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Alan Silvestri

O retorno da música sinfônica ao cinema desenvolveu-se durante os anos 1980 pela mão de novos e jovens compositores, que imprimiram ao gênero seu estilo musical particular. Quando em 1977 a música de John Williams prestou uma espécie de homenagem ao estilo que o lendário Erich Wofgang Korngold criou para os filmes de aventuras, a arte das trilhas sonoras se expandiu ainda mais, para o deleite dos colecionadores deste tipo de música. O resultado foi surpreendente: surgiram filmes cujas trilhas sonoras catapultaram à fama novos talentos, como James Horner, Bruce Broughton, Basil Poledouris, Cliff Eidelman e Danny Elfman, para citar apenas alguns. Desta safra de novos compositores também pertence Alan Silvestri.

Vindo do rock, Silvestri na verdade não pensava em tornar-se um compositor de música para o cinema, mas sim um bom músico de jazz. Porém um dia, quando tinha apenas 21 anos, recebeu a oferta de musicar um filme, A Gang dos Dobermans (1972). Dessa maneira ele iniciou a sua incursão pelo mundo do cinema, até transformar-se em um dos compositores mais admirados e solicitados da atualidade em Hollywood. Do mesmo modo que as importantes colaborações de Steven Spielberg / John Williams, Tim Burton / Danny Elfman ou Franklin Schaffner / Jerry Goldsmith, Alan Silvestri também iniciou uma longa e bem sucedida associação criativa com o diretor Robert Zemeckis, a qual se desenvolve por quase três décadas em títulos como Tudo por uma Esmeralda, Uma Cilada para Roger Rabbit, A Morte lhe Cai Bem, Forrest Gump – o Contador de Histórias, Contato, Náufrago, RevelaçãoPolar Express, A Lenda de Beowulf, Os Fantasmas de Scrooge e O Voo.

Mas nenhum destes filmes possui o enorme significado de que goza a trilogia De Volta Para o Futuro. Poderíamos afirmar que Alan Silvestri está para esta trilogia assim como John Williams está para a saga de Star Wars, ou Jerry Goldsmith para a trilogia Rambo.

BackCD01Com seu estilo pessoal enriquecido pela orquestração de James B. Campbell, a música que Alan Silvestri compôs para o filme De Volta Para o Futuro (1985) constitui uma das trilhas sonoras mais importantes e emocionantes que já recebeu o cinema de aventuras. Basta escutar ao tema principal do filme, para submergimos na fantasia e na ação a bordo do mítico Delorean, o carro no qual Marty McFly (Michael J. Fox) e “Doc” Brown (Christopher Lloyd) fazem suas viagens através do tempo. A “Overture” do CD de De Volta Para o Futuro consiste no tema romântico que se desenvolve ao longo do filme. Um solo de flauta acompanhado por uma suave introdução melódica de metais, violinos e um clarinete solo, ilustra a nostalgia e o amor que Marty sente por sua família e por sua namorada. Logo se sucede a ação cheia de percussão e cordas, para finalizar com sopros, violinos e a flauta solista, que interpretam em conjunto o tema principal do filme. O “Main Theme” (que apenas é ouvido tal qual como está no CD nos créditos finais do filme), é um tema monumental, que inicia com as seções de metais e percussão, às quais logo se somam as cordas que dão à composição o sabor “Silvestriano” tão característico nos trabalhos posteriores do compositor. A faixa “The Clock Tower” é um bom exemplo de como se pode apreciar a dramaticidade que a música de Alan Silvestri agrega ao filme, na cena em que “Doc”, pendurado no relógio da torre da praça principal, tenta fazer com que a energia de um raio seja transmitida ao Delorean, para que Marty retorne ao ano de 1985 e se reencontre com o seu próprio mundo.

BackCD02De Volta Para o Futuro 2 (1989) significou “voltar a Alan Silvestri” e ao tema mais famoso que o músico já escreveu para um filme. Dessa vez a ação transcorre no futuro, onde Marty conhece os seus próprios filhos e deve lidar com uma série de situações complicadas, engendradas pelo brilhante roteiro de Bob Gale. Para este filme, o tema principal abre o CD com a mesma base compositiva, mas com diferente orquestração. A faixa “Hoverboard Chase”, que ouvimos quando Marty é perseguido por três “arruaceiros futuristas” de skate voador, foi composta para sopros com base percussiva e piano em registro grave, a fim de sublinhar a dramaticidade da seqüência. Neste CD do segundo filme, podemos desfrutar mais extensamente do desenvolvimento dos temas principais que Silvestri introduziu na primeira parte da lendária trilogia. Por sua vez, a interpretação da grande orquestra é mais que destacada.

BackCD03De Volta Para o Futuro 3 (1990) chegou logo em seguida, já que praticamente foi rodado ao mesmo tempo que seu antecessor, então um grande prodígio de produção. Desta maneira, a Universal lançou o filme nos cinemas somente poucos meses depois da Parte 2. Agora a trama tinha como cenário principal o Velho Oeste. A orquestra abre a trilha com o tema principal e seu uso da percussão e base de cordas, para voltar à orquestração ouvida na “Overture” do primeiro CD, com toda pompa: percussão, trompas e sopros que dão vida ao tema de Clara (o personagem da professora por quem “Doc” Emmett Brown se apaixona), uma bela e suave melodia interpretada por violinos, violoncelos e harpas, mais uma flauta solista, que descrevem o caráter aprazível e gentil de Clara (Mary Steenburgen). As cenas de ação deste score estão divididas em três partes: “The Train Part 1, Part 2 e Part 3” com o grande aporte orquestral mais uma vez a cargo do orquestrador Campbell, para esta etapa fílmica de Silvestri. O tema final do CD de De Volta Para o Futuro 3 se inicia com fundo percussivo e trompetes solos que se alternam com violinos (ao modo da autêntica música do Oeste norte-americano), para logo voltar ao tema de Clara, e como resolução final, à melodia de De Volta Para o Futuro, mas com tempo agora mais rápido.

Do mesmo modo que nas trilhas sonoras de outras grandes trilogias da história do cinema contemporâneo, cada score da saga de De Volta Para o Futuro tem sua própria identidade e todos, em seu conjunto, possuem uma brilhante unidade temática musical. As partituras de De Volta Para o Futuro Parte 2 e Parte 3 foram respectivamente lançadas em disco, mas no caso do primeiro filme, lamentavelmente e por questões de perversas políticas de mercado, por muitos anos a única versão oficial disponível foi um álbum de canções que continha apenas dois temas de Alan Silvestri. O score integral de Silvestri somente foi lançado em 2009, em um álbum duplo do selo Intrada, deixando-a, ainda que tardiamente, ao alcance de todos os aficionados da música de cinema em geral e de Alan Silvestri em particular.

Porque, definitivamente, a saga de De Volta Para o Futuro não enriquece apenas uma videoteca, mas também uma discoteca.

Daniel Morguenstern

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