Na Trilha de Gustavo Santaolalla – Parte 6


Star-crossed lovers — the poster was fashioned...

O Segredo de Brokeback Mountain

O Segredo de Gustavo Santaolalla 

Uma paisagem idílica, um clima de bucolismo e dois cowboys (alegoria da força e da masculinidade norte-americanas) envolvidos em uma relação homoerótica. Estamos nos referindo, em uma visão panorâmica, à película O Segredo de Brokeback Mountain, uma espécie de “quadro neoclássico” pintado pelas mãos do diretor taiwanês Ang Lee.  A obra deu ao músico argentino o seu primeiro “Oscar de Melhor Música”. A película venceu o “Leão de Ouro” no Festival de Veneza, além de outras premiações como o BAFTA, o Globo de Ouro e Independent Spirit Awards.

Buscando se afastar de uma “estética da monumentalidade”[1], que se pauta pela idéia de totalidade (herança da Bildung germânica), pelo excesso e pela gravidade, o diretor elabora um discurso fílmico mais coeso e econômico de recursos estéticos. A fotografia não se utiliza de luz intensa nem de contrastes de cores barroquizantes. Não há excessos psíquicos, tampouco uma teatralidade exagerada por parte dos personagens. Os planos são claros e precisos. Enfim, um mundo que muitos diriam “árcade”, “apolíneo”.

A música de Santaolalla se harmoniza perfeitamente com esse mundo equilibrado de Brokeback Mountain. O cenário não é mais um mundo babélico, portanto a música não quer, a nenhum momento, desintegrar esse mundo equilibrado. Não há contrastes fortes, desse modo. A instrumentação escolhida denota suavidade: violões de aços, steel guitar, cordas friccionadas, gaita e voz. Os temas são curtos e a harmonia musical é de grande simplicidade (cadências perfeitas, acordes consonantes). O compositor se distancia, efetivamente, do espírito da “estética da monumentalidade”. Segundo Santuza Naves[2], essa estética se manifesta na música através das obras sinfônicas, da abundância e variedade de instrumentos de que dispõe a orquestra sinfônica, dos extremos dinâmicos (fortíssimo seguido de pianíssimo), da abundância de temas diferentes e da complexidade do desenvolvimento. Uma “pintura sonora” bem diferente das santaolalinas.

A bela montanha de Brokeback e o amor entre Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger) não seriam os mesmos sem os acordes dulces de Santaolalla, sem a solitária e nostálgica gaita da trilha musical – que nos remete ao clima dos westerns americanos.  O processo de composição do argentino, como se sabe através de suas entrevistas e palestras, foi um tanto quanto diferente do habitual. Ele compôs as faixas antes de ver as imagens do filme. Guiando-se através do roteiro e das conversas com o diretor taiwanês, Gustavo foi construindo, tijolo a tijolo, sua arquitetura musical.

Há algo de “velado” e “contido” na composição de Santaolalla. Esse phatos musical nos diz, de maneira delicada e em poucas tomadas, que entre os dois cowboys que cuidam de ovelhas brotará uma relação homossexual. A música, nesse sentido, passa a desempenhar uma função muito importante: ela revela o que não está contido claramente nas imagens. Não há dúvida de que Ang Lee, consciente do seu ofício, não deseja mostrar de maneira exagerada e sem volteios a homossexualidade dos dois jovens (pelo menos na maioria das tomadas). Não por preconceito, é evidente, mas para não quebrar a capacidade de sugestão de suas imagens nem a serenidade presente no universo conceitual de sua obra. A música de Gustavo, de fato, é quem nos revela os segredos de Brokeback e de seus cowboys apaixonados. Não seria exagero dizermos que ela funciona quase como um terceiro personagem da relação amorosa.

Alfredo Werney
Para Jonas Moraes

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[1] “Estética da monumentalidade” refere-se a um projeto de totalidade, que se caracteriza pelo excesso e pela gravidade. A estética da monumetalidade preza por um espírito de grandiosidade.

[2] In: NAVES, Santuza Cambraia. O violão azul: modernismo e música popular. Rio de Janeiro: FGV, 1998. 

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7 comentários sobre “Na Trilha de Gustavo Santaolalla – Parte 6

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  5. Buscando se afastar de uma “estética da monumentalidade”[1], que se pauta pela idéia de totalidade (herança da Bildung germânica), pelo excesso e pela gravidade… Esse phatos musical nos diz, de maneira delicada e em poucas tomadas, que entre os dois cowboys que cuidam de ovelhas brotará uma relação homossexual.

    Pfffff…. papo furado. O autor do texto é um perfeito enrolador. A verdade é que essa trilha é uma grande porcaria. Nada como os bons e velhos arranjos sinfônicos de Williams, Rozsa e Steiner. Se esse picareta do Santa(uiiiii)olalla queria inovar, deveria ter escutado as trilhas do Goldsmith, que conhecia a arte de misturar instrumentação convencional com eletrônica em suas trilhas. E quanto ao filme… pô, dois cowboys veados é demais… filme para ser exibido na Passeata Gay. Uma grande porcaria que já caiu no esquecimento. Filme de Cowboy é do John Wayne… o resto é figuração.

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  7. Que comentário mais ignorante Emerson. A trilha sonora realmente não e otima, é muito simples para ter sido a melhor de 2005. Principalmente se considerarmos que neste ano, John Williams compôs para ”Memorias de uma Gueisha” uma de suas trilhas sonoras mais inovadoras.
    Só que ao invés de usar argumentos, voce ataca quem escreveu o texto e o pior, julga o filme com seu argumento homofóbico. Duvido que você tenha o assistido ao filme, é apenas mais um ignorante que julga sem saber.

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