superman-600x600Música composta por Hans Zimmer
SeloWaterTower Music
Catálogo: WTM39424
Lançamento: 11/06/2013
Cotação: ****

Quando o compositor Hans Zimmer finalmente foi anunciado como o escolhido para Homem de Aço, imediatamente o público começou a discutir a decisão. Os mais otimistas e fãs do músico alemão ficaram eufóricos e comemoraram; os mais conservadores começaram a cuspir fogo, ao afirmar que Zimmer não deveria ser o escolhido por ter um estilo radicalmente oposto ao de John Williams, o único e verdadeiro maestro do Superman no cinema. De uma forma ou de outra, todos estavam ansiosos para conferir o score que Zimmer havia composto para esse longa, responsável por re-imaginar o herói para os dias atuais, agora a cargo do diretor Zack Snyder, do roteirista David Goyer e do produtor Christopher Nolan. E qual foi o resultado?

Bem, para começar, não ouvimos o famoso tema composto por Williams em momento algum, para desespero dos conservadores e fanáticos pelo filme de 1978. O que, decididamente, é uma coisa boa. Afinal, o tema de Williams foi composto especificamente para o longa de Richard Donner, e depois reutilizado em suas continuações. O filme de Snyder, por sua vez, é uma nova abordagem do herói, sem ligação nenhuma com seus antecessores. Logo, a música do famoso maestro simplesmente sabotaria a intenção dos produtores do longa. Enfim, ouvir o tema de Williams nesse longa seria tão sem sentido quanto a presença dos temas de Danny Elfman compostos para Batman, de 1989, em Batman Begins e suas continuações.

Pois bem, esclarecida essa questão, podemos passar à análise da música. Afinal, qual foi a abordagem de Hans Zimmer para o Superman? Inicialmente, devemos compreender o momento atual vivido pelo compositor. Na verdade, a fase vivida por Zimmer nos dias de hoje é marcada por um maior experimentalismo com a música – e algumas de suas obras mais emblemáticas desse período comprovam isso, como Batman – O Cavaleiro das Trevas, Sherlock Holmes e A Origem. Assim, Homem de Aço não foge à regra e incorpora muito desse experimentalismo. Mesmo assim, Zimmer também surpreende ao usar nesse score algumas das características de seus trabalhos na década de 1990. Pense numa trilha que seja uma mistura de A Origem, Pearl Harbor, Além da Linha Vermelha, Maré Vermelha e O Rei Leão, e você terá uma ideia da sonoridade dessa nova obra do compositor.

De qualquer forma, uma das marcas registradas da atual fase de Zimmer é a utilização de um motivo de duas notas, em torno das quais a melodia principal se estrutura. Se na trilogia do Cavaleiro das Trevas, por exemplo, tínhamos um motivo executado pelos metais que representava o herói, aqui nós também temos duas notas principais, que aparecem principalmente em guitarras atmosféricas. Assim, o score se estrutura em três temas principais, tendo as duas notas como ponto de partida: um mais melancólico executado no piano e que se desenvolve em outros dois; o primeiro, mais heróico e otimista (este ouvido de forma quase integral nos trailers do longa), e o segundo, mais dramático e elegíaco, executado seja pelos metais, seja pelas cordas, seja pelo próprio piano. O álbum também apresenta motivos ameaçadores ligados ao vilão do filme, o terrível general Zod. Detalharemos mais esses temas logo abaixo.

A primeira faixa, “Look to the Stars”, inicia-se com as já citadas duas notas executadas pela guitarra e acompanhadas por sintetizadores atmosféricos, lembrando um pouco músicas de rock progressivo da década de 1970, no melhor estilo Pink Floyd. Logo, os metais entram, executando uma parte do tema heroico, e são seguidos por uma voz feminina e pelo restante da orquestra, enquanto a melodia entra num crescendo. Então, as cordas passam a interpretar uma melodia de ritmo rápido e intenso, de suspense. Em seguida, “Oil Rig” é uma faixa de ação forte, executado principalmente pela percussão, até a entrada dos metais e da guitarra ao final, conferindo ainda mais energia. Aliás, aqui já temos uma ideia da importância que os instrumentos de percussão terão nessa trilha – Zimmer utilizou 15 percussionistas e bateristas nas sessões de gravação do score.

O tema mais melancólico do filme, executado no piano, faz sua primeira aparição na atmosférica “Sent Here for a Reason”, acompanhado por sintetizadores e as duas notas na guitarra. Ao final, os cellos e baixos interpretam um trecho triste, e são seguidos por uma voz feminina. A faixa seguinte, “DNA”, poderia pertencer ao score de A Origem: inicia com um motivo a cargo de guitarras distorcidas e sintetizadores, até a entrada da orquestra numa melodia de ação, na qual arpejos de cordas e a percussão acompanham os metais, que interpretam notas fortes e longas. A guitarra volta em seguida, com o mesmo motivo de duas notas. Em seguida, temos a bela “Goodbye My Son”, uma das melhores do álbum. Ela se inicia com uma voz feminina suave e melancólica, e é seguida por toda a orquestra e coral, que executam o tema elegíaco do filme de maneira grandiosa.

A sexta faixa, “If you Love These People”, tem toda a orquestra, coral e guitarra interpretando uma melodia de ação poderosa, dramática e enérgica, quase uma versão roqueira e agitada do score de Maré Vermelha. A sétima, “Krypton’s Last”, começa com o tema elegíaco a cargo das cordas, e finaliza com um trecho de ação interpretado por toda a orquestra. Ela é seguida por “Terraforming”, uma longa suíte na qual a orquestra interpreta um motivo de ação progressivamente mais dramático e forte. O coral também participa, de forma a ressaltar a grandiosidade e o dramatismo.

Logo em seguida, “Tornado” é uma faixa de ação e suspense quase elegíaca, na qual as cordas e a percussão se sobressaem. Ela finaliza com pianos e sintetizadores atmosféricos. “You Die Or I Do” inicia de forma sutil e ameaçadora, até que a orquestra surge, numa tensa e forte melodia de ação, que também marca a estréia do motivo de Zod. “Launch”, em seguida, apresenta um motivo de tensão, que traz as cordas em staccato e a percussão. Ao final, o tema elegíaco do Superman aparece, agora a cargo de uma voz feminina e da seção de cordas.

O motivo do General Zod retorna em “Ignition”, na qual novamente a percussão tem destaque, bem como em “I Will Find Him”, que se utiliza da orquestra e do coral para reforçar o caráter épico e grandioso da trilha.  Já em “This is Clark Kent” o tema melancólico retorna e se desenvolve no tema elegíaco, ambos interpretados ao piano e sutilmente acompanhados pelo sintetizador, cordas e percussão. Na décima quinta faixa, o motivo da primeira faixa retorna, e é seguido por uma melodia misteriosa interpretada por violoncelos, baixos e trompas. Após isso, o tema elegíaco aparece, a cargo da seção de cordas e da voz feminina.

O motivo de duas notas retorna, dessa vez de forma progressivamente mais grandiosa, em “Flight”, interpretado pela guitarra e pelos metais. Ouvimos então uma variação do tema heroico, bem como uma melodia triste interpretada pelo piano, até a entrada triunfal do tema elegíaco, a cargo de toda a orquestra, coral, percussão e guitarras. O primeiro disco do álbum então se encerra de forma grandiosa com “What Are You Going to Do When You’re Not Saving the World?”, que, após apresentar o tema melancólico ao piano, traz toda a orquestra, guitarra e coral interpretando o tema heroico do Superman, de maneira épica e gloriosa.

Por fim, temos “Man of Steel (Hans’ Original Sketchbook)”, longuíssima suíte que, em 28 minutos (!) de duração, apresenta e resume os principais temas, da forma como foram concebidos por Zimmer. Como diz o título da faixa, é a partitura original do compositor reproduzida aqui, ou seja, suas ideias para a música antes de serem orquestradas e irem para as sessões de gravação. Funciona como um grande resumo da trilha, mas os ouvintes poderão se cansar.

A edição de luxo do álbum ainda apresenta algumas faixas-bônus, totalizando mais meia hora de música. O segundo disco, então, inicia com Are you Listening, Clark?”, trazendo motivos eletrônicos ameaçadores, até a entrada do tema melancólico ao piano. Ela é seguida por “General Zod”, que, como o título diz, traz os motivos relacionados ao vilão em sua forma mais completa, e interpretados pela orquestra de forma progressivamente mais dramática. Já “You Led Us Here” segue num crescendo, inicialmente com guitarras e sintetizadores, seguidos pelas cordas, piano, percussão e coral num trecho repleto de tensão e suspense.

A força que os instrumentos de percussão tiveram nesse score está representada em “This is Madness!”, faixa onde a melodia é conduzida apenas por essa seção da orquestra. “Earth”, na sequência, possui motivos tristes e atmosféricos, incluindo o tema melancólico, interpretados por sintetizadores, guitarra e piano. O álbum, então, se encerra com “Arcade”, que traz o retorno do motivo de Zod, numa melodia progressivamente mais grandiosa, interpretada por sintetizadores, guitarra e orquestra, até chegar a um final atmosférico.

Ao ouvir o álbum, percebe-se que Hans Zimmer não procurou negar seu estilo ao compor a música, pelo contrário. Várias das marcas registradas do alemão estão presentes no score de Homem de Aço, incluindo o famoso adágio progressivo orquestral, inventado por ele em Além da Linha Vermelha e utilizado em trilhas como O Último Samurai, O Código Da Vinci e Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. No caso dessa nova aventura do Superman, Zimmer utilizou esse recurso tanto nos temas relacionados ao herói quanto naqueles que representam o vilão.

Assim, Homem de Aço representa mais um bom trabalho do compositor. Pode até não se igualar à obra de Williams, mas este nunca foi o objetivo de Zimmer. Enquanto o colaborador de Spielberg procurou representar em sua trilha temas que ressaltassem o heroísmo romântico do Superman, o alemão fez uso de temas dramáticos e elegíacos para representar esse mesmo heroísmo – ou seja, uma abordagem diferente, nem mais certa e nem mais errada. Enfim, enquanto o longa tenta se tornar o marco inicial na construção de um Universo DC nos cinemas, Zimmer apresenta uma nova e inédita sonoridade para o herói. Nas inevitáveis continuações, certamente ele poderá desenvolver melhor os temas aqui presentes e apresentar outros para o nascente e super-heróico universo que os produtores tentam criar. É uma possibilidade empolgante. 

Faixas:

Disco 1

  1. Look To The Stars (02:58)
  2. Oil Rig (01:45)
  3. Sent Here For A Reason (03:46)
  4. DNA (03:34)
  5. Goodbye My Son (02:01)
  6. If You Love These People (03:22)
  7. Krypton’s Last (01:58)
  8. Terraforming (09:49)
  9. Tornado (02:55)
  10. You Die Or I Do (03:13)
  11. Launch (02:36)
  12. Ignition (01:19)
  13. I Will Find Him (02:57)
  14. This Is Clark Kent (03:47)
  15. I Have So Many Questions (03:48)
  16. Flight (04:19)
  17. What Are You Going To Do When You Are Not Saving The World? (05:27)
  18. Man Of Steel (Hans’ Original Sketchbook) (28:16)

Disco 2

  1. Are You Listening, Clark? (02:48)
  2. General Zod (07:21)
  3. You Led Us Here (02:59)
  4. This Is Madness (03:48)
  5. Earth (06:11)
  6. Arcade (07:25)

Duração118:22

Tiago Rangel

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