krullCDMúsica composta por James Horner
Selo:   Super Tracks
Catálogo:  STCE 01/02
Lançamento: 1998
Cotação: *****

O filme Krull, dirigido em 1983 por Peter Yates, pode ser considerado como uma tentativa inglesa de ingresso no rentável filão das fantasias de ficção científica que pulularam nas telas a partir do Star Wars original, de 1977. Porém, algo não deu certo e o longa afundou nas bilheterias. Razões para isso certamente existiram – o enredo, uma espécie de conto de fadas que narra a invasão do planeta Krull (uma réplica da Inglaterra medieval) por alienígenas conhecidos como Assassinos, liderados pela monstruosa Besta, é uma simples mistura de clichês do gênero. Para piorar as coisas os efeitos visuais, em que pesem os esforços do mestre das miniaturas Derek Meddings, são para dizer o mínimo irregulares, mesmo para os padrões da época. Por sorte o filme contou com outros valores de produção que evitaram a tragédia total, como aquele que considero o melhor de todos – a magnífica partitura composta por James Horner.

Para estabelecer o tom que assumirá este comentário, afirmo desde já que Krull é, na minha opinião, uma obra-prima, das melhores – senão, a melhor – coisas que o compositor já fez até hoje. Este é um score composto quando Horner ainda estava no início de sua carreira, e nele podemos ouvir todo o vigor e a audácia de um jovem artista que queria marcar presença não apenas com um estrondo, mas com música arrebatadora e marcante. Para isso certamente ajudaram as ricas orquestrações de Greig McRitchie, que colaborou com o compositor em várias ocasiões.

Por ser uma obra de Horner, obviamente nela encontraremos similaridades com outras de suas trilhas originais, como Star Trek II: The Wrath of Kahn e a posterior Willow, mas o fato é que esta é mais rica, intensa e deliciosamente aventureira que as que lhe seguiram. Em muito ela é um óbvio tributo às melodias criadas por Erich Wolfgang Korngold para os clássicos capa-e-espada de Hollywood, seus 90 minutos de duração são preciosos e ao final ela se consagra como o grande elemento que move o filme. Por certo configura-se aqui um grande contraste com trabalhos posteriores de Horner em disco, já que poucos deles resistiriam a uma versão estendida com essa duração (de fato, muitos deles, ao final de 60 minutos, revelam-se cansativos).

Krull teve, até o momento em que foi escrito este comentário, três edições em CD: a primeira, em 1987, pela gravadora Southern Cross, com 45 minutos de duração; a segunda, em 1993, foi uma edição especial expandida e limitada da Soundtrack Collectors com generosos 78 minutos, produzida pelo próprio Horner e Doug Fake; e finalmente este CD duplo lançado em 1998 pela Super Tracks, contendo todos os mais de 90 minutos da trilha original. Ao iniciarmos sua audição, fica claro que, apesar desta ser uma versão remasterizada a partir das fitas originais, a qualidade do som não é tão melhor que a do CD original da Southern Cross (nunca ouvi a segunda edição para opinar a respeito), mas que de qualquer forma não empalidece a grande performance da melhor orquestra do mundo, a London Symphony Orchestra, com a ressalva de que algumas partes deste score são tão difíceis de interpretar que, por vezes, somos surpreendidos por alguns instrumentos fora de sincronia ou mesmo desafinados (metais em especial).

O “Main Title”, que fora criminosamente omitido do lançamento original, é uma criação magnífica que inicia sutilmente com as vozes infantis do coral Ambrosian Singers, para logo em seguida explodir com uma fanfarra de metais que dura por quase trinta segundos antes de desembocar no arrebatador tema principal, interpretado em força máxima por toda a orquestra e que nos dá uma amostra do que vem pela frente. Se a primeira faixa destaca o tema heróico, que tanto serve ao planeta Krull como para os heroísmos do príncipe Colwyn, a segunda faixa, “Slayer’s Attack”, inicia com o belo tema de amor para cordas que acompanha o prólogo do filme, passado durante o casamento de Colwyn e Lyssa. Quando os Assassinos interrompem a cerimônia para raptar a princesa, o motivo recorrente dos vilões é apresentado com força, interpretado com violinos ásperos e descendentes, em uma óbvia referência à Sinfonia “The Planets”, de Holst. O efeito ameaçador é reforçado por vozes masculinas, antes da faixa transformar-se em uma ruidosa cacofonia.

O tema de amor é plenamente desenvolvido para concerto em “Colwyn and Lyssa”, porém somente depois de ser ouvido em uma versão adaptada durante “Quest For The Glaive”, outra melodia admirável com tons religiosos ao final, que acompanha a cena onde Colwyn encontra a mítica arma de cinco lâminas que utilizará para combater os invasores. Além desses temas principais, há alguns secundários como em “Widow’s Lullaby”, onde o motivo dedicado à Viúva da Teia é interpretado por oboé, harpa e o coral, e o arrebatador motivo para toda a orquestra exaltado em “Riding The Fire Mares”, um dos destaques do álbum e que substituía o “Main Title” na abertura do CD da Southern Cross. O nome desta faixa foi inspirado por Wagner e possui qualidade composicional para se igualar ao seu inspirador: é uma das melhores composições de James Horner. O compositor também criou material de ação estimulante e bem construído para várias sequências de ação, e é interessante neles notar as primeiras versões de construções que seriam desenvolvidas em scores posteriores.

Ao ouvirmos esta partitura ficamos com a nítida impressão que Horner ficou inspirado pelo filme e realmente gostou de compor a música de Krull. Ela tem uma vitalidade, energia e vibração que a percorre de ponta a ponta, fato que dificilmente ocorreria em outros trabalhos seus. Talvez tenha ajudado o fato de que, pela primeira vez, Horner tinha controle completo sobre sua música e pôde experimentar com instrumentos e texturas incomuns (como a grande seção de percussão ouvida ao final de “‘Riding The Fire Mares” e durante “Battle on the Parapets”) e dissonância (como as perturbadoras vozes masculinas em “Quicksand” e “Inside The Black Fortress”, as sonoridades metálicas para a aranha gigante em “‘The Widow’s Lullaby” e os violinos em pizzicato de “The Widow’s Web”).

Horner tinha somente 30 anos quando compôs Krull, portanto era um talento musical ainda sendo lapidado e desenvolvido. Mesmo assim, este score é a prova de que muitas vezes um talento bruto é mais adequado à produção de obras-primas do que a cerebral maturidade dos compositores veteranos. Uma trilha sonora altamente recomendável para qualquer fã da música de cinema.

Faixas:

Disco 1

1. Main Title and Colwyn’s Arrival (07:35)
2. The Slayer’s Attack (09:20)
3. Quest For The Glaive (07:24)
4. Ride To The Waterfall (00:54)
5. Lyssa In The Fortress (01:29)
6. The Walk To The Seer’s Cave (04:11)
7. The Seer’s Vision (02:19)
8. Battle In The Swamp (02:41)
9. Quicksand (03:38)
10. The Changeling (04:05)
11. Colwyn And Lyssa (Love Theme) (02:35)

Disco 2

1. Leaving The Swamp (02:01)
2. The Widow’s Web (06:20)
3. The Widow’s Lullaby (05:03)
4. Vella (03:47)
5. Ynyr’s Death (01:42)
6. Riding The Fire Mares (05:23)
7. Battle On The Parapets (02:53)
8. Inside The Black Fortress (06:16)
9. The Death Of The Beast and The Destruction Of The Black Fortress (08:32)
10. Epilogue and End Title (04:50)

Duração: 92:58

Jorge Saldanha

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