EDITORIAL: Liberdade para os Wachowski (sobre SPEED RACER)


Digam o que disserem, mas dessa turma de jovens diretores e roteiristas que hoje estão em Hollywood, a dupla de irmãos Andy e Larry Wachowski são dos poucos onde se nota um estilo próprio na escrita e no visual. O problema é que eles, em 1999, fizeram um “filminho” chamado Matrix, que virou uma espécie de objeto de veneração de uma horda de hackers e geeks, e quando vieram as duas continuações, eles se sentiram traídos. Porque aí ficou claro que Matrix não era a Bíblia de uma nova cyber-religião, a pedra-base de uma revolução, mas sim uma nova trilogia sci fi à la Star Wars, com os heróis rebeldes (humanos) lutando contra o Império do Mal (as máquinas).

O estrago foi feito, e os “traídos” (os já citados acima e mais uma leva de críticos que exageraram na louvação ao filme de 1999) não perdoaram aqueles a quem haviam considerado os arautos de uma nova era, e passaram a detonar toda e qualquer obra da fraternal dupla com qualquer argumento que lhes viesse à cabeça. O fabuloso V de Vingança (2006, apenas escrito pelos Wachowski) foi acusado de ser uma apologia ao terrorismo, numa reação surpreendente das mesmas almas que, em 1999, achavam que Matrix era o início da revolução que iria destruir as estruturas arcaicas da sociedade. E agora com este Speed Racer eles voltam à carga, mas sem muito a ter o que dizer. O que importa é que, se é dos Wachowski, tem que falar mal.

Confesso que este projeto, desde o início, nunca me chamou muito a atenção – apenas quanto às razões que teriam levado a dupla a, entre tantas opções de projetos, se jogarem de corpo e alma na transposição para o cinema de um anime (desenho japonês) dos anos 1960. Mas com um pouco de reflexão os motivos se tornam óbvios – a linguagem dos desenhos animados e as referências ao Japão são uma constante na obra dos Wachowski. Bom, quando eu era criança Speed Racer era um dos animes mais destacados. Nunca fui um particular fã do Speed, mas sem dúvida ele me proporcionou alguns momentos de diversão. Mas não foi algo ao qual retornasse posteriormente com freqüência, como muitas séries e desenhos da época aos quais revejo até hoje. E quando vi o primeiro trailer, a minha impressão não foi boa – obviamente os irmãos tentaram fazer um desenho com atores, onde tudo, exceto eles, era artificial e com cores brilhantes. E a física das corridas era coisa de desenho mesmo. Se era para ser assim, para que afinal de contas perder tempo fazendo um filme? Já estava esperando por algo na linha do pavoroso Thunderbirds, outra adaptação de um clássico da época que, além de infantil, era oca como uma bola de pingue-pongue. Por tudo isso, só ontem fui ver o filme por insistência do meu filho de 18 anos, que já o tinha visto e gostara tanto que queria me levar para vê-lo.

Pois bem, vi Speed Racer, não foi uma experiência que me “iluminou” e mudou minha existência, mas é a comprovação de que os Wachowski são cineastas diferenciados que conseguem imprimir uma identificação própria em cada obra sua. É sim um filme para crianças – as cores exageradas, com ênfase nas básicas, são de gibi, a violência é de mentirinha, o casal Speed / Trixie (Emile Hirsch e Christina Ricci) só se beija no fim do filme, tem muita piadidinha com a dupla Gorducho / Zequinha e as corridas são delírios non sense em computação gráfica, misturando as que víamos no desenho original com as de outro clássico, este americano e de outra dupla, a Hanna/Barbera – Corrida Maluca. Aliás no filme há uma clara homenagem aos desenhos da Hanna-Barbera, quando o Gorducho e o Zequinha “entram” num desenho com traços parecidos aos da produtora americana, tendo ao fundo trilhas do meu desenho de aventuras preferido, Jonny Quest. E falando em trilha, a incidental do Michael Giacchino é muito boa, usando de forma econômica mas eficaz o tema musical do anime e trazendo vibrantes composições próprias.

O roteiro de Speed Racer é (bem) trabalhado em torno de duas idéias básicas constantes na obra da dupla – o poder de grandes corporações (máquinas?), que tentam absorver os indivíduos, e a importância da união familiar. E a conjunção dessas idéias com um visual de viagem de ácido sessentista, fazem do filme algo único. Alguns acharam que os diálogos se estenderam demais, mas isso era necessário para dosar bem a fluidez do filme e não cansar os olhos do espectador com as corridas alucinantes. Para mim a receita funcionou, e me agradou a mensagem que o filme deixa: a de que vale a pena lutar contra a opressão (seja ela as máquinas, as corporações ou um governo repressor) e defender sua família. A relação dos irmãos Speed e Rex Racer (Hirsh e Matthew Fox) é exemplar neste aspecto, e me pergunto se ali não está espelhada a própria experiência pessoal dos irmãos cineastas. Que, sem dúvida, possuem experiência em lutar contra jogos de cartas marcadas. Se em Speed Racer são as corridas que são arranjadas, aqui fora é o que? Seja o que for, só espero que os dois continuem tendo liberdade para fazer seus filmes. Por piores que eles sejam, sempre terão duas coisas que faltam na maioria das produções de massa atuais: estilo e alma.

Jorge Saldanha

2 comentários sobre “EDITORIAL: Liberdade para os Wachowski (sobre SPEED RACER)

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