O BESOURO VERDE (The Green Hornet, EUA, 2010)
Gênero: Comédia, Aventura
Duração: 119 min.
ElencoSeth RogenCameron Diaz, Christoph Waltz, Jay Chou, Edward Furlong, Tom Wilkinson, Edward James Olmos, Chad Coleman, Joe O’Connor.
Compositor: James Newton Howard
RoteiristasEvan Goldberg, Seth Rogen
DiretorMichel Gondry
Cotação**½

Para ver como são as ironias do destino. Em 1966, para aproveitar o sucesso da irreverente série BATMAN, estrelada por Adam West e Burt Ward, a Fox resolveu lançar outro programa de TV baseado em um personagem mascarado – O BESOURO VERDE (THE GREEN HORNET), que surgira como programa de rádio e já fora levado ao cinema em um seriado dos anos 1940. A diferença é que as aventuras do herói fora da lei Besouro Verde (Van Williams) e seu ajudante Kato (papel que revelou o astro das artes marciais Bruce Lee) eram mais sérias que as do morcego de colant, com a dupla combatendo vilões mais realistas (gângsters, máfia chinesa, etc.). Mesmo assim, em um memorável episódio de BATMAN, houve um crossover das duas séries, o que não impediu que a do Besouro fosse cancelada com apenas uma temporada. O irônico é que, em pleno século 21, Batman está mais sério do que nunca graças aos sombrios filmes de Christopher Nolan, enquanto o Besouro Verde virou uma comédia de ação trazida pelas mãos do seu protagonista, o também co-roteirista e co-produtor Seth Rogen.

Rogen é Britt Reid, o irresponsável filho do magnata da mídia mais importante e respeitado de Los Angeles, que vive na farra até que seu pai (Tom Wilkinson) morre misteriosamente. Forçado a assumir o comando do jornal Sentinela Diário, Britt faz amizade com o chinês Kato (Jay Chou), ex-empregado do seu pai que, além de fazer um excelente café, é um genial designer, engenheiro mecânico e exímio lutador. Com a cidade afundada no crime e na corrupção, Britt resolve fazer algo significativo pela primeira vez em sua vida: combater o crime com a ajuda de Kato e as engenhocas por ele criadas – sendo a principal delas o carro superequipado Beleza Negra. Para melhor penetrar no submundo eles decidem se passar por vilões mascarados, e logo estão em rota de colisão com o principal chefão da cidade, Chudnovsky (o ótimo Christoph Waltz, de BASTARDOS INGLÓRIOS).

Este O BESOURO VERDE (2010) teve uma produção conturbada: Stephen Chow, de KUNG-FUSÃO, estava escalado para dirigir o filme e interpretar Kato, mas aparentemente por diferenças criativas com Rogen, caiu fora em cima da hora. O papel de Kato ficou com o astro asiático Jay Chou, e a direção acabou surpreendentemente parando nas mãos de Michel Gondry, dos criativos BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS e REBOBINE, POR FAVOR. Gondry, pelo jeito, se acertou às mil maravilhas com Rogen, já que nada no filme indica que ele seja uma obra sua: pelo contrário, é um veículo para que o comediante, fazendo o tipo que lhe é característico, explore o tema que mais lhe agrada – a amizade e a camaradagem masculina, ou bromance. De fato, a melhor coisa de O BESOURO VERDE é o desenvolvimento da parceria entre Reid e Kato, que a certo momento entram em conflito e vão às vias de fato (em uma hilária luta) disputando as atenções da decorativa secretária Lenore Case (Cameron Diaz, já sentindo o peso dos anos).

O resto – aí incluídos o caricato vilão de Waltz e o desperdiçado Edward James Olmos – são meros acessórios de um filme que, tirando o visual dos trajes da dupla e do carro Beleza Negra, pouco traz da velha série. Há uma pequena homenagem quando, nos rascunhos de Kato, vemos alguns desenhos de Bruce Lee, e em outro momento, o memorável tema musical é ouvido brevemente. Já um personagem de relevância, que na série era “do Bem”, acaba se revelando como vilão. Pelo menos Rogen assume que sem Kato o Besouro não é de nada, e dá ao seu parceiro a relevância que merece. E Chou, apesar do seu péssimo inglês, se sai bem.

Se há algo que realmente agrada no filme é a utilização do 3D, e isso é surpreendente já que O BESOURO VERDE não foi rodado no sistema, mas apenas convertido na pós-produção. Aliás, isso ocasionou um atraso considerável em sua estreia, já que os produtores queriam garantir que a conversão fosse bem feita. Isso de fato aconteceu, e o recurso acaba ajudando a tornar o esquecível filme uma experiência mais divertida para os fãs de Seth Rogen e os nostálgicos apreciadores da série – ou pelo menos àqueles que não se sentirem ofendidos pelas liberdades tomadas com o material.

Jorge Saldanha

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