Resenha: JOHN CARTER – Michael Giacchino (Trilha Sonora)


Música composta por Michael Giacchino
Selo: Walt Disney Records
Catálogo: D001405102
Lançamento: 06/03/2012
Cotação: ****½

O livro “A Princesa de Marte”, escrito por Edgar Rice Burroughs (obra que certamente influenciou pessoas como George Lucas e James Cameron) passou décadas transitando por Hollywood. Sua adaptação era um sonho para diversos produtores, e gente como Ray Harryhausen, John McTiernan, Frank Miller e Robert Rodriguez já estiveram envolvidos com o projeto sem, contudo, conseguir com que ele chegasse às telas. Após décadas de tentativas frustradas eis que, finalmente, o longa foi lançado. Comandado por Andrew Stanton, diretor de Procurando Nemo e Wall-E, John Carter – Entre Dois Mundos marca a estreia do diretor em filmes live action. Para compor a trilha sonora, Stanton chamou o talentoso Michael Giacchino, e a escolha revelou-se acertadíssima. Afinal, mesmo que o filme tenha tido uma bilheteria fraca e recepções mistas da crítica, o score de Giacchino permaneceu como um dos melhores (talvez até o melhor) já compostos por ele. E, ainda que em determinados momentos John Carter lembre outras obras do compositor, como Lost, Star Trek e Super 8, felizmente é perceptível a evolução do estilo de Giacchino nesse seu novo score.

Na contramão de boa parte das trilhas atuais, Michael Giacchino compôs uma partitura quase inteiramente orquestral, á moda antiga, influenciada por nomes como Maurice Jarre, Jerry Goldsmith e, principalmente, John Williams. Afinal, assim como nos famosos scores da primeira trilogia de Star Wars ou de Caçadores da Arca Perdida, por exemplo, em John Carter nós temos um tema principal forte, em torno do qual toda a trilha gravita, além de outros temas menores, utilizados por Giacchino para representar o mundo imaginado por Burroughs. Esse tema procura fazer uma representação mais romântica do espaço, como se buscasse a época em que o autor escreveu sua obra, na qual se podia imaginar civilizações avançadas vivendo em Marte, ou Barsoom, na mitologia do filme e do livro.

O tema principal é apresentado logo na primeira faixa, “A Thern for the Worse”, cercado por acordes de suspense e mistério. Após uma agitada passagem de ação, ouvimos outro tema do filme, utilizado para representar os ameaçadores Therns (os vilões do longa), interpretado por um coral feminino acompanhado pela orquestra, numa melodia ameaçadora, que lembra o estilo de Danny Elfman. O tema do filme retorna, inicialmente de maneira mais inquieta e depois de forma mais melancólica, ao final.

“Get Carter”, ouvida em seguida, é uma faixa de ação enérgica, interpretada por toda a orquestra, e que ganha contornos de suspense ao final, com o acréscimo de um coral acompanhando a melodia. Já “Gravity of the Situation” demonstra o talento de Giacchino ao transformar o tema do herói em uma divertida valsa cômica. A trilha volta a ter um clima mais pesado na faixa seguinte, “Thark Side of Barsoom”, que apresenta um novo tema, mais dramático e triste, para representar os traumas no passado do protagonista, antes da faixa retornar aos acordes mais ameaçadores.

A quinta faixa, “Sab Than Pursues the Princess”, apresenta agitados e empolgantes motivos de ação, onde a orquestra dá tudo de si, alternando entre temas mais vilanescos e o do herói, numa demonstração de um duelo entre o bem o mal. Já na sexta, “The Temple of Issus”, a qual instrumentação étnica e o coral (interpretando o tema dos Therns) acompanham as cordas em uma melodia enigmática. “Zodanga Happened”, a faixa seguinte, possui uma sonoridade semelhante à dos scores de Lost, onde ouvimos motivos repletos de suspense e ameaça, antes do retorno do tema mais dramático de Carter.

Logo em seguida, temos “The Blue Light Special”, que alterna entre o tema dos Therns e o do herói, aqui ouvido com uma sonoridade mais lírica. Já a faixa seguinte, “Carter They Come, Carter They Fall”, pode ser considerada um dos destaques do álbum. Ela inicia-se com uma passagem de ação, bem ao estilo do compositor. Porém, em seguida, retorna ao motivo melancólico do protagonista, interpretado de maneira mais trágica, quase elegíaca. A décima faixa, “A Change of Heart”, também é bastante dramática, onde as cordas têm maior destaque, executando uma variação do tema dramático de John Carter.

O tema dos Therns recebe sua interpretação mais completa em “A Thern Warning”, aqui a cargo da orquestra e do coral, numa passagem ameaçadora e misteriosa. Na faixa seguinte, “The Second Biggest Apes I’ve Seen This Month”, os instrumentos de sopro e a percussão têm grande destaque, numa melodia enérgica e movimentada. Trata-se de uma das faixas de ação mais poderosas e fortes do repertório de Giacchino. “The Right of Challenge”, ouvida em seguida, é uma composição onde, novamente, a percussão é bastante utilizada, enquanto a orquestra interpreta o tema do herói, cercado por motivos mais ameaçadores, como uma preparação para o clímax do filme.

“The Prize is Barsoom”, a faixa seguinte, parece ter sido influenciada pelo estilo de Howard Shore em seus scores para a trilogia O Senhor dos Anéis. Aqui, temos um coral acompanhando toda a orquestra, numa melodia agitada e grandiosa, enquanto os violoncelos executam um acompanhamento rápido. Certamente, essa pode ser considerada uma das melhores de todo o álbum, pela sua escala épica crescente. Em seguida, para representar o confronto final do filme, temos “The Fight for Helium”, uma faixa de ação climática e vigorosa, onde a orquestra e o coral são utilizados por completo. Assim como na quinta faixa, os temas associados aos vilões e o tema do herói se alternam, demonstrando a batalha entre mocinhos e bandidos.

A “agitação” diminui em “Not Quite Finished”, uma bela composição, onde as cordas e o coro feminino interpretam os temas associados a Carter de forma mais lírica e melodiosa. Já em “Thernabout” o destaque fica por conta do coral, que executa uma passagem celestial, de tons quase religiosos. Em “Ten Bitter Years”, o tema do filme é reapresentado, de maneira mais inquieta e rápida, representando a busca do protagonista por uma forma de voltar para casa. A faixa cresce e se desenvolve até atingir um clímax, a cargo de toda a orquestra e do coral.

O álbum conclui com “John Carter of Mars”, uma longa suíte que traz de volta todos os temas ouvidos anteriormente, algo típico de Giacchino, e também de John Williams. Terminando de forma grandiosa, a trilha de John Carter é certamente uma das melhores do ano, pelo seu desenvolvimento temático e suas ambições épicas. Além disso, essa é uma das raras partituras que consegue manter o interesse do ouvinte por pouco mais de setenta minutos, sem se tornar cansativa. Torçamos para que a evolução na complexidade das obras do compositor, sinalizada claramente nesse score, continue em seus próximos trabalhos. .

Faixas:

1. A Thern For The Worse
2. Get Carter
3. Gravity Of The Situation
4. Thark Side Of Barsoom
5. Sab Than Pursues The Princess
6. The Temple Of Issus
7. Zodanga Happened
8. The Blue Light Special
9. Carter They Come & Carter They Fall
10. A Change Of Heart
11. A Thern Warning
12. The Second Biggest Apes I’ve Seen This Month
13. The Right Of Challenge
14. The Prize Is Barsoom
15. The Fight For Helium
16. Not Quite Finished
17. Thernabout
18. Ten Bitter Years
19. John Carter Of Mars

Duração: 74:15

Tiago Rangel
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8 comentários sobre “Resenha: JOHN CARTER – Michael Giacchino (Trilha Sonora)

  1. Junto com a de PROMETHEUS — ainda não sei me decidir qual fica melhor junto ao filme (porque separadamente é a de JOHN CARTER) –, essa é minha trilha favorita do ano.

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  2. Sem sombra de duvida, John Carter é o trabalho mais épico que o Giacchino fez. Quando eu soube que ele seria o compositor desse filme, fiquei contente e, ao mesmo tempo, curioso em saber como ele se sairia. E, quando eu fui ao cinema assisti-lo, a musica foi um dos pontos mais fortes de todo o filme. Ela não me desapontou em momento algum.

    Minhas faixas prediletas do score são a primeira, a quinta e, principalmente, a sétima. Em “Zodanga Happened” lá pelos 2:30, é possivel ouvir uma voz entoando de maneira magistral (posso estar exagerando, mas eu me arrepio quando a escuto). E, eu ouvi o score umas tres vezes no youtube, e ainda não comprei o disco…

    Eu queria ver Giacchino compondo para o novo Superman, mas infelizmente vou ter que ouvir os BAUMMMMMMMMMMMMMs do Zimmer…

    Gostei muito de John Carter, e lamento pelo filme ter naufragado nas bilheterias. Sinceramente, não acho justo Percy Jackson ter uma continuação, e John Carter (que foi um filme melhor desenvolvido) não.

    Parabens pela resenha Tiago. Estava esperando lê-la há bastante tempo.
    Só um pequenino detalhe: o livro original se chama UMA Princesa de Marte

    Abraços

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