Resenha: I AM LOVE – John Adams (Trilha Sonora)

Música composta por John Adams
Selo: Nonesuch Records
Catálogo: 52484-2
Lançamento: 15/06/2010
Cotação*****

O luxuoso e forte novo filme do italiano Luca Guadagnino Io Sono L’Amore / I Am Love é uma experiência de múltiplos sentidos. E claro, em um longa onde a sensação visual e sensorial é tão importante, a trilha sonora tem um ponto fundamental. E para a trilha Luca requisitou ninguém mais ninguém menos que um dos compositores mais importantes da história dos Estados Unidos, vencedor de números Grammys e do prêmio Pullitzer – John Adams. O estilo de Adams lembra muito o de outro compositor Phillip Glass, que utiliza o minimalisno em suas obras, e Adams claro não é diferente.

A história de I Am Love é daquelas que há muito tempo não víamos em filmes: a tragédia clássica da esposa dedicada pertencente à quatrocentona e poderosa família italiana Recchi, que se apaixona sem barreiras pelo melhor amigo de seu filho mais velho (e também mais amado). O resultado é trágico e clássico, e nos dá um sabor de finalmente estarmos vendo um drama à moda antiga, com uma parte técnica impecável e atuações aterradoras. A trilha sonora, então, é uma trágica ópera que soa como um personagem desta aterradora história.

A belíssima primeira faixa, “The Chairman Dances”, é o carro chefe onde as cordas estão em notação musical em agitato, em um andamento em allegro. Aqui é a verdadeira introdução à família Recchi, em especial às duas peças da família mais importantes na historia, Emma (Tilda Swinton) e Edo (Flávio Parenti), e as cordas denotam, ativas e em ritmo fortissimo, as ambiguidades da familia. Seus 12 minutos de duração são uma experiência incrível. Já “Century Rools: I. First Movement” é mais minimalista e está sempre em um tom baixo, ritmo pianinho, onde o piano brilha em uma melodia suave e cheia de sentimentos. “Lollapalooza” é mais ágil justamente por envolver uma busca e é isso que temos na faixa – um sentimento de busca expresso pelos instrumentos de sopro… Esta é talvez a faixa mais tradicional dentro do que é proposto na história, lembrando muito os scores que Nino Rota compunha para Fellini.

Já “Shaker Loops: III. Loops and Verses” é bem mais pacata, o ritmo é moderato e o som pianinho, onde o violino soa bem nostálgico e contido. Ao longo da faixa isso vai mudando, e juntamente ao violino vão se juntando os outros instrumentos, a intensidade do som vai crescendo e no final resultando em uma explosão de sentidos sonoros. “Shaker Loops: IV. A Final Shaking” é bem sensorial e utiliza muito o tremolo nos violinos, aqui a faixa expressa claramente os sentimentos dos personagens em um jogo de emoções expostas através das notas da melodia da faixa. Essa é seguida de “The Death of Klinghoffer: Desert Chorus”, que conta com a presença de um coral extremamente clássico e ativo, mas que ao mesmo tempo se demonstra trágico e pessimista. O coral é acompanhado de um solo de violino brilhante e poderoso. Já “Fearful Symmetries” começa etérea, com um piano doce e suave, e ao longo de seu desenvolvimento retoma o ritmo da primeira faixa da trilha, como se fosse de tema. Na verdade a melodia dos violinos soa realmente como um presságio, a preparação de um acontecimento – do clímax.

Mas as duas faixas mais importantes da trilha são realmente “Harmonielehre: Part II. The Anfortas Wound” e “Harmonielehre; Part III. Meister Eckhardt and Quackie”, que em seu total somam quase 25 minutos de duração e que são extremamente dramáticas e trágicas. Aqui temos a tristeza, a melancolia, o sofrimento totalmente transposto através dos violinos que choram a dor da melodia. Alias, uma faixa não coexiste sem a outra na minha opinião, e juntas formam o ponto alto de uma trilha extremamente forte mas que funciona no filme como uma luva devido à intensidade do longa de Guadagnino. Aliás a trilha, após ver-se o filme, é um tour de force, e não me admirarei se Adams não surgir de sopetão no Oscar deste ano, e até levar a estatueta (a exemplo do orquestrador John Corigliano, que em 1999 levou o Oscar de Melhor Trilha Sonora com seu brilhante trabalho em O Violino Vermelho). Por ser mais ou menos como um epítome dos acontecimentos do filme, denotando ainda mais os sentimentos e emoções do que se passa na narrativa, este score é mais do que necessário para que a trama funcione, sendo realmente um elemento fundamental no filme como um todo.

É então um brilhante trabalho de John Adams, que realizou uma das grandes trilhas sonoras de 2010 – um ano onde os compositores estão inspiradíssimos e muitas trilhas merecem reconhecimento.

Faixas:

1. The Chairman Dances (Foxtrot For Orchestra) 12:31
2. Century Rolls: I. First Movement (Excerpt) 4:16
3. Lollapalooza 6:38
4. Shaker Loops: III. Loops And Verses 6:56
5. Shaker Loops: IV. A Final Shaking 3:52
6. “The Death of Klinghoffer: Desert Chorus”  5:04
7. Fearful Symmetries (Excerpt) 3:02
8. Haarmonielehre: Part II. The Anfortas Wound 12:25
9. Harmonielehre: Part III. Meister Eckhardt And Quackie

Duração: 63:58

Viviana Ferreira

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