Música composta por James Newton Howard, regida por Pete Anthony
Selo: Lakeshore
Catálogo: LKS34152
Lançamento: 29 de junho 2010
Cotação: star_4_5

O caso do cineasta M. Night Shyamalan é sui generis. Um dos diretores mais autorais surgidos no cinema comercial a partir da década de 1990, após um início de carreira excepcional seus filmes passaram a ser fracassos de público e crítica cada vez maiores. E mesmo assim Shyamalan não abriu mão de fazer os filmes que queria, da forma que queria, com controle absoluto sobre a produção – além de diretor, ele sempre foi o autor das histórias e roteiros, e sempre teve a sorte de os estúdios e produtores lhe permitirem a liberdade criativa que exigia. Mas os sucessivos fracassos parecem ter mudado este cenário, e neste sentido seu novo filme, O Último Mestre do Ar (The Last Airbender), é uma incógnita.

Digo isto porque, apesar de ser escrito e dirigido por Shyamalan, este será seu primeiro filme baseado em material de terceiros – mais especificamente na elogiada série de animação Avatar – The Last Airbender, a qual nunca assisti. Além disso, fugindo do clima de suspense e mistério de suas obras (mas ainda mantendo o cunho de narrativa fantástica), o longa pertence a um gênero atípico para o diretor: trata-se de uma fantasia épica de ação. Comprovando que as coisas andam difíceis para Shyamalan, mesmo antes de sua estreia a produção enfrentou problemas: para não ser confundido com o longa de James Cameron, a produção foi obrigada a retirar a palavra “Avatar” do título, e recentemente Shyamalan foi acusado de racista por não escalar orientais para os principais papéis.

No momento que escrevo esta resenha ainda falta um mês para a estreia do filme, do qual só tenho como referência os trailers promissores já divulgados. Mas há um valor de produção ao qual já tive acesso e posso dividir com vocês minha opinião a respeito: a trilha incidental composta pelo colaborador habitual de Shyamalan, James Newton Howard, que será lançada em CD e download digital pela Lakeshore Records dia 29 de junho. Howard, mesmo nos filmes mais criticados do cineasta, sempre realizou um trabalho da mais alta competência, e fico feliz ao constatar que em The Last Airbender ele não apenas repetiu o feito, mas também compôs uma das melhores partituras resultantes de sua parceria com o diretor.

Assim como o próprio filme, a trilha sonora afasta-se do suspense e se aventura por outros territórios, sendo interpretada pela grande orquestra com nada menos de 120 instrumentos, onde predomina a seção de cordas. Mas sopros e metais também são uma forte presença, e apesar de haver o inevitável acompanhamento eletrônico em determinados segmentos, ele não retira o caráter eminentemente orquestral do score.

O álbum inicia com a excelente “Airbender Suite”, que dá o tom para este notável trabalho de Howard. Como o nome sugere, a faixa é uma longa suíte de 11 minutos construída com vários motivos, e nela ouvi coisas que poderiam muito bem ter sido compostas por, digamos, Basil Poledouris nos anos 1980. É um verdadeiro alento, quando nos aproximamos do final da primeira década do século 21, termos um genuíno score orquestral, épico e tradicional como este. É complicado avaliar uma trilha incidental sem ter assistido o filme ao qual ela acompanha, mas ao final desta faixa inicial fica difícil deixar de pensar que, mais uma vez, o compositor providenciou um maravilhoso suporte musical às imagens.

A faixa inicial do CD também é um dos seus pontos altos, e isto poderia prejudicar a avaliação do material que vem a seguir. No entanto Howard realizou um trabalho na maior parte homogêneo, que nunca se distancia muito do padrão que estabelece no começo do álbum. Ele não nos entrega um tema principal propriamente dito, mas sim um motivo recorrente que identificamos em alguns pontos da partitura, inclusive ao seu final.

Se tenho algum reparo a fazer, é o de que Howard utiliza a percussão em certas sequências de ação de uma forma que virou clichê desde a trilha de Tan Dun para O Tigre e o Dragão, provavelmente para dar à música um sabor étnico, oriental. Felizmente Howard não demora para colocar as demais seções da orquestra sobre esses acompanhamentos. Além da já citada “Airbender Suite”, considero como destaques desta trilha “Earthbenders”, “Journey to the Northern Water Tribe”, “The Blue Spirit”, “The Spirit World”, “We Could Be Friends”, “We Are Now the Gods” e, em especial, a faixa que encerra o CD, “Flow Like Water”. Para concluir a partitura Howard compôs uma faixa que é ao mesmo tempo lírica, tocante e empolgante. Se o filme estiver à altura dessa música, certamente Shyamalan terá recolocado sua carreira nos trilhos, numa façanha digna do pequeno herói conhecido como O Último Mestre do Ar.

Faixas: 

1. Airbender Suite
2. Earthbenders
3. The Avatar Has Returned
4. The Four Elements Test
5. Journey to the Northern Water Tribe
6. Hall of Avatars
7. Prologue
8. The Blue Spirit
9. The Spirit World
10. We Could Be Friends
11. We Are Now the Gods
12. Flow Like Water

Duração: 66:46

Jorge Saldanha

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