Resenha: RISE OF THE GUARDIANS – Alexandre Desplat (Trilha Sonora)


Música composta por Alexandre DesplatThe London Symphony Orchestra e London Voices regidas pelo compositor
Selo: Varese Sarabande
Catálogo: 302 067 175 2
Lançamento: 13/11/2012
Cotação: ****

A meteórica carreira do compositor Alexandre Desplat pode ser considerada um dos casos mais surpreendentes, surgidos no mundo das trilhas sonoras, nos últimos anos. O músico, já um veterano no cinema europeu, surgiu para Hollywood como uma espécie de “Thomas Newman da França”, graças à sua abordagem sofisticada em filmes como Moça com o Brinco de Pérola, Reencarnação e O Despertar de Uma Paixão, e o reconhecimento da crítica não demorou a surgir. Porém, ao invés de se estabelecer como um compositor de scores minimalistas para dramas, Desplat procurou se diversificar, tornando-se, assim, um dos compositores mais prolíficos da atualidade. Partituras de qualidade para longas como O Curioso Caso de Benjamin Button, Lua Nova, O Discurso do Rei e as duas partes de Harry Potter e as Relíquias da Morte, trouxeram a ele merecida fama e reconhecimento. 

A animação A Origem dos Guardiões (Rise of The Guardians) é o quinto (!) filme em que Desplat trabalhou em 2012. Ele possui uma história curiosa: a fim de evitar que um vilão lance o mundo nas trevas, um garoto se une a Papai Noel, Coelho da Páscoa, Fada do Dente e Sandman (responsável pelos sonhos), para derrotá-lo e proteger as crianças de todo o mundo. O compositor já pode ser considerado experiente no gênero fantasia, e aqui compõe uma de suas trilhas mais enérgicas até então, alternando entre momentos grandiosos e outros mais sutis. Certamente, é uma das melhores obras do francês nos últimos anos. 

O score se apóia em dois temas principais. O primeiro é ouvido na canção “Still Dreaming”, que abre o disco. Interpretada pela premiada soprano Renée Fleming (que já trabalhou, por exemplo, com Howard Shore em suas partituras para O Senhor dos Anéis), essa não é a típica faixa que esperaríamos ouvir numa animação atual. Com música do próprio Desplat e letra do roteirista do filme, David Lindsay-Abaire, essa canção está mais próxima daquelas ouvidas nos clássicos desenhos musicais da Disney, bem como nos trabalhos do lendário Alan Menken. É uma bonita música, belamente interpretada por Fleming, e não seria surpreendente se ela concorresse ao Oscar no ano que vem. Versões instrumentais da melodia de “Still Dreaming” serão ouvidas ao longo do álbum em faixas como “Easter”, “Jamie Believes” e “Dreamsand Miracles”. 

O outro tema principal da trilha, introduzido logo na faixa “Calling the Guardians”, é um épico motivo heróico representando os Guardiões do título. Interpretado por toda a orquestra, esse tema lembra o trabalho de John Powell em desenhos animados, especialmente em sua obra-prima, Como Treinar Seu Dragão. O discípulo de Hans Zimmer, de certa forma, foi o responsável por estabelecer um padrão musical para animações atuais (ele já trabalhou em dezessete filmes do gênero), e aqui Desplat não deixa de seguir o estilo do colega, porém adicionando seu próprio tempero. O francês, ao invés de simplesmente tentar emular Powell, aqui decide fazer sua própria interpretação do processo de composição do músico por trás dos scores de Rio e Happy Feet: O Pinguim, e nisso reside um dos maiores trunfos da partitura de Desplat. 

Um dos diferenciais dessa trilha é a excelente performance da mítica London Symphony Orchestra, responsável pela execução de obras importantes da música de cinema, como a série Star Wars, Superman e Coração Valente. Conhecida pela sua grande qualidade, a orquestra inglesa já havia colaborado com Desplat diversas vezes antes, e aqui conseguem alternar entre os diversos tons da partitura. Tomemos como exemplo novamente o tema heróico dos Guardiões: após sua bela apresentação em “Calling the Guardians”, ele é retrabalhado pelo compositor, seja de forma mais cômica (na faixa “Sleigh Launch”, onde as cordas executam o motivo com rapidez), seja em tons mais ameaçadores (em “Jack Betrays”, por exemplo) ou novamente de forma triunfal (como visto nas últimas faixas do álbum). Os músicos da LSO demonstram seu talento ao transitar entre todas essas variações com habilidade, sem se perder na intrincada e complexa música do compositor. 

Aliás, A Origem dos Guardiões é a prova de que Alexandre Desplat é um dos compositores mais criativos da atualidade. Nessa partitura, ele utiliza quase todas as combinações possíveis entre as diversas seções da orquestra, de modo que nenhuma delas seja desperdiçada. Dessa forma, o álbum consegue sustentar pouco mais de uma hora de música sem cansar o ouvinte. 

O álbum está dividido em três partes bem distintas. A primeira é certamente a melhor, onde as faixas possuem as doses exatas de grandiosidade e fantasia. Vale citar, especialmente, “Fanfare of the Elves”, onde os metais e a percussão conduzem uma melodia que lembra o trabalho de Patrick Doyle, a empolgante “Wind Take me Home” e as cômicas “Snowballs” e “Busy Workshop”, nas quais o ritmo rápido nos remete aos clássicos dos desenhos animados, como Tom e Jerry. A ótima faixa de ação “Jack And Sandman”, a cargo da orquestra e do coral, também merece destaque, ao variar seu desenvolvimento entre motivos heróicos e de suspense. 

A segunda parte do score é mais densa, embora não chegue a ser tão dramática quanto outras partituras de Desplat. Nesse trecho podemos ressaltar as belas “Memorial”, “Jack’s Memories” e “Jamie Believes”, nas quais as cordas têm papel de destaque ao interpretar motivos melancólicos. O álbum volta a incorporar tons mais empolgantes em seu final, mais especificamente a partir da faixa “Sandman Returns”. Os principais temas do álbum retornam de forma grandiosa e triunfal nesse trecho do disco, encerrando-o com a ótima “Oath of the Guardians”, que alterna entre motivos líricos e épicos, interpretados seja por toda a orquestra e coral, seja por um violino solo. 

Enfim, a trilha de A Origem dos Guardiões só reforça o fato de que Alexandre Desplat é um dos nomes mais interessantes da Hollywood atual. Para todos aqueles que apreciam uma trilha orquestral inteligente e empolgante, esse score é mais do que recomendado.

Faixas:

1. Still Dream (Renee Fleming)
2. Calling The Guardians
3. Alone In The World
4. Fanfare Of The Elves
5. Wind Take Me Home
6. Dreamsand
7. Pitch On The Globe
8. The Moon
9. Snowballs
10. Busy Workshop
11. Sleigh Launch
12. Nightmares Attack
13. Tooth Collection
14. Jamie’s Bedroom
15. Jack And Sandman
16. Memorial
17. Guardians Regroup
18. Easter
19. Jack Betrays
20. Kids Stop Believing
21. Jack’s Memories
22. Pitch At North Pole
23. Jamie Believes
24. Jack’s Center
25. Sandman Returns
26. Dreamsand Miracles
27. Oath Of The Guardians

Duração: 67:47

Tiago Rangel
Anúncios

4 opiniões sobre “Resenha: RISE OF THE GUARDIANS – Alexandre Desplat (Trilha Sonora)”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s