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A trilha do filme Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, lançada em julho, foi um grande sucesso de vendas. Muito aguardada pelos fãs da trilogia de Christopher Nolan e do compositor Hans Zimmer, o score foi bastante elogiado, tanto pela música em si quanto pela sua utilização no filme. Porém, o álbum também levantou uma polêmica: sua duração. O disco lançado pela WaterTower Music contém pouco mais de cinqüenta minutos, enquanto o longa possui cerca de cento e sessenta e cinco. Considerando que a música no filme é quase incessante, é razoável supor que Zimmer compôs mais de duas horas e meia (sem contar cues que não foram utilizadas) para essa partitura. Ou seja, no álbum temos apenas um terço, mais ou menos, da música do longa.

Não que isso seja algo incomum na carreira de Zimmer. A duração de seus discos varia entre 40 e 70 minutos, mesmo que os filmes que eles representem tenham mais de duas horas de duração. E, no caso desse terceiro Batman, o compositor tentou compensar isso incluindo diversas faixas adicionais, para as várias versões do álbum (física, iTunes, Amazon, etc). Ainda assim, diversas versões de sua partitura, anunciadas como “The Complete Score” (ou “a trilha completa”) surgiram em sites de downloads gratuitos. Esses álbuns são produzidos pelos próprios fãs, que pegam a música diretamente do filme e montam os discos com a trilha da forma como é ouvida na projeção. Mas, para o apreciador de trilhas sonoras, qual o melhor álbum: aquele que inclui toda a música do filme, ou o que possui apenas os temas principais? Vamos detalhar melhor a questão.

Para começar, os álbuns de trilhas sonoras de filmes geralmente procuram valorizar a experiência auditiva. Ou seja, ao montar o disco, a prioridade é apresentar a música composta para o filme, mas sem que a experiência de ouvi-lo fique enfadonha. Assim, um álbum geralmente apresenta os temas principais, algumas de suas variações e as músicas para cenas de destaque. Ainda assim, não é incomum que boa parte das gravações do score fiquem de fora, por não apresentarem grande novidade na experiência auditiva. Mesmo em filmes que possuem trilhas consideradas clássicas, não é difícil achar trechos conduzidos por uma música não muito interessante ou proeminente, ainda mais quando comparada com outros onde ela realmente tem um grande papel. Dessa forma, ao ser lançada em disco, os produtores e o compositor geralmente precisam eliminar essas “barrigas”, para não cansar o ouvinte.

Mas o que acontece quando boa parte da partitura gravada é cortada ou modificada, de modo a servir as versões em disco? Foi, por exemplo, o caso dos scores da trilogia O Senhor dos Anéis, quando aproximadamente um terço da trilha composta por Howard Shore foi apresentada nas versões padrões dos discos de cada filme. Isso fez com que o compositor e a gravadora Reprise Records, lançassem, alguns anos depois, toda a música da trilogia, literalmente, em álbuns gigantescos. Recebidos com entusiasmo pelos fãs, muitos declararam que a melhor forma de se aproveitar a partitura de Shore, com todas as suas nuances, era em sua forma completa.

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Versões padrão e completa da trilha de  O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei

Existem alguns casos nos quais há algumas diferenças na música ouvida no filme e na imaginada pelo compositor. Tomemos como exemplo o caso da trilha do filme Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma, para o qual John Williams compôs mais de duas horas de música. Quando o longa aportou nos cinemas, em 1999, a gravadora Sony Classical lançou um CD, de aproximadamente 75 minutos de duração, e que continha as versões na íntegra dos dois principais temas do filme, “Anakin’s Theme” e o famoso “Duel of the Fates”, no qual vamos focar nossa análise. Essa faixa foi originalmente pensada para a seqüência da luta entre os Jedis Obi-Wan Kenobi e Qui-Gonn Jin e o vilão Darth Maul. Porém, quem já viu o filme sabe que essa cena é entrecortada por outras, que mostram a batalha entre a República Galáctica e a Federação do Comércio. Para essa seqüência, Williams compôs outra música, diferente de “Duel of the Fates”. Dessa forma, podemos imaginar que, enquanto o longa era editado, a composição original de Williams também foi remodelada, de modo a intercalar trechos do tema do duelo e da música para a batalha, da forma que melhor se adequasse ao filme.

Apesar disso, no álbum do filme, optou-se por apresentar uma versão “na íntegra” de “Duel of the Fates”. Ou seja, a faixa nos foi apresentada da forma como Williams a pensou e concebeu. Ainda assim, o disco da Sony limava quase metade da música do filme, em detrimento de versões para concerto dos temas principais e alguns trechos mais relevantes. Então, um ano depois, a gravadora lançou a chamada “Ultimate Edition”, que proclamava conter toda a partitura do filme (há quem diga que isso não é verdade), da forma como ouvida na projeção. Assim, nesse álbum, ouvimos “Duel of the Fates” da mesma maneira que no longa, ou seja, intercalada com a outra música. Uma versão completa desse tema, e mesmo de “Anakin’s Theme”, apenas na faixa dos créditos finais. Embora a “Ultimate Edition” tenha agradado àqueles que preferem ouvir a íntegra da música, outros disseram que a audição do disco não fluía tão bem como a do anterior, devido à presença de faixas de pouco interesse musical (ou, ao menos, de menor força quando ouvidas sem a presença das imagens). Assim, os episódios seguintes da saga espacial, Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith, tiveram suas trilhas lançadas apenas na versão padrão.

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As versões padrão e “Ultimate” da trilha de A Ameaça Fantasma

Vamos voltar ao caso de Zimmer. Seu álbum para O Cavaleiro das Trevas Ressurge apresenta os principais novos temas da franquia (como “Gotham’s Reckoning” e “Mind if I Cut It In” (respectivamente os temas de Bane e de Selina Kyle), alguns motivos de ação (por exemplo, “The Fire Rises” e “Imagine the Fire”) e trechos selecionados da obra, que são ouvidos da mesma forma no filme e no disco (“Why do We Fall” e “Rise” são bons exemplos). Mas, como já foi dito, boa parte da música do longa foi deixada de fora. Ao assistir a produção, é perceptível que, no processo de edição, os temas foram recombinados, reorganizados e até intercalados com outros das trilhas anteriores, de forma a melhor favorecer o filme. Um exemplo pode ser encontrado na seqüência da perseguição por Gotham, onde Bane e seus capangas, após terem atacado a Bolsa de Valores, fogem de moto, sendo caçados por Batman e pela polícia. Na cena, podemos ouvir inicialmente o início de “The Fire Rises”, que é substituído pelo tema do herói (aquele apresentado nos créditos finais de todo filme da franquia), quando o Homem-Morcego aparece. A partir daí, a música intercala entre trechos desse tema, da faixa “Molossus” (do álbum do primeiro filme) e de “Imagine the Fire”.

Ao ouvir o álbum, podemos perceber que a intenção de Zimmer foi priorizar a música inédita para o filme, em especial os novos temas e motivos, apresentados da forma como ele os concebeu. Mesmo assim, esses temas dificilmente foram utilizados em sua forma completa na edição final da produção, sempre sendo combinados e reorganizados da forma que melhor favorecesse as cenas. Assim, concluímos que um compositor, quando trabalha em um filme, precisa estar apto a readequar sua música conforme a conveniência.

Isso não é sempre que acontece. Em muitos casos, ouvimos a música exatamente da mesma forma no álbum e no longa. Mesmo assim, quando há mais de uma versão em disco do score, deve-se procurar aquela que possui a melhor representação da música do filme. Às vezes, um álbum menor, com os temas principais, possui audição melhor do que a versão completa, porém em outros casos apenas as edições “grandonas” dão panorama melhor da partitura (como foi o caso de O Senhor dos Anéis). Cabe aos fãs e apreciadores de trilhas sonoras decidirem qual edição funciona melhor. E você, o que acha? Deixe sua opinião na área de comentários!

Tiago Rangel

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