SinbadCDMúsica composta e regida por Bernard Herrmann
Selo:  Varese Sarabande
Catálogo: VCD 47256
Lançamento: 1985
Cotaçãostar_5

Falar sobre este score é uma experiência acima de tudo emocional. Se o filme Simbad e a Princesa foi um dos primeiros que me encantaram na infância, tornando-me para sempre um grande apreciador da fantasia no cinema, sua música foi a que despertou minha paixão por trilhas sonoras. E que música, senhores. Bernard Herrmann, seu compositor, é um dos maiores (para mim, o maior) de Hollywood, e além de celebrizar-se por sua inigualável parceria com o diretor Alfred Hitchcock, legou uma das mais significativas obras no gênero fantástico, que somente veio a ser suplantada (pelo menos numericamente) a partir dos anos 1970 por seus colegas John Williams e Jerry Goldsmith.

Um dos mais apreciados filmes de fantasia de sua época, The 7th Voyage of Sinbad (1958) foi a primeira trilha de Bernard Herrmann para as produções de Charles H. Schneer e Ray Harryhausen, o mago dos efeitos stop-motion. Esta parceria se repetiria em The Three Worlds of Gulliver, Misterious Island e Jason and The Argonauts, mas apesar da música de Herrmann continuar excepcional, ela não atingiu o nível desta partitura.

Herrmann era um privilegiado compositor e mestre orquestrador, cujas maiores características eram o uso contínuo de uma série de acordes e a ênfase em categorias específicas de instrumentos. Assim, ao contrário do que a maioria dos compositores fazem hoje, dificilmente em suas composições ouvíamos todas as seções da orquestra simultaneamente; apenas metais aqui, agora somente sopros… Esse conceito atingiu seu ápice em Psycho (1960), score totalmente interpretado pelas cordas. Em Simbad, Herrmann estava no auge de seu gênio orquestral (no mesmo ano compôs Vertigo, e no seguinte North by Northwest, ambos para Hitch) e produziu uma música com momentos de grande lirismo, outros de verdadeira ferocidade.

“Overture/Bagdad” é onde ouvimos mais do conjunto da orquestra completa. A faixa apresenta o tema principal, que nos transmite todo o sentimento das 1.001 Noites com uma pitada de aventura, seguindo para um acompanhamento das atividades nas ruas da grande cidade. A seção intermediária do motivo ouvido em “Overture”, juntamente com aquele dedicado à princesa, é o mais lírico do score, e em ambos predominam os violinos.

“Sultan’s Fest” contém uma versão mais suave de “Overture”, e em “Night Magic/Tiny Princess/Street Music” as cordas nos entregam momentos de etérea melodia. Mas o que eu realmente mais gosto nesta partitura são os temas dedicados ao monstros lendários animados por Harryhausen, onde Herrmann, via de regra, dá provas de sua maestria. A primeira aparição do Cíclope tem seu impacto em muito amplificado graças à musica ameaçadora, onde metais e percussão acompanham os passos do monstro. “The Fight/Battle with The Cyclops” reúne dois momentos distintos do filme: no primeiro, um longo solo de instrumentos de percussão acompanha a luta do capitão Simbad (Kerwin Mathews) contra marujos amotinados; no segundo, durante um confronto do herói com o monstro, ouvimos a mais potente interpretação do tema do Cíclope, e tenho pena dos músicos, que devem ter sofrido muito para atingir a potência sonora que Herrmann exigiu dos metais, sinos e tímpanos…

Para o lendário pássaro gigante Roca Herrmann compôs a dramática “The Roc/The Nest”, e mesmo sem termos assistido ao filme, a música baseada em metais e sopros é particularmente eficaz em nos transmitir a presença de uma grande ameaça alada. Porém, a faixa mais genial talvez seja mesmo “Battle with The Skeleton”, uma dança macabra conduzida por xilofones, castanholas, tuba e trumpetes, feita para o duelo de Simbad contra um sinistro esqueleto espadachim. É impressionante como, ampliando os horizontes abertos por Max Steiner em King Kong, e Miklos Rozsa em seu score para O Ladrão de Bagdá, os temas de Herrmann ajudam a dar vida às criaturas e cenários fantásticos que surgem na tela. Esta edição da Varèse Sarabande, que reproduz o LP com as gravações originais estéreo de Herrmann para o filme, encontra-se há muito fora de catálogo.

Em suas Concert Suites, Herrmann regravou quatro faixas deste inesquecível score, também disponíveis no álbum The Fantasy Film World of Bernard Hermann, da gravadora London, mas que apresentam propositais diferenças de tempo. Em 1998 a própria Varèse lançou uma regravação digital expandida com John Debney regendo a Royal Scotish National Orchestra, que na ausência da edição original é altamente recomendável, tanto pela qualidade superior de áudio como pelas composições até então ouvidas apenas no filme.

No entanto, apesar de Debney ter se utilizado das partituras originais de Herrmann, a nova gravação igualmente apresenta perceptíveis diferenças no tempo e na interpretação. Isso explica-se, já que Herrmann, como todo gênio, reinventava o seu trabalho a todo momento. Ou seja, ele escreveu a música de um modo, e no momento da gravação a interpretou de outro, um pouco diferente. Deste modo, as gravações originais de The 7th Voyage of Sinbad possuem um vigor e força que nem o próprio Herrmann repetiu posteriormente, e que Debney, apesar de seu esforço, não conseguiu reproduzir.

Faixas:

1. Overture/Bagdad
2. Sultan’s Feast/The Vase/Cobra Dance
3. The Cyclops
4. Night Magic/Tiny Princess/Street Music
5. The Flight/Battle with the Cyclops
6. The Roc/The Nest
7. The Dragon
8. Transformation
9. The Skeleton/The Duel with the Skeleton/The Sword
10. The Death Of The Cyclops/The Crossbow/The Death of the Dragon
11. Finale

Duração: 33:46

Jorge Saldanha

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