EDITORIAL: Quer experimentar o melhor do cinema atual? Jogue!


Pode parecer um clichê se afirmar que, hoje em dia, os videogames já deixaram de ser coisa de crianças e adolescentes. Isso é dito e repetido diariamente, porém para a maioria das pessoas, esta é uma afirmação que parece não espelhar a realidade. Porém, convenhamos – até pelo custo dos consoles de nova geração e seus jogos (principalmente aqui no Brasil), jogar é sim uma coisa séria, de gente grande. Até porque uma coisa leva à outra – os consoles atuais são verdadeiros centros de entretenimento, permitindo que naveguemos pela internet, baixemos e ouçamos músicas, assistamos a filmes e séries em alta definição e, até mesmo, joguemos…

 

Os games e o cinema possuem uma relação de longa data, que iniciou com a adaptação de filmes para jogos, passou pela criação de jogos inéditos com forte influência cinematográfica, e que hoje trabalha numa via de mão dupla: filmes continuam sendo transformados em jogos de consoles e computadores, porém é crescente a adaptação de jogos para o cinema. Essa via, contudo, parece falha: normalmente jogos baseados em filmes são fracos, desenvolvidos e lançados às pressas para capitalizar os lançamentos no cinema, e filmes baseados em jogos raramente resultam em um produto à altura do original. Tome-se, por exemplo, os filmes da série Resident Evil, baseados na famosa série da Capcom e que foram muito criticados pelos fãs pelas liberdades tomadas em relação a personagens e cronologia estabelecidos nos jogos. Na minha opinião, o melhor dessa simbiose ocorre quando os desenvolvedores de jogos aplicam conceitos de cinema em suas criações. O próprio game Resident Evil original surgiu assim, com seu criador Shinji Mikami utilizando vários conceitos e estilos de filmes de horror e ficção científica, principalmente os do diretor George Romero, especializado em zumbis. No entanto, o ápice da relação games/cinema chegou este ano, com dois lançamentos memoráveis que, cada um à sua maneira, já podem ser considerados revolucionários.

 

Grand Theft Auto IV (GTA IV) dá seguimento à polêmica série da Rockstar Games. Muito criticada pela violência e por ser politicamente incorreta, ela coloca o jogador na pele de um larápio que, para se dar bem na grande cidade (normalmente réplica de metrópoles como Miami ou Nova York, ainda que com outro nome) deve realizar várias missões via de regra ilegais, onde roubar carros pode ser a menor contravenção. A série inovou por introduzir, em seu terceiro título, gráficos 3D em terceira pessoa combinados com a possibilidade de explorar livremente a cidade, seja realizando as missões ou simplesmente se divertindo dirigindo carros e outros veículos, batendo/atropelando transeuntes, visitando cabarés, etc. Os mais conservadores podem ficar escandalizados com isso, mas o fato é que o jogo provoca uma bem-vinda catarse, e até por isso é extremamente divertido. E neste seu quarto título, adiciona recursos dos consoles de última geração (como alta definição e áudio multicanal) para apresentar gráficos bem mais realistas, amplos ambientes interativos e mesmo estreitar a relação da série com o cinema.

 

A franquia GTA sempre teve influências dos filmes policiais e de gângsteres, e em Grand Theft Auto IV você vai se sentir dentro de um deles. Na pele do imigrante da ex-Cortina de Ferro Niko Bellic, você chega a Liberty City a convite de seu primo Roman para viver o Sonho Americano. Mas o sonho logo se revela um pesadelo, e para sobreviver você acabará tendo de trabalhar para membros da Máfia Russa. A trama posteriormente fica mais complexa, quando é revelada a verdadeira razão da ida de Niko para a América, e surge uma organização secreta do governo. Entre missões, tiroteios, perseguições policiais, mortes, sessões de sexo com prostitutas, cenas de transição e momentos simplesmente hilariantes, o jogador se vê diante não de um filme, mas de vários – com a vantagem de poder participar ativamente da ação. Para se ter idéia do impacto do jogo, no dia do lançamento (ocorrido no final de abril de 2008), GTA IV gerou em vendas mais de 310 milhões de dólares – superando qualquer recorde de bilheteria de um filme no seu dia de estréia.

MGS 4No entanto, esta seria apenas a introdução para a verdadeira obra-prima que chegou neste último mês de junho de 2008, chamada Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots (MGS 4). A série, saída da cabeça daquele que provavelmente é o mais cinematográfico dos criadores de games, Hideo Kojima, surgiu primeiramente nos primitivos computadores para, posteriormente, consagrar-se nos consoles caseiros. Sua inspiração no cinema já fica bem estabelecida na figura do personagem principal, Solid Snake, inspirado no Snake Plissken do filme Fuga de Nova York. Curiosamente, em uma das embalagens dos primeiros jogos, o desenho de Snake é claramente a reprodução de uma foto do ator Michael Biehn em O Exterminador do Futuro. Mesclando ação furtiva com elementos políticos e de ficção científica, que envolvem clonagem e a criação de sofisticadas tecnologias de guerra, em seu quarto título a série chega exclusivamente ao console Playstation 3 – que graças à tecnologia Blu-ray, permite que assistamos a imagens detalhadíssimas em widescreen e alta definição, mesclando longos vídeos com gráficos do próprio jogo com momentos de ação em que você controla o veterano herói Solid Snake (em terceira ou primeira pessoa) em campos de batalha, infiltrando-se em instalações inimigas e enfrentando Liquid Ocelot e chefes de cair o queixo, os Beauty and The Beast Corps. – tudo com o envolvimento de som Dolby 5.1 que, além de valorizar os fantásticos efeitos sonoros, destaca a trilha sonora que traz composições do compositor de Hollywood Harry Gregson-Williams.

A ação inicia em 2014, quando Liquid Ocelot (anteriormente conhecido como Revolver Ocelot) organiza um exército que rivaliza, em tamanho, com o dos Estados Unidos. Seu plano é controlar à força um sistema de nanotecnologia que permitirá aprimorar as habilidades e a lealdade de seus mercenários. Solid Snake, sofrendo de envelhecimento acelerado (por isso, agora chamado de “Old” Snake), é enviado ao Oriente Médio para liquidar Liquid – porém a ação prosseguirá na América do Sul, Europa Oriental, na Ilha Shadow Moses e em Outer Haven. Com estrutura e ação claramente cinematográficas, MGS 4 é dividido em cinco atos, um epílogo e um emocionante segmento que chega após os créditos finais, e que é importante para a conclusão da história. A exemplo dos títulos anteriores da série, ao longo do jogo a trama se revela mais complexa do que de início parecia. Segundo a crítica especializada, este novo título agrada não apenas por inovar na jogabilidade da série e nos recursos multiplayer, mas também por ter a trama mais inteligente e divertida, que resgata fatos e personagens dos títulos anteriores e introduz alguns novos. Em suma, é uma experiência única, proporcionada por aquele que alguns críticos já consideram ser um dos melhores games de todos os tempos.

Para concluir, GTA IV e MGS 4 são mais do que jogos: são a prova cabal de que, curiosamente, é nos games que, hoje em dia, podemos ter a melhor experiência cinematográfica. E que, exatamente por isso, as propostas de se levar estas franquias para o cinema são descabidas. Kojima mostra ser um sujeito visionário até neste aspecto, já que até agora recusou todas as propostas para levar Solid Snake para o cinema.

 

Jorge Saldanha

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