TRON: O LEGADO (Tron Legacy, EUA, 2010)
Gênero: Ficção Científica
Duração: 127 min.
Elenco: Jeff Bridges, Olivia WildeGarrett Hedlund, Michael Sheen, Serinda Swan, James Frain, Bruce Boxleitner
Compositores: Daft Punk
Roteiristas: Edward Kitsis, Adam Horowitz
Diretor: Joseph Kosinski
Cotação: ****

Finalmente, aproveitando a calmaria provocada pela ressaca pós-Natal, pude conferir TRON: O LEGADO (TRON: LEGACY, 2010), da maneira como ele foi concebido para ser visto: numa sala 3D, com áudio original em inglês. E considerando alguns “tratados” que estão sendo escritos na internet, com páginas e páginas despejando o quão clássico o filme original de 1982 é, e de como é decepcionante esta tardia continuação, saí do cinema espantado, na verdade positivamente, com esta estreia do diretor Joseph Kosinski. Sim, porque sob qualquer aspecto, TRON: O LEGADO representa uma experiência cinematográfica muito superior à do seu predecessor.

Claro, não posso negar que TRON: UMA ODISSEIA ELETRÔNICA (TRON, 1982), de Steven Lisberger, foi um filme à frente de seu tempo, com o emprego então inédito de computação gráfica e o conceito de um mundo virtual, 17 anos antes de MATRIX (1999). Contudo, como outros filmes da Disney do período, TRON foi o típico caso de um grande potencial desperdiçado, com seu roteiro simplório e personagens unidimensionais, e que mesmo assim, passou a ser cultuado por muitos fãs de ficção científica por seu caráter vanguardista e visionário.

Passaram-se muitos anos até a Disney perceber que possuía nas mãos uma franquia potencialmente rentável que, levada às telas com a tecnologia 3D do século 21, poderia finalmente ir além da proposta original de 1982, aliando o virtuosismo técnico com ideias mais consistentes. Assim, tendo Lisberger como consultor e produtor, Kosinski na direção e parte do elenco do original (Jeff Bridges e Bruce Boxleitner), TRON: O LEGADO foi lançado neste final de 2010 não exatamente como uma continuação, já que se trata praticamente de uma refilmagem ou reboot, sendo desnecessário que o espectador tenha assistido ao filme anterior para situar-se na trama.

Após o misterioso sumiço de Kevin Flynn (Jeff Bridges), fundador de um poderoso império de gamessoftwares, seu filho Sam (Garret Hedlund), que se recusa a assumir a condução da empresa que herdara, a ENCOM, dedica-se a divulgar os códigos de seus caros programas para uso gratuito na internet. Até que certo dia, no escritório do velho fliperama do seu pai, Sam descobre que o videogame Tron é a a entrada secreta para A Grade, um gigantesco mundo cibernético criado por Kevin Flynn. Transportado para lá, Sam deverá confrontar o tirânico Clu (Bridges, rejuvenescido pela computação gráfica), programa criado à imagem do seu pai, em meio a combates de discos e motos de luz. O rapaz somente poderá retornar ao mundo real com a ajuda do seu próprio pai e de Quorra (Olivia Wilde), a primeira forma de vida cibernética da Grade.

Como se vê, é praticamente a mesma trama do filme original, enriquecida pelo tema da busca pela paternidade perdida, que aqui assume duas visões: as dos dois filhos, um bom (Sam) e um mau (Clu), cada um a seu modo sentindo-se rejeitado pelo patriarca Kevin Flynn  – tema que, aliás, também pode ser visto sob a ótica religiosa do Mito da Criação. Os personagens não são excepcionalmente desenvolvidos, mas o são de forma suficiente para que, ao contrário dos do longa de 1982, nos importemos com eles. Outra grande vantagem do novo filme, além do fantástico mundo virtual em CGI, é a sempre luminosa presença de Olivia Wilde – sem dúvida o melhor efeito visual de TRON.

Merece menção honrosa a ótima trilha sonora da dupla francesa Daft Punk, que usa sonoridades eletrônicas dos anos 1980 combinadas a ritmos mais contemporâneos e eficazes elementos orquestrais nos momentos mais pungentes. Com excelente visual e trama consistente, TRON: O LEGADO resplandece no final de um ano em que, de ficção científica, apenas o extraordinário A ORIGEM merecia destaque.

Jorge Saldanha

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