EDITORIAL: Perdas – Sobre Courage, Hagen, Pollack, estúdios Universal…


Dizem que segunda-feira é o pior dia da semana – tanto que é antecedido, já a partir da noite de domingo, por um surto depressivo – a chamada “Síndrome do Fantástico”… talvez seja assim, talvez não, mas de qualquer maneira vou aproveitar o dia para escrever sobre um assunto que sem dúvida é deprimente – a perda de valores humanos e culturais.

O mês de maio parece ter sido pródigo em mortes de figuras ligadas às trilhas sonoras, televisão e cinema. Como já divulgamos aqui, os compositores Alexander Courage e Earle Hagen, ambos coincidentemente com 88 anos de idade, faleceram e nos deixaram como legado um grande trabalho musical. O primeiro, principalmente, porque além de ter composto um dos mais famosos temas de séries de TV de todos os tempos (Jornada nas Estrelas), construiu uma sólida carreira como um dos principais orquestradores do cinema, tendo colaborado com Jerry Goldsmith e John Williams em alguns de seus melhores trabalhos. Mas, apesar de tudo, não creio que seja o caso de considerar as mortes de ambos como perdas inconsoláveis: ambos tiveram longas e profícuas vidas, e sua obra musical continuará a ser ouvida em filmes, séries e discos.

Sidney PollackJá considero a morte do oscarizado diretor Sydney Pollack, ocorrida também em maio, uma perda a realmente lamentar. Isso porque ele faleceu prematuramente aos 73 anos, vítima de câncer. Não tenho dúvida de que, caso a doença não o tivesse levado, ele ainda nos brindaria com grandes obras como A NOITE DOS DESESPERADOS (1969), MAIS FORTE QUE A VINGANÇA (1972), NOSSO AMOR DE ONTEM (1973), OPERAÇÃO YAKUZA (1974), OS TRÊS DIAS DO CONDOR (1975), TOOTSIE (1982), ENTRE DOIS AMORES (1985), A FIRMA (1993), SABRINA (1995) e A INTÉRPRETE (2005). Filmes que combinavam a arte autoral com a melhor tradição de entretenimento de Hollywood. Pollack era um sujeito versátil que também produzia e era ator, deixando registradas grandes interpretações em filmes seus ou de colegas como Stanley Kubrick (DE OLHOS BEM FECHADOS, 1999), Robert Altman (O JOGADOR, 1992), Woody Allen (MARIDOS E ESPOSAS, 1992), Steven Zaillian (A QUALQUER PREÇO, 1998) e Roger Michell (FORA DE CONTROLE, 2002).

Pollack valorizou seus filmes contratando grandes compositores para criar suas trilhas sonoras. Um de seus colaboradores mais habituais era David Grusin, responsável pelas partituras jazzístico/contemporâneas ouvidas em obras como OS TRÊS DIAS DO CONDOR, TOOTSIE e A FIRMA (1993). Porém, não abriu mão de contratar John Barry para musicar as belíssimas seqüências aéreas africanas de ENTRE DOIS AMORES, e John Williams para enriquecer sua refilmagem do clássico de Billy Wilder SABRINA. ENTRE DOIS AMORES recebeu uma bela referência/homenagem do cineasta inglês Anthony Minghella em seu longa premiado com o Oscar O PACIENTE INGLÊS, uma produção de Pollack. Aliás, Minghella é outra perda lamentável, já que também faleceu recentemente.

Mas a indústria de Hollywood não sofreu apenas perdas humanas recentemente. Ontem, um grande incêndio atingiu os estúdios da Universal, destruindo uma parte do cenário utilizado no filme De Volta para o Futuro, uma exposição sobre o filme King Kong e um compartimento que continha mais de 40 mil vídeos e rolos de filmes. Entre o material que foi perdido ou danificado – felizmente havia cópias armazenadas em um local diferente – estavam todos os registros produzidos de séries de TV como Miami Vice e I Love Lucy. Este sim, para mim, um prejuízo irreparável. Porque mesmo havendo cópias em outros locais, e que estas séries tenham sido lançadas em DVD, estes originais representavam um pedaço valioso da história do cinema e do estúdio. É de se imaginar o quanto já foi perdido nesses grandes depósitos de Hollywood ou ao redor do mundo, seja em razão de incêndios, inundações ou pela simples ação do tempo. São centenas, milhares talvez, de filmes, séries, novelas, trilhas sonoras e dublagerns, todos inutilizados antes que pudessem ser salvos ou restaurados. E, em muitos casos, sem uma cópia adicional sequer.

Perdas. É… temos que aceitá-las. Mas isso não quer dizer que sempre devemos nos conformar com elas.

Jorge Saldanha

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