howard Shore, cuja colaboração com o diretor rendeu magníficos scores para a trilogia O Senhor dos Anéis. A nova parte na saga de O Hobbit, intitulada A Desolação de Smaug, também contará com música do compositor, porém com algumas diferenças na sonoridade em relação aos trabalhos anteriores.

Explicando melhor, as trilhas de O Senhor dos Anéis e de Uma Jornada Inesperada não foram apenas compostas, como também orquestradas e regidas por Shore. Porém, para A Desolação de Smaug, a música foi orquestrada e regida por Conrad Pope, pois o compositor tinha outros compromissos na agenda. Além disso, desta vez a música foi interpretada pela New Zealand Symphony Orchestra, que já havia ficado responsável pela sequência de Moria em A Sociedade do Anel, enquanto os quatro longas anteriores contaram primariamente com a London Philharmonic Orchestra. Felizmente, o currículo de Pope é excelente, e ele já trabalhou com nomes como John Williams, James Horner, Alexandre Desplat e James Newton Howard, enquanto a orquestra neozelandesa se mostra à altura do desafio.

Apesar disso, é notável a diferença na sonoridade entre os quatro scores anteriores e o de Desolação. Obviamente, a interpretação que Pope deu para a música de Shore é diferente da que o próprio compositor daria. Podemos verificar essa diferença na interpretação das cordas (bem mais presentes nas faixas de ação do que nas trilhas orquestradas por Shore), e na presença do coro, por exemplo, que aqui não participa de mais do que alguns momentos isolados – em comparação, as partituras de O Senhor dos Anéis contavam com uma grande presença do coral.

À parte disto, o que podemos dizer da música que Shore compôs para essa segunda parte da trilogia O Hobbit? Para começar, escutando a trilha da forma como foi apresentada no álbum, é notável que essa partitura é bem menos temática do que a anterior. Muitos dos temas introduzidos em Uma Jornada Inesperada, como os de Bilbo, Gandalf e Radagast simplesmente não aparecem aqui, enquanto o tema da Companhia dos Anões e o de Thorin fazem apenas breves aparições. Talvez isso aconteça porque o álbum (diferentemente das edições especiais da trilha de O Senhor dos Anéis) não traz a música completa, da forma como ouvida no longa. Enquanto o filme tem 160 minutos de duração, a edição simples do álbum e a edição especial trazem, respectivamente, 116 e 129 minutos de música. Ou seja, por enquanto quase trinta minutos de score permanecerão inéditos. A razão disso é que, ao editar o álbum, a gravadora provavelmente preferiu priorizar o material inédito ao invés de trazer de volta temas já conhecidos. Algo parecido já havia acontecido no ano passado, quando o álbum de Uma Jornada Inesperada foi editado de forma estranha, de maneira que muitos cues soaram diferentes no filme e no disco.

Isto esclarecido, podemos passar a falar da partitura em si. Este score pode ser dividido em três partes, cada uma com sua própria introdução e epílogo. A primeira parte começa com faixas repletas de tensão e suspense (para acompanhar o ritmo mais sério deste segundo longa em comparação com o anterior), como “Wilderland” e “The House of Beorn”. Podemos destacar a ótima “Flies and Spiders”, que, em ritmo e orquestração, lembra o estilo empregado por Shore na sequência passada na toca de Laracna em O Retorno do Rei, bem como “The Woodland Realm”, que apresenta um tema, mágico e evocativo, para representar os elfos e seu reino. Na sequência, “Feast of Starlight” apresenta outro tema que virá a se tornar recorrente na partitura, que começa a cargo das madeiras e depois se desenvolve numa bela melodia interpretada pelas cordas e coral. Há também a excelente faixa de ação “The Forest River”, que lembra mais o estilo de Jerry Goldsmith do que suas contrapartes em O Senhor dos Anéis, além de trazer agitadas versões do tema dos anões e dos elfos.

A segunda parte relaciona-se principalmente com os reinos humanos que serão apresentados no filme, como a Cidade do Lago. Novos e interessantes temas são apresentados em “Bard, a Man of Lake Town” e “Thrice Welcome”, mas o melhor deles é introduzido em “Girion, Lord of Dale”. Trata-se de um tema nobre, de tons quase religiosos, a cargo de sopros e coro, e faz uma interessante rima com o tema de Thorin. Esse depois teria marcantes presenças em faixas como “On the Doorstep”. O clima sombrio da música (contrastando com os motivos alegres e divertidos de Uma Jornada Inesperada) continua marcando presença.

A terceira parte é o clímax do álbum. Depois de breve introdução, ela começa em “A Liar and a Thief” e prossegue na ótima “The Hunters”, que traz ação, drama e suspense sem parar ao longo de seus quase dez minutos de duração. Vale mencionar a interpretação das cordas, que aqui tem até maior importância do que os metais e a percussão. Na sequência, temos a tensa “Smaug”, que acrescenta sinos à orquestração do tema do dragão, e “My Armor is Iron”, repleta de adrenalina e ação. Como epílogos do álbum, temos “I See Fire”, bela e intimista canção composta e interpretada pelo compositor Ed Sheeran, bem como a bela “Beyond the Forest”, na qual o tema introduzido em “Feast of Starlight” é plenamente desenvolvido.

Deve-se dizer que, embora a partitura de A Desolação de Smaug não traga de volta muitos dos temas da franquia, ainda é possível ouvir participações especiais do tema do anel (em “Flies e Spiders”) e de Mordor (em “The Nature of Evil” e “A Spell of Concealment”). Isto porque eles terão um papel a desempenhar no longa, que deve mostrar o vilão Sauron, ainda como o Necromante.

Para finalizar, A Desolação de Smaug é o score mais “diferente” da saga cinematográfica da Terra Média até agora. Isso mostra que Shore está disposto a reinventar e renovar seu próprio estilo já estabelecido. Ainda é cedo para dizer se suas partituras para a trilogia O Hobbit terão o mesmo impacto que as de O Senhor dos Anéis, mas pelo menos o compositor demonstra querer mostrar novas sonoridades e texturas aos seus ouvintes, ao invés de simplesmente reutilizar aquilo que já deu certo no passado – o que o diferencia de muitos na ativa na Hollywood atual.

ATUALIZAÇÃO: Após assistir a A Desolação de Smaug, seguem abaixo alguns comentários sobre a utilização da música no longa.

Se, em Uma Jornada Inesperada haviam claras discrepâncias na música ouvida no filme e no álbum, em A Desolação de Smaug é possível dizer que a trilha é basicamente a mesma no longa e no disco (com exceção de alguns poucos cues que ficaram de fora). Porém, o fato é que a música foi um recurso pobremente utilizado por Peter Jackson em seu novo filme. Basicamente, ela começa e para, começa e para, de forma que o que ouvimos não são longas peças musicais, mas sim pequenos cues, que nunca permitem à trilha ter a força necessária. Aparentemente, Howard Shore teve que montar as faixas de seu álbum através dessas pequenas peças, a única solução para se ter um álbum minimamente coerente. Porém, em Desolação, inúmeras sequências sem o acompanhamento musical impedem que esta ganhe a grandeza que tinha na trilogia O Senhor dos Anéis. Pelo visto, o incidente King Kong abalou para sempre a colaboração entre Jackson e Shore. Fica o apelo para que, em Lá e De Volta Outra Vez, a terceira parte da trilogia O Hobbit, o diretor saiba usar melhor a música e o excelente compositor que tem em mãos.

Faixas:

Disco 1

1. The Quest for Erebor
2. Wilderland
3. A Necromancer (Bonus Track)
4. The House of Beorn (Extended Version)
5. Mirkwood (Extended Version)
6. Flies and Spiders (Extended Version)
7. The Woodland Realm (Extended Version)
8. Feast of Starlight
9. Barrels Out of Bond
10. The Forest River (Extended Version)
11. Bard, a Man of Lake-town (Extended Version)
12. The High Fells (Extended Version)
13. The Nature of Evil
14. Protector of the Common Folk

Disco 2

1. Thrice Welcome
2. Girion, Lord of Dale (Extended Version)
3. Durin’s Folk (Extended Version)
4. In the Shadow of the Mountain
5. A Spell of Concealment (Extended Version)
6. On the Doorstep
7. The Courage of Hobbits
8. Inside Information
9. Kingsfoil
10. A Liar and a Thief
11. The Hunters (Extended Version)
12. Smaug (Extended Version)
13. My Armor Is Iron
14. I See Fire (Ed Sheeran)

Duração: 129:24

Tiago Rangel

17 opiniões sobre “Resenha: THE HOBBIT – THE DESOLATION OF SMAUG – Howard Shore (Trilha Sonora)”

  1. Só uma correção: onde deveria ser “há também a excelente faixa de ação Barrels Out of Bond”, na verdade, eu me referi à faixa seguinte, The Forest River.

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  2. É impressão minha ou a relação entre Peter Jackson e Howard Shore parece que não voltou a ser a mesma desde King kong?

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  3. Esperava muito mais dessa trilha sonora.Uma pena que Howard Shora não tenha conseguido entregar um bom trabalho com foi com o filme anterior.

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  4. Isso pra mim ficou claro quando em 9 horas de bonus de Uma jornada inesperada o Howard Shore não citado uma unica vez, nenhum featurete sobre o score dele.
    E falando francamente… o que mais importante o Howard teria para colocar na frente do Hobbit?

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      1. Sim, mas se você reparar o Peter só cita como a orquestra de wellington é fantástica, e não mostra nenhuma interação entre o Peter e o Howard, daí estranhei.
        Fico triste pq amo os Making of que falam sobre as trilhas e na trilogia original vc tinha toneladas de material falando sobre isso.

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  5. “Porém, para A Desolação de Smaug, a música foi orquestrada e regida por Conrad Pope, pois o compositor tinha outros compromissos na agenda.”

    Sabe o que é mais engraçado, na época em que Shore fez a Trilogia do Anel, ele estava com a agenda cheia! Ele fez Spider e O Quarto do Panico, entre A Sociedade e As Duas Torres; e fez Gangues de Nova York e Happy the man, entre As Duas Torres e O Retorno do Rei. Isso não o impediu de orquestrar e conduzir esse trabalho maravilhoso.

    É conhecido que James Horner, teve um atrito com James Cameron na pós-produção de Aliens. Os dois ficaram sem se falar por anos e retomaram a parceria em Titanic, Eu esperava que, com o anuncio da volta de Shore à Terra-Média, esse “incidente King Kong” tinha ficado no passado… Mas, ao que parece, nem todas as aguas passadas movem moinhos. Uma pena que este incidente tenha abalado uma das melhores parcerias já vistas na historia do cinema.

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